Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quinta-feira, 30 de abril de 2009

FIM DE MÊS

O mês termina hoje. Com ele minha dor ainda não findou. Passo agora por momentos estranhos. Tento retomar meu trabalho no hospital, hospital que mamãe esteve internada, hospital que trabalho há quinze anos. Preciso entrar no CTI e encarar o Box onde ela esteve por oito longos dias. Me disseram que é assim mesmo: difícil, mas que irei conseguir.
O trabalho não espera minha dor diminuir... São vidas que entram e saem todos os dias, me dizendo que é vida que segue.
Vou seguir... Estou seguindo... Um dia de cada vez e agora para o próximo mês, outra estranheza – Dia das Mães!
Dia das mães sem você, mãe. Dia das mães com meus filhos, por que sou filha sou mãe.

A música desse mês de abril é para todas as mães e filhos : "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar para pensar, na verdade não há!"

quinta-feira, 23 de abril de 2009

HAZCARÁ\LEMBRANÇA

Amanhã completa trinta dias... Um mês que não te vejo mais, que não escuto sua voz, que não me aconchego em você. Sabe mãe, ainda não estou sentindo saudades. Estou vagarosamente deixando os pensamentos se acalmarem, as idéias clarearem na escuridão estranha de nome dor. A sensação que tenho é de proximidade, é do "parece que foi ontem" que estava segurando sua mão e com as lágrimas caindo lhe dizia: - vai, vai mãe, voar seu vôo mais lindo! E lá de cima continue a nos olhar e nos proteger, com suas asas, agora para sempre, eternas. Amo você mãe!

terça-feira, 14 de abril de 2009

PARTIDA E CHEGADA

Minha Tia Marietta é casada com meu Tio Juca, único irmão ainda vivo da minha mãe. Ela também tem uma irmã, minha Tia Gracy/Gorda. Falar do meu Tio Juquinha é um capítulo à parte que deixo para outro dia. Tia Marietta me enviou essa mensagem... Me ouviu ao telefone no último sábado, acolheu minhas lágrimas, disse que vai me dar uma foto,onde estou aconchegada no colo de minha mãe, logo depois que meu pai morreu: "ela estava protegendo a caçulinha". Colo de mãe é a melhor coisa do mundo. Meu colo partiu...
"Henry Sobel, por ocasião da morte de Mário Covas contou a seguinte parábola:
Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara.
O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.
Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.
Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: "já se foi". Terá sumido? Evaporado? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver.
Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exato instante em que alguém diz: "já se foi", haverá outras vozes, mais além, a afirmar: "lá vem o veleiro" !!! Assim é a morte.
Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos: "já se foi".
Terá sumido? Evaporado? Não, certamente.
Apenas o perdemos de vista.
O ser que amamos continua o mesmo, suas conquistas persistem dentro do mistério divino.
Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita. E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: "já se foi", no além, outro alguém dirá :
"já está chegando". Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a vida.
Na vida, cada um leva sua carga de vícios e virtudes, de afetos e desafetos, até que se resolva por desfazer-se do que julgar desnecessário.
A vida é feita de partidas e chegadas.
De idas e vindas. Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.
Assim, um dia, todos nós partimos".

ELABORANDO O LUTO

Estou tentando da dor sentida dar à ela nome, rosto, substância. Das perdas amorosas à morte, do pensar uma trajetória de vida, me convido para repensar o viver.
Perder, entristecer e doer mobilizam reunião. Muitos se aproximam com disposições diversas. Variações desde a curiosidade, passando pelo alívio do “antes ela do que eu”, da necessidade pessoal em oferecer o consolo legal, até a sincera presença. O que seria uma sincera presença senão uma presença sem cera, com apenas a intenção de estar, apenas acompanhar e expressar: “meninas estou com vocês”.
É possível viver este silêncio na dor, suportar o insuportável? Posso atestar que não é fácil. E posso atestar que tenho tido o privilégio de amigos que se irmanaram na minha/nossa dor e não se distanciaram e nem se intimidaram por não saber o que fazer. Esta minha dor também passou a ser delas e aí nos tornamos parceiros. Essas pessoas não fugiram, não contaram piadas, não fizeram de conta que sou suficientemente forte e espiritualizada para agüentar.
Durante o velório e dias subseqüentes ouvi explicações e consolos, que acredito, adotados por pessoas que jamais tenham mergulhado na reverência à perda e a todo processo requerido para sua assimilação.
“Ela já estava fazendo hora extra aqui”, quem determinou? “Ela está num lugar muito melhor que a gente”, você já foi para saber? “Parou de sofrer”, quem lhe disse que ela estava sofrendo?
Morre-se por se estar vivo, ponto.
Ao perder, e também sentir o amparo, a consideração, o carinho, a acolhida, conquista-se o poder de “afracar” a dor, torná-la menos árida, vivê-la respeitosamente, sem aumentá-la, desnecessariamente, e nem dissimulá-la. A tal da justa medida, da justa pedida.
Um abraço forte, silencioso e quente é suficiente.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

CARINHO DOSE DUPLA

Como vocês devem ter observado, não consegui escrever desde o último dia 05/04. Hoje aproveito para postar aqui algumas msgs que aqueceram meu coração. Não consigo dizer, por enquanto, mais nada além de OBRIGADA a cada um de vocês que eu amo de viver e a todos que eu vivo amando...



Parece que não tenho 52 anos, por causa de alguns comportamentos que tenho. Fiquei muito impressionado no dia do enterro de sua mãe, senti uma vontade imensa de poder assumir a sua dor... impossivel. Será semelhante no dia que a minha for. Fiquei mais uma vez pensando no sentido da vida(coisas de homem sem fé). E tenho me cobrado o por que , que em horas dificeis da sua vida, sumo, querendo estar perto. Fujo do amor, da realidade, da morte (perda). Isso tudo para continuar prevervando de maneira invertida, a pessoa que mais amo nesse mundo, que mais admiro , que mais respeito, que é vc. Obrigado por ser minha amiga, e por esse exemplar enfretamento com as dores. Fico aprendendo sempre com vc. Tenho lido tô fora tô dentro e admiro a maneira sábia que vc coloca seus pensamentos e sentimentos. TE AMO MUITO....
Kleber


Regina,
Ao longo dos anos tivemos oportunidade de conhecer um pouquinho da D. Lucy.
Sabemos que ela foi uma mãe especial.
Que amou muito à todos a sua volta e não só às filhas.
Um pouco desse carinho sobrou pra nós como família que somos.
Um abraço forte de pesar por sua morte.
Força para superar este momento, com as tantas boas lembranças que com certeza ela deixou.
Vergílio e Jussara.



Oi Regina
Já faz um tempo que estou querendo te escrever para demonstrar os meus sentimentos pela perda de sua mãe. Na verdade, eu gostaria de ter te dado um abraço pessoalmente, pois isso vale mais que mil palavras. Mas, por causa dessa nossa vida compromissada, não pude comparecer ao velório.
Senti muito ao saber da notícia, tanto por você, minha tia e madrinha do coração, pelos netos, todos muito queridos por mim e por toda a família. Mas, principalmente pela Dona Lucy, amante da vida, de quem eu vou sempre lembrar bonita, alegre, festiva, com um sorriso no rosto.
Eu sei que nada consola nessas horas da vida, mas onde há morte, também há vida. E nesse momento uma vida nova está formando dentro de mim, uma notícia que tinha que te contar, e está fresquinha, pois acabei de saber. Quem sabe não virá um bebezinho Johnson também? Quero que você “curta” ele, ou ela, como me curtiu, pois uma criança é um presente divino para as pessoas ao seu redor!
Beijos no coração,
Karlinha.



Minha querida Regina!
Saudades!!! De sua presença na casa do Richard, de seu jeito alegre e determinado, de sua firmeza para fazer as coisas andarem rápido.
Tenho tido notícias suas e posso imaginar que as coisas ainda estão doídas. Certamente, estarão assim por algum tempo, até que o coração possa fazer com que a ternura das lembranças seja mais forte que a ausência. Não sei ao certo como isto se dá, mas, sei que assim aconteceu com outras pessoas.
Quando sentir-se com vontade de um abraço ou um ombro amigo, saiba contar com o que temos para lhe oferecer. É por vezes difícil para mim entender a distancia entre a intimidade e a intromissão. Mas, se precisar estarei aqui.
Um forte e carinhoso abraço.
Clara


Rê,
Sei que este tempo é necessário e importante para fortalecer as pernas que vão continuar o caminho sem as mesmas referências de antes. Sei também que despedidas não podem ser evitadas, pois, cozinham a perda em banho maria e deixam o coração em sangramento crônico.
As palavras foram meu desejo de estar perto e confortá-la. Se pudéssemos evitar o sofrimento de todos que amamos, a vida seria simples demais.
O fato é que também quero dizer-lhe que não somente a sua alegria, mas também sua dor merece nosso acolhimento.
Respeito seu tempo e reconheço a legitimidade de sua necessidade de recolhimento, mas, não quero falhar contigo no momento em que mais precisa. Por isto, quando me coloco em sua pele, sinto que talvez você precise saber do quanto é querida e amada. E que ainda de longe, saiba do quanto poderá contar com nossos corações para curar o seu neste momento.
Sei que a dor que sentes agora não pode ser evitada, tão pouco diminuída. Esta dor honra o legado que sua mãe lhe deixa em valores, cumplicidade e tantas lembranças e marcas definitivas deixadas na pessoa que você é.
De qualquer forma, no seu tempo, saberás quando, como e para onde caminhar, traduzindo dor em nascimento. De acordo com os xamãs, sábios são aqueles que aprenderam sobre o desapego. E não pode haver desapego maior do que lidar com esta perda. Confie em sua sabedoria, sua espiritualidade, sua amorosidade e, sobretudo, confie em nós, seus amigos.
Se precisar conversar pode chamar. Se precisar de abraço pode pedir. Se precisar de um tempo em silêncio, será seu.
Um tantão do meu carinho e amor para você.
Clara

Tudo bem? O tempo já está te ajudando neste momento, mas se você precisar eu estou aqui!
Bjs
Andrezinho
Amiga
Estou te respeitando, mas me liga! Dê notícias...
Bjos
Júnia
Oi Ré!
Você não sai das minhas preces. Saiba que estou de luto com você.
Um beijo carinhoso no seu coração
Márcia Abobrinha.

domingo, 5 de abril de 2009

REGINA DAS DORES

Nesses últimos 10 dias venho recebendo o carinho, conforto de muitos amigos. Quando me perguntam, diariamente, como estou, respondo: - hoje, sou só dor. É uma dor diferente de todas que já experimentei, é nova, esquisita... Já passei por muitas dores: de dente, ouvido, torcicolo, lombar, cistos, gravidez tubária, pós-cirúrgicas, assalto e outras que o corpo já não se lembra mais, ainda bem!
Dores na alma: Vovô, Tio Jacques, Vovó, Ivete, Vitória, Daniel, Tio Salvador, Tia Rosita... Que sempre retornam em lembranças silenciosas.
Dores presentes na ausência da minha história: meu pai.
Mas de tantas dores essa, minha mãe, é a mais doída. Mesmo se alguém tivesse me contado que existia dor assim tão forte ela não seria diferente. Sei que apesar da dor ser uma travessia solitária, outras pessoas em circunstâncias e lugares diferentes conheceram a dor, mais ou menos intensa, não importa, conviveram com ela e continuaram após ela.
O que vivemos são momentos de dor, no fluxo e refluxo de nossas vidas. Vida que é movimento, que circula entre partículas e ondas, numa combinação infinita; Dor que assinala o momento vivido, o ir e o vir, as faltas e os excessos.
A dor - da perda, da impossibilidade, do abandono, da solidão, da separação, da traição – quando negada, tende a ganhar a dimensão do irreal. Sem negação vivo hoje, minha dor.


APRENDIZ DA DOR

DOR QUE DÓI

QUE MEXE E REMEXE

COM O CORPO E COM A ALMA

QUE CONTA COISAS SOBRE MIM
QUE EU SABIA

E NÃO SABIA QUE SABIA

AGORA SEI

DE UM JEITO DOÍDO

O QUE NÃO QUERIA SABER

quarta-feira, 1 de abril de 2009

PARA VOVÓ

Na segunda-feira 02/03, meu sobrinho Gustavo fazia 30 anos, e escrevi sobre o aniversário dele e a ausência da mamãe. Nem imaginava que na sexta-feira 06/03, ela seria internada e de lá só sairia para sua derradeira viagem. O Gu esteve com ela de maneira especial, todos os seus trinta anos de vida. O neto de cabelo de "mercúrio cromo" vai se casar em 2010 com a "branquinha"(Ilana) e minha mãe queria muito ter essa alegria. Você mãe, vai ter. Vai assistir de camarote especial: ao lado do CRIADOR dessa grande peça de nome VIDA!







À minha família,

Envio, em anexo, o texto que escrevi para a vovó e li hoje na casa dela, durante a reza. Registrei neste texto as mais vivas e fortes lembranças que me ocorreram assim que iniciei a jornada solitária de volta da China, logo após a triste notícia do seu falecimento. É claro que tem muito mais coisa para falar, para lembrar, para escrever, afinal de contas, como ela foi tão capaz de proporcionar à nossa família momentos tão plenos de integralidade familiar (mesmo sem a presença do vovô), alegria, festejos e união! Além disso, cada um de nós também tem as suas memórias e passagens individuais com ela que, com certeza, são todas muito preciosas e não tenho como desvendar... Essas devem ser guardadas (e porque não, reveladas ao longo do tempo?) com muito carinho por nós! Espero que este texto possa nos trazer conforto, ajudar-nos a relembrar de outros tantos momentos felizes que vivemos com a presença dela e que contribua para mantermos acesa a chama de sua memória e de nossa ligação como família!!! Tentei condensar na poesia, principalmente, a força, os valores, as atitudes e o amor que ela me ensinou enquanto esteve aqui conosco! Com o aprendizado, com certeza, ela mantém-se viva aqui dentro do meu coração. Para que conheçam a história desta poesia, foi escrita nas longas horas de vôo que tive e, logo que cheguei de viagem, na sexta-feira, a Ilana me buscou no aeroporto e fomos juntos diretamente para o cemitério, onde visitamos a vovó, fiz-me presente, a posteriori, em sua despedida da família, rezei um Shemá Israel para ela, li para a vovó a poesia e rezei um Kadish pra ela. Ao final, antes de ir embora, depositei a poesia onde ela está. Com isso, senti como se tivesse participado da despedida dela com vocês... Boa leitura e boas memórias!


Amo vocês.


Beijos, Gu.


“Madre”
Vida e Reencontro
Uma simples homenagem para minha amada Vó!


“Madre”, ela dizia!
em suspiros bem seguros,
ao longo de toda a vida,
para espantar os seus apuros,
era a força da minha vó querida,


“Venham todos”, brilhando os olhos!
sentar em volta de uma farta mesa,
“pepinicos” com sal, “huevos” de sexta-feira ela fazia,
“tomates reinados”, mas que beleza,
santa rita durão, era um pra meio-dia,


“Madre-Mia”!
dirigindo o fusca ia sempre em frente,
para dedicar-se à nossa alegria,
“Shemá Israel” à noite, era a D’us temente,
agradecendo e para o novo dia,


“Vá tranqüilo”, foi com firmeza,
em minha mais difícil decisão,
de ir embora para viver só,
o seu apoio foi o empurrão,
ao chorar o neto no colo da vó,


Quatro anos havia se passado,
e, no Rio, foi me visitar,
já não era a mesma, pude perceber,
de mãos dadas, na praia do Leme, entramos no mar,
papéis trocados, não dá pra esquecer,


“Madre-Mia Piedosa”!
mais freqüente e frágil o seu suspirar,
o apoio mudou de lado, sinal do tempo,
animando-a a se levantar e ajudando-a a caminhar,
é muito forte o meu sentimento,


Eu estava longe, você foi embora,
estou voltando logo, mas vou sentir saudade,
o que conforta é que é chegada a hora,
de reencontrar-se, enfim, com sua tão chamada “Madre”!


Vó, te desejo o mais lindo dos lugares...
Com todo o meu carinho e admiração,
Te amo eternamente.


Gustavo Rozenbaum Bcheche, 26-27/03/2009
Pequim/Paris/São Paulo/Belo Horizonte,
nos céus deste mundo, de algum lugar bem perto de você,
senti que nos encontramos enquanto eu voltava e você subia.
A sua força estará sempre comigo!
PEK-CDG-GRU-CNF
AF 0125 – AF 0454 – GOL 1648
13:45 (Beijing Time) 26/03 – 11:50 (Brasília Time) 27/03




OITO DIAS SE PASSARAM

O tempo urge. O tempo nos diz sempre: é vida que segue. Cada dia desses foi experimentado de jeito diferente. A dor continua presente... Cada dia com coisas por fazer, e nada a dizer, se apresenta com roupagens diversas. Seguir em frente é o que determina o tempo. Arrumando as coisas da mamãe encontrei, para mim, duas preciosidades. Em uma de suas bolsas estava um cartão, escrito a mão, que transcrevo abaixo:
“Artigo – 230 – A família, a sociedade e o Estado (grifo dela) tem o dever de amparar pessoas idosas assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e garantindo-lhe o direito à vida. (o Estatuto tem vários itens, todos precisam ler e aplicar)”.
Numa pasta, também escrita a mão, encontrei a seguinte carta:
À
Prefeitura Municipal de Belo Horizonte
Àtt: Secretário Adjunto da Fazenda/Adalberto João Patrocínio
Belo Horizonte, 27 de dezembro de 2003.
REF: Revisão IPTU/Índice cadastral: 005011019001-3
Prezado Senhor
Tenho tido sérios problemas financeiros nos últimos anos e não estou conseguindo honrar com todos os meus compromissos. Sou viúva há 42 anos e resido desde então em meu único imóvel (grifo dela), herança deixada por meu marido.
O IPTU de minha casa está elevadíssimo para uma residência, até mesmo para as condições que se encontra o imóvel. É preciso ter o IPTU mais justo!
A casa já tem 50 anos e está cheia de problemas. Há infiltrações nos quartos, a rede de esgoto precisa ser refeita com urgência, a pintura está toda descascando, as janelas de madeira cheias de cupim e as portas emperradas. Infelizmente não tenho dinheiro para consertar estes defeitos e convivo com eles aos meus 81 anos de idade.
Estou tentando colocar minhas contas em dia e para isto venho através desta carta, solicitar a revisão do valor do IPTU do meu imóvel, em função do estado em que se encontra. Em outras cartas, já escrevi à prefeitura com provas da minha condição financeira.
Aproveito para solicitar a isenção da taxa de limpeza pública, já que produzo pouco lixo e esta pesa no meu bolso.
Certa de sua compreensão agradeço antecipada, com votos de um Feliz Ano Novo 2004.
Atenciosamente
Lucy Rozenbaum
Minha mãe sempre foi assim. Lutava pelos seus direitos sem pedir ajuda às filhas. Quando víamos, as coisas estavam resolvidas à sua maneira, sem incomodar ninguém. Não gostava de injustiças e brigava feito ela só, quando se encontrava diante de uma.
Tenho um orgulho danado da D.Lucy.
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