Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

domingo, 10 de julho de 2011

VIDA ÚTIL...MÃOS NA MASSA

Li outro dia que Bob Daly, depois de ser CEO da Warner Bros, durante dezenove anos, decidiu demitir-se e se tornou o presidente do conselho da organização Save The Children. O que faz um homem - com uma carreira bem sucedida - provocar esse desvio de percurso? Ele está recebendo o que chama de "rendimento psíquico", com a satisfação de saber que está usando sua prodigiosa capacidade gerencial para ajudar a diminuir os sofrimentos das crianças no mundo.
Não sei se a "segunda carreira" tem se tornado uma nova onda. Percebo - com certo alívio - que pessoas que passaram vinte, trinta ou quarenta anos fazendo uma coisa e, então, começam outra atividade diferente, não são surfistas.
O que era visto como a idade da aposentadoria pode ser visto agora, se assim a pessoa o desejar, como a fase dois de uma carreira. Em vez de pensar essa segunda carreira como um anticlímax ou "como uma coisinha para me manter ocupado", as pessoas acabam por enxergar o seu primeiro e cintilante trabalho como um prelúdio para alguma coisa mais importante. Eles entendem as realizações, que eram o ápice de seu sucesso material, como uma preparação para um sucesso ainda maior - como os meios pelos quais eles aprenderam as habilidades que necessitavam para dar a sua maior contribuição ao mundo.
É assim que venho me sentindo. Faz tempo. Sou daquelas pessoas que adorava minha profissão e tudo que construí. Mas, ainda assim, procuro algo mais significativo nessa maturidade. O sentimento que me invadiu, e nem sempre consigo explicar diante de um empregador, e até de mim mesma, é que essa melhor idade se tornou um tempo em que todas as minhas capacidades, habilidades da juventude foram alquimizadas na mais alta manifestação dos meus talentos: algo que será útil não só para mim mesma, mas para todos os outros.
Provoco debates na família, com colegas, amigos. Como assim? Está maluca? Não vai clinicar mais? Desgostou??? Isso não existe, afirmam! Caras e bocas não me fazem recuar.
Aos 50 anos podemos trabalhar por mais vinte ou trinta anos. Nós ainda temos tempo. Ah se temos. Este é um momento em que todos no planeta devem colocar a mão na massa. Não apenas aquelas jovens mãos, com toda a sua força física, mas também as mãos daqueles que são guiados pela sabedoria que os anos trazem. O mercado está aquecido para esses profissionais. Ouço essa afirmativa de uma headhunter e me encho de esperança.
Aqueles que estão na melhor idade carregam as lembranças de um tempo em que o mundo parecia mais cheio de esperança. Essa esperança está faltando agora e é nossa missão restaurá-la.
Nossa vida é feita de relações que mantemos com as coisas do mundo. Nestas relações, importa refletir e atribuir valor as nossas ações.Sobretudo as deliberadas. Na perspectiva utilitarista, da mesma forma que a utilidade de um colírio não está nele - mas no olho a ser tratado - o valor moral de uma ação não está nela. No que fazemos. Ou no que dizemos. Não lhe é imanente, portanto. O valor de qualquer ação encontra-se fora dela. No mundo sobre o qual age. Nas suas consequências. Para saber se o colírio foi útil tenho que verificar o efeito que produziu nos olhos em que foram pingados.
O bom efeito não é o sucesso de quem age. E sim, a alegria do maior número de afetados pela ação! Para afirmamos uma vida - à moda utilitarista - há que se considerar tudo que o vivente se dispõe a afetar. Todas as transformações que pretende determinar no mundo. Afinal, segundo esta perspectiva, é só para mudar o mundo que agimos.
Aquele que não consegue compreender a nova onda de pensamento e de iluminada perspectiva que está varrendo o planeta hoje é alguém cujo tempo no poder deve acabar. Existe uma nova consciência no ar. E todos nós deveríamos contribuir com nossa voz da melhor maneira possível.
É chegado o momento de redesenhar o mundo, não mais com as linhas tradicionais da geopolítica, mas com as linhas humanitárias, aquelas que procuram apaziguar o sofrimento humano desnecessário e que se tornam um novo princípio organizador da civilização humana. Estamos mais sofisticados quanto ao pensamento político e quanto ao amor. Se olharmos para o relógio, vamos ver que temos apenas alguns minutos para despertar de nosso esturpor e recuperar a nossa moxa*. Então, mãos na massa! Estou com ambas e você?(RR)
(Imagem: Internet)
moxa*: cone diminuto composto de plantas ou de folhas de artemísia usado no processo de moxibustão. Moxibustão significa, literalmente, "longo tempo de aplicação do fogo", uma espécie de acupuntura térmica; é um ponto de estímulo de cura dentro da medicina oriental. Estamos nos aquecendo, reencontrando a nossa chama para efetivar a nossa cura.

19 comentários:

  1. Minha amiga Regina. Meu velho passou 30 anos trabalhando feito um operário. Méritos para ele, lógico. Mas depois que se aposentou, guardou uma mente privilegiada na gaveta e foi dormir na rede. Resultado: depressão profunda. A vida não acaba com a aposentadoria. Há muito o que se fazer e passamos a vida toda nos capacitando para isso. Pena que muitos se mortificam.

    Beijão e bom domingo.

    Gaúcho

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  2. Eu sou daqueles que estou [até já passou] nessa "melhor idade".
    É tudo verdade. O valor de uma acção não está nela, mas sim na satisfação de tê-la realizado.
    O tempo urge, é escasso, vamos então sair deste marasmo e recuperar a nossa "moxa".
    UM XIÃO´
    Jorge
    Nota: "Moxa"- esta palavra despertou logo a minha curiosidade - ainda bem que não tive que ir consultar o dicionário popular...]
    J

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  3. Rê, na minha opinião, estas pessoas que, depois de ficarem bilionárias, se voltam para obras assistenciais, o fazem ao perceber que possuem muito mais dinheiro do que poderiam gastar e mesmo assim isso não lhes traz satisfação permanente, nem os gratifica o suficiente!
    Entretanto, os atos solidários em prol de pessoas menos favorecidas,estes sim, nos trazem sensações de verdadeira satisfação, por estarmos fazendo o bem.
    Principalmente quando fazemos algo no sentido de melhorar essas pessoas, e capacita-las a viver melhor, e não simplesmente lhes damos esmolas para resolver problemas emergentes!
    E isto pode ser feito de várias formas.
    Abraços!

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  4. Tudo que se é de bom a fazer,,,que façamos então...grande beijo de linda semana pra ti querida.

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  5. Até mesmo para quem passou toda uma vida no mar, chega uma idade em que se deixa a embarcação."


    Beijo meu.

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  6. Graças a Deus que ainda vão aparecendo pessoas com uma alma grande, aberta e devotada ao bem das crianças, dos desvalidos dos sem ninguém.

    Aqui recebem algum carinho que os anima a continuar doando-se mas a maior recompensa serão esses milhões de sorrisos de crianças que tiveram a sua ajuda e puderam cantar um hino à vida.

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  7. Interessante como esse comportamento se repete mundo afora, acho que depois da satisfação profissional, o ser humano começa a pensar mais na pessoal com certeza, beijão Regina :-)

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  8. Minha kirida Re.
    A benção de fazer um trabalho em prol de alguém que precisa, é imensa.
    Declaro que o maior beneficiado somos nós. Através daquele Ser, Deus nos permite manifestar Amor Incondicional, para exercitarmos vez por outra e quem sabe, decidirmos por manter em cada momento da nossa vida.
    Seria muito bom se as pessoas tivessem uma atitude dessa, mesmo sem esperar a aposentadoria, ou esperar ficar rico. Qualquer forma de amor vale a pena.
    Beijinhos

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  9. Eu concordo com você, sempre temos a oportunidade de recomeçar e hoje com a estimativa de vida em alta podemos sim correr atrás de outros sonhos, onde sintamos prazer e se possível ajudando os outros. Desejo que vc seja feliz nessa nova caminhada, pois vc merece! Um abraço!

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  10. Mas que mulher arretada de coragem é essa, vixe maria!

    Fico tão feliz em ver que as tua "hibernação" te ajudou a encontrar as suas certezas, ao menos daquilo que já não lhe apraz mais.

    Permaneço na torcida, acima de tudo, pelo seu encontro com a felicidade.

    Estou aqui, de mão estendida, que se não tiver outra utilidade, há de fazer com que você não se sinta sozinha, nunquinha.

    Beijo, Regininha, mulher coragem!

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  11. Muito bom esse texto, Rê! A ousadia e a coragem têm cotação alta no mercado profissional. Ainda existem empreendedores conservadores e resistentes, mas esta nova onda vai acabar abarcando o planeta todo, porque estamos passando por momentos de mudança em todos os setores da vida humana. A-do-rei! Gosto de dinamismo e possibilidades. Beijinhos, Angelinha
    http://noticiasdacozinha.blogspot.com

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  12. Li, reli e pensei: será que minha irmiga pensou em se tornar escritora? assim poderia atingir um número muito maior de pessoas, e talento, já sabemos, não lhe falta...

    Sempre é tempo de remomeçar...Rêcomece...

    Adorável teu texto, reflexão profunda, articulada e pra lá de bem fundamentada. Tô dentro dessa tua virada, ou da Rêpaginada que queira dar na vida!
    Bjãozão, amada!

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  13. TODENTRO! Onde é que eu assino?
    Beijo.

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  14. Olá, RÊ, amiga!

    Uma vida de sucesso no campo profissional nem sempre tem por detrás uma vida realizada e preenchida. A ela, nalgumas vezes, está associado o ter "feito mal" em nome da boa gestão, dos resultados no final do ano...
    Fazer bem ao outro é uma forma de nos fazer bem a nós próprios, que sabe bem.

    È louvável que pense assim; vá em frente, faça isso, ajude quem precise - e vai sentir-se bem. Merece parabéns!

    beijinhos amigos, boa semana.
    Vitor

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  15. Ação é preciso...Não podemos parar pois criamos "limo",rsr

    E temos tanto a fazer em várias áreas...Basta querer!

    beijos,ótima semana,chica

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  16. Regina,

    o tempo, rígido, passa , mas aquilo que realizamos com alegria, se eterniza. O homem, hoje, mais e mais se abre à vida interior, pois está compreendendo que a busca do melhor no mundo não lhe basta mais. Está percebendo que a insatisfação cresce por falta de objetivos maiores que é justamente a alegria de simplesmente fazer.

    Um beijo!!!

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  17. Bom é perceber que ainda se pode reverter as coisas.
    Fazer a nossa vida valer a pena, reorganizar as idéias e mudar a rota de nossa vida.Fazer o bem aos outros.
    Bjos achocolatados

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  18. Regina, passei alguns momentos agradáveis aqui no seu blog hoje!

    Obrigada por partilhar com os colegas leitores e escritores um pedacinho de si, da sua vida e pensamentos!

    Escreva mais!

    Esteja a vontade para me visitar quando quiser também.

    ;)

    Um bom dia para si!

    Aninha (almadeaninha.blogspot.com)

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  19. Falou e disse, Regina!

    Nossa sociedade precisas rever alguns pré-conceitos para lá de ultrapassados!

    Grande beijo para ti,

    http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

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