Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

MINHA PÃE




Digo sempre e reafirmo: minhas saudades são no plural. Não ligo para as regras do português. Não quando sinto o que carrego diária e a todo instante, em meu coração. Hoje, se estivesse por aqui faria 92 anos. Minha mãe, minha pãe amaaada! E como não acredito em coincidências, recebi ontem essa mensagem (desconheço a autoria) que diz um pouco de quem ela foi, é e sempre será:
“Mãe lê pensamento, tem premonição, sonhos estranhos. Conhece cara de choro, de gripe, de medo, entra sem bater, liga de madrugada, pede favor chato, palpita e implica com amigos, namorados, escolhas. Mãe dá a roupa do corpo, tempo, dinheiro, conselho, cuidado, proteção. Mãe dá um jeito, dá nó, dá bronca, dá força. Mãe cura cólica, porre, tristeza, pânico noturno, medos. Espanta monstros, pesadelos, mosquitos e perigos. Mãe tem intuição e é messiânica: mãe salva! Mãe guarda tesouros, conta histórias e tem lembranças. Mãe é arquivo! Mãe exagera, exaure, extrapola. Mãe transborda, inunda, transcende...”
Feliz Aniversário mãe! Com todo meu amor, recheado de doces saudades presentes e eternas... sua caçulinha.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

FOI PRO CÉU...



Novembro chegou com finados e algumas lembranças e reflexões. O primeiro pensamento que tive sobre os limites da vida foi alarmante. Devia ter uns cinco anos. Nessa época, gostava de ficar ao lado da minha mãe enquanto ela cozinhava.  Às vezes, fazia perguntas difíceis, tipo: "Por que meu pai morreu?" Não entendia essa história dele “estar no céu” ou de visitá-lo numa lápide fria. De alguma maneira, em ocasiões inspiradas, ela me dizia que um dia iríamos nos reencontrar. Que a vida era feita de ciclos e que bastava olhar a natureza, as plantas. Cresci. Passei a observar, principalmente com minha prática num hospital geral, que a natureza da morte foi transformada em convicção, que nos fizeram crer estar cindida da vida. O nascer é então glorificado e o morrer um sacrifício insuportável.
Morte e vida não podem ser vistas como opostas, pois, além de pertencerem ao mesmo processo, estão acontecendo ao mesmo tempo no ambiente físico e psíquico do Homem. Compreender a morte traz um conceito verdadeiro da vida, do amor, da lealdade e também da felicidade. É ir ao fundo da alma, do mundo subterrâneo, onde tudo é transformador. Ao emergirmos de lá, nos tornamos mais sábios e capazes e acompanhar o processo complexo que é a própria vida. No mergulho da alma, compreendemos a natureza e ressurgimos com lições para perceber novos caminhos, tendo a força de vida para enfrentar as fases difíceis e a paciência (ah meu D’us. quantas vezes peço-te dai-me paciência Senhor?!) para aprender a amar e respeitar a vida e a morte com profundidade, sabendo que ela faz parte do macrocosmo e que, portanto fazemos parte do todo, do uno.
Sei que não é bem assim. Mas sei também que as respostas que li nos livros de Deus e dos homens ainda não me satisfazem. O velho testamento, por exemplo, traz um D'us tão cruel que eu não aguento. O meu ser arrepia-se inteiro e encolho-me de medo. Como sei que isso não é justo, busco outras linhas para me inspirar. Leio um pouco de tudo. Quando li Nietzsche encantou-me a coragem de dizer que, em troca de uma vida eterna, morre-se muitas vezes antes de viver. De fato, matar um querer, por culpa, é dizer não ao desejo de expansão da alma. Saramago também me surpreende. No livro Caim, ele resolveu se rebelar contra o D’us do antigo testamento e concluiu: “a história dos homens é a história dos seus desentendimentos com D’us, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”.  É por essas e outras que, às vezes, paro tudo e olho para o céu. Ocasião em que penso na vida e na desimportância dos meus sofrimentos. Penso nos prazeres e no dia em que vou viver plenamente, penso que, se não alcançamos os limites do mundo, se não entendemos a presença de D’us, se não podemos compreender o intangível universo existencial, viver deve ser mais simples. Esse é o meu jeito de ir para o céu.
É preciso aprender a ouvir a voz do coração, a voz interior, mergulhar no inconsciente e perceber sem negação aquilo a que se propõe a alma, seja belo ou não. Ao observar os ciclos da natureza, percebo a sincronicidade do Universo, onde tudo tem um sentido e nada é casual... Até mesmo a morte.
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