Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

AFINIDADE

Regina Rozenbaum
Fico pensando sobre algo que é muito falado e pouco analisado: a afinidade. A afinidade não é o mais brilhante, mas é, o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais independente também.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que ele foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo mediando a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo sobre o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial.
É raro. Ter afinidade é muito raro. Mas quando ela existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Ela existia antes mesmo do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro de sua boca diante de alguém com quem você tem afinidade.
Afinidade é ficar de longe, pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar uma palavra. É receber o que vem do outro com uma aceitação anterior ao entendimento.
Afinidade é sentir com. Nem sentir “contra”, nem sentir “para”, nem sentir “por”, nem sentir “pelo”. Quanta gente ama, loucamente, mas sente “contra” o ser amado! Quantos amam e sentem “para” o ser amado e não para si mesmos?
Sentir com, é não ter necessidade de explicação do que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar. Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.
A afinidade é um sentimento singular, discreto e independente. Não precisa do amor. Pode existir quando ele está presente ou quando não está. Independe dele. Pode existir a quilômetros de distância. É adivinhado na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.
A afinidade é singular, discreta e independente, repito, porque não precisa do tempo para existir. Vinte anos sem ver aquela pessoa, com quem se estabeleceu o vínculo da afinidade, e no dia em que você a vê de novo, prossegue a relação exatamente do ponto em que parou. É mágico. Afinidade é a adivinhação das essências não conhecidas nem pelas pessoas que as têm.
Além de prescindir do tempo e ser a ele superior, a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente. Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós, para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos sempre presentes.
Sensível é a afinidade e exigente apenas de uma coisa: que as pessoas evoluam parecidas. Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau nas pessoas. Porque o que define uma afinidade é a sua existência também depois.
Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo ou amado e anos após encontra com saudade ou alegria, mas percebe que não vai conseguir restituir o clima afetivo de antes, é alguém com quem a afinidade foi temporária. E afinidade verdadeira não é temporária. É supratemporal. Nada tão doloroso do que contemplar uma passada afinidade, ou ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade. A pessoa mudou diferente, transformou-se por outros meios. A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas e plantios de resultado diverso.
Afinidade é ter estragos semelhantes e iguais esperanças permanecentes. Afinidade é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, quanto das impossibilidades vividas.
Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou, sem lamentar o tempo da separação. Porque ele (tempo) e ela (separação) nunca existiram. Foram apenas as oportunidades dadas (tiradas) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada um pudesse ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado!

*Inspirado por vários afins que habitam meu coração... E motivado a ir para o papel, pela delícia de um reencontro.

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