Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

segunda-feira, 16 de março de 2009

A VIDA LIGADA POR UM (UNS) FIO(S)

Hoje minha mãe desceu para o C.T.I. -Centro de Tratamento Intensivo- ela estava no 11ºandar e foi para o 5º.
O C.T.I. é uma unidade de atendimento de urgência, lugar de tomada de decisões e ações rápidas e, se possível, efetivas para a cura, a salvação da vida.
Hoje quase não se morre mais em casa. O hospital tornou-se o lugar oficial da morte, mais ainda o C.T.I. E esse espaço fechado, isolado, quase sagrado, faz com que a morte se torne indefinida, selvagem, prolongada e escamoteada.
Eu tentei, ah mãe, como eu tentei, nunca ter que vê-la deitada nessa cama fria e insuportavelmente aquecida pelo colchão de plástico. Deixá-la na sua cama, a mesma, do início do casamento, não teria sido melhor?
Eu tentei alimentá-la com as burrecas, azeitonas pretas, queijo parmesão, pudim de leite condensado, para não ver essa sonda enfiada nas suas narinas te dando “suporte nutricional”.
Eu tentei hidratá-la com goles de água, sucos variados, chás, café, para não ver as tantas agulhadas tomadas em suas veias já tão fracas.
Eu tentei fazendo você caminhar, do seu quarto para a sala de jantar, se exercitar e assim conseguir respirar, para não vê-la ligada nesse respirador artificial.
Eu tentei levando você ao banheiro, urinar e evacuar para a fralda evitar.
Eu tentei contando-lhe os “causos” mais absurdos te despertar, para não vê-la sedada.
Eu tentei deixá-la em casa, com suas filhas, genros e netos para não ter que esperar o horário de visita e só dois poderem entrar.
Eu tentei dando-lhe banho e fazendo “day SPA”, evitar mãos estranhas a te manipular.
Eu tentei ouvir seu lamento para evitar seu forçado silêncio.
Eu tentei entender sua(s) escolha(s) para evitar que escolhessem por você.
Eu ouvi seu pedido em casa - “Madre mia piedosa”- tentei traduzir, e trazer a vovó para bem pertinho de você. Mas não consegui deixar de escutar – “Socorro, Regina, socorro” no 11º andar do hospital e ouvir todos lhe dizendo que você estava sendo socorrida.
“O que os olhos não vêem o coração não sente”. Se eu não te vejo o meu coração sente. Se eu te vejo, mãe, o meu coração também sente. Então, esse ditado é uma mentira?
Não, eu não acredito que a vida biológica deva ser preservada a qualquer preço. Eu não acredito que ela deva estar ligada por um (ns) fio(s). Ainda que a parafernália dos médicos continue a emitir seus bips e a produzir ziguezagues no vídeo.
“Para todas as coisas há o momento certo. Existe o tempo de nascer e o tempo de morrer” (Eclesiastes 3.1-2).

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