Março
chegou e com ele um pouco das águas tão esperançadas. Olho desconfiada e
temerosa com os rumos do nosso país. Mas, de vez em quando, volta-me uma ideia
fixa: A grandeza da vida não se faz apenas das maiores conquistas. Nem das notícias.
O mínimo múltiplo comum de duas
vidas pode dar um belo sentido à aritmética da existência. Mas os olhos são
treinados para enxergar, sobretudo, o grande espetáculo e acabam não percebendo
a emoção das pequenas cenas. Falo de detalhes que trazem felicidade, falo de
coisinhas que transformam o dia. Hoje, eu olhei o pequeno e engrandeci a vida. Olhar
pequeno é perceber que o corpo não sente dor e que funciona perfeitamente mesmo
quando a gente não se atenta. É ter tempo para andar lento e tomar um copo
d’água depois da caminhada. Olhar pequeno é saber que matar a sede é uma
dádiva. Olhar pequeno é notar que a sementinha plantada há uma semana brotou e
saber que é de uma pimenta forte. É ter certeza de que vai preparar com os
futuros frutos a receita de Pimenta Tailandesa enviada por um amigo e
que vai ter ótimos convidados para comungarem a gulodice. Olhar pequeno é
esquecer o macro e focar apenas no pé de jasmim salpicado de brancos delicados
que a gente chama de flor. É aspirar ao aroma de olhos fechados e ri porque
alguém viu. Olhar pequeno é sentir o cheiro da sombra de uma árvore antiga. Olhar
pequeno é ligar para a mãe, pai, irmão, filho, amigo e ouvi-lo recomendar que
você deva se cuidar. É não explicar que já se cuida, só para voltar a sentir o
sentimento mais antigo de que tem notícia. É fazer silêncio para a grandeza
disso. Olhar pequeno é ouvir uma música que já sabe de cor, mas, desta vez,
prestar atenção na letra, porque veio como o carinho de uma amiga. Eu ouvi
ontem e dizia: “Eu quero aprender os mistérios do mundo pra te ensinar...”
Eu quero, mesmo que o mistério seja pequeno. Olhar pequeno é receber palavras
de amor no celular e essas palavras fazerem chorar, porque vem de uma pessoa
tão especial e querida quanto uma filha. É receber um telefonema de Sampa e ser
a irmã perguntando: “Passou a raiva?” É dar boas gargalhadas e, ao
desligar, viajar num tempo de ternura – que não é passado nem futuro. Olhar pequeno
é saber ler nas entrelinhas do comentário de um amigo o que não veio escrito. É
gostar do que lê. Olhar pequeno é estar com alguém que te pergunta sempre:
“Já disse o tanto que você é importante pra mim?” É responder que não, só
para ouvir de novo. Olhar pequeno é ter certeza de que chá relaxa, que floral
faz bem pra alma, que quiromantes mentem de verdade e que o horóscopo está
certo – se a previsão for boa. É jogar I-ching e ler todo o Hexagrama 13, mas
só fixar a frase: "É propício atravessar a grande água". É jurar que entendeu tudo e que esta é a sua praia. Foi
o que eu fiz agora. Quer jogar também? Só entrar no site. Mas volte logo. Tenho algo importante pra dizer: Olhar pequeno é abrir os olhos
e enxergar a vida grande!






