Você ainda usa a palavra “subconsciente”? Talvez valha repensar.
“Salchicha”, “iorgute”, “entre eu e você”. Erros comuns e facilmente reconhecíveis como tal.
Mas há um outro erro que passa despercebido e que, curiosamente, é muito mais frequente: o uso da palavra “subconsciente”.
O termo veio de Pierre Janet, e não de Freud. Porém carrega uma ideia problemática: algo apenas “abaixo” da consciência.
Freud estava interessado em outra coisa.
O inconsciente, para ele, não é um “andar de baixo” da mente.
É uma instância ativa, que funciona segundo leis próprias e não obedece à lógica consciente. Não por acaso, entre 1896 e 1900, ele abandona o termo “subconsciente”.
E, em A Interpretação dos Sonhos, coloca o inconsciente no centro da teoria. Mais tarde, em 1915, no texto: O Inconsciente, ele critica explicitamente essa noção marcando de vez a diferença.
E por que isso importa na prática? Porque não estamos falando de sinônimos.
Uma forma simples de diferenciar:
Se você consegue explicar por que faz algo, mas não precisa pensar enquanto faz , estamos no campo do hábito. Aquilo que muitos chamariam, de forma imprecisa, de “subconsciente”.
Mas quando há repetição, sintoma, autossabotagem e nenhuma explicação que se sustente, estamos diante do inconsciente em ação.
O inconsciente deseja, recalca, disfarça e retorna. Como sintoma, sonho, chiste ou ato falho.
Alguns exemplos:
Você dirige no “automático”: troca de marcha, freia, acelera sem pensar. Aprendeu e se tornou hábito. Mas também pode, sem perceber, escolher sempre o caminho mais longo, justamente aquele que passa na rua do seu ex. E sustentar que é por acaso.
Ou ainda: esquecer uma palavra, mas saber que sabe, ela está “na ponta da língua”. Diferente de chamar o atual parceiro pelo nome do ex. Aqui, o ato falho não é um acidente é uma formação do inconsciente.
E mais: medo de cachorro após ter sido mordido na infância... há uma memória, uma narrativa.
Mas pânico de elevador sem nunca ter ficado preso?
Nesse caso, o medo pode ser a forma que algo encontrou de se expressar: sufocamento, falta de controle, experiências recalcadas.
Atenção às palavras. Trocar “inconsciente” por “subconsciente” não é detalhe: é defesa.
Porque, quando você nomeia mal, mantém à distância aquilo que te determina.
E o inconsciente, vale lembrar, não precisa da sua autorização para operar! E este lembrete ficará entre mim e você 😉.

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