Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

terça-feira, 5 de maio de 2026

O que tem em comum: salchicha, iorgute, subconsciente e entre eu e você?

Você ainda usa a palavra “subconsciente”? Talvez valha repensar.
“Salchicha”, “iorgute”, “entre eu e você”. Erros comuns  e facilmente reconhecíveis como tal.
Mas há um outro erro que passa despercebido  e que, curiosamente, é muito mais frequente: o uso da palavra “subconsciente”.

O termo veio de Pierre Janet, e não de Freud. Porém carrega uma ideia problemática: algo apenas “abaixo” da consciência.
Freud estava interessado em outra coisa.

O inconsciente, para ele, não é um “andar de baixo” da mente.
É uma instância ativa, que funciona segundo leis próprias e não obedece à lógica consciente. Não por acaso, entre 1896 e 1900, ele abandona o termo “subconsciente”.

E, em A Interpretação dos Sonhos, coloca o inconsciente no centro da teoria. Mais tarde, em 1915, no texto: O Inconsciente, ele critica explicitamente essa noção marcando de vez a diferença.

E por que isso importa na prática? Porque não estamos falando de sinônimos.

Uma forma simples de diferenciar:
Se você consegue explicar por que faz algo,  mas não precisa pensar enquanto faz , estamos no campo do hábito. Aquilo que muitos chamariam, de forma imprecisa, de “subconsciente”.

Mas quando há repetição, sintoma, autossabotagem e nenhuma explicação que se sustente, estamos diante do inconsciente em ação.

O inconsciente deseja, recalca, disfarça  e retorna. Como sintoma, sonho, chiste ou ato falho.

Alguns exemplos:
Você dirige no “automático”: troca de marcha, freia, acelera sem pensar. Aprendeu e se tornou hábito. Mas também pode, sem perceber, escolher sempre o caminho mais longo, justamente aquele que passa na rua do seu ex. E sustentar que é por acaso.

Ou ainda: esquecer uma palavra, mas saber que sabe, ela está “na ponta da língua”. Diferente de chamar o atual parceiro pelo nome do ex. Aqui, o ato falho não é um acidente é uma formação do inconsciente.

E mais: medo de cachorro após ter sido mordido na infância... há uma memória, uma narrativa.
Mas pânico de elevador sem nunca ter ficado preso?
Nesse caso, o medo pode ser a forma que algo encontrou de se expressar: sufocamento, falta de controle, experiências recalcadas.

Atenção às palavras. Trocar “inconsciente” por “subconsciente” não é detalhe: é defesa.
Porque, quando você nomeia mal, mantém à distância aquilo que te determina.

E o inconsciente, vale lembrar, não precisa da sua autorização para operar! E este lembrete ficará entre mim e você 😉.

#inconsciente #psicanalise #subconsciente #saudemental #terapiafazbem

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