Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

SÓ UM MUNDO DE AMOR PODE DURAR A VIDA INTEIRA



Deve ter mais ou menos dois anos – acho eu – que li a crônica abaixo no blog do meu amigo Manuel. Já àquela época afetou-me intensamente. Hoje, lendo uma coisa aqui, outra acolá e escutando o que nem sempre gostamos de ouvir, fui buscá-la nos arquivos. Parece-me como aquele pretinho básico, que nós mulheres temos e que nunca cai de moda. É... A situação da minha montanha de emoções anda russa. Enquanto o brinquedo não para (quero descer!) vou vivendo... só por hoje! Bom feriado a todos!!!

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
(Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso')

16 comentários:

  1. Querida irmiga, siamesa do outro lado do oceano. O Miguel tem alguma razão, mas não existem receitas para o amor e para a vida. Quantas vezes tentamos confortar aqueles de quem gostamos e apenas conseguimos fazer isso mesmo, sentem mais conforto, mas de facto as dores, as dificuldades têm que ser vividas, sentidas e fazem doer.
    O amor, por mais percebe o que o Miguel quer dizer, não tem que ser uma coisa destrambelhada.
    Quer estejamos tristes ou alegres, apaixonados, ou em espera, atravessando dores e dificuldades ou no auge da felicidade, a coisa mais importante é conseguirmos manter a paz dentro de nós e, isso sim, é de facto uma coisa difícil, porque implica aceitação, coragem, ação, revolução quebra de regras, dedicação, força, tudo em simultâneo ou uma coisa de cada vez.
    E eu, apaixonada que sou, não acredito que esse amor, de que o Miguel fala, tenha morrido. Porque eu própria já lutei fantasticamente, rumando ao desconhecido apoiada em certezas sem base ou fundamento, construindo castelos no ar, içando bandeiras, correndo riscos, contrariando as convenções,por causa de uma amor sem explicação e, sabe uma coisa? ganhei...Exausta, de língua de fora, mas ganhei
    E...depois... foi preciso começar a construir, todos os dias, aceitar que nem mesmos os sonhos são prefeitos, que o objecto do nosso amor não é um príncipe de conto de fadas, mas um homem com qualidades e defeitos, que nem todos os momentos são o auge de felicidade, que há problemas exteriores, ou interiores, que podem afetar o relacionamento. E aí sim, vamos ver se aquilo é amor, ou se era apenas paixão. O AMOR MAIÚSCULO, não é tarefa fácil não
    Eu fiz...há poucos dias... 3 anos de LUTA, 10 de CONSTRUÇÃO, que é uma luta também e dá um trabalhão...Jinhos Grandes

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  2. Ah! Como eu acredito neste amor puro! E como eu já quebrei a cara! Nem ligo, colo os pedaços e vou amar de novo!
    Bjs.

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  3. "Amar é conhecer mais do outro do que ele sabe de si próprio, e descobrir que ele conhece mais de nós do que nós mesmos."

    Beijo.

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  4. "A vida dura a vida inteira".
    "O amor dura uma eternidade em cada batida do coração."

    Beijo.

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  5. Muito interessante sem dúvida essa crónica.
    Bjs, fica bem!

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  6. Leio, por vezes, o Nosso MEC. Tem crónicas fantásticas. Esta não conhecia...Matutei e irei continuar matutanto no ele escreveu. Obg por poder lê-la. Não me admira que (lhe) cause impato...

    Bjos, querida Rê :)

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  7. Ah, vou levar a crónica para poder reler quando me apetecer, certo?
    Bjosss

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  8. Amar é...loucura! Insanidade temporária.
    Lindo texto do Manuel.

    As sequelas após a virgula a gente tem que administrar da melhor maneira possível, um dia por vez.
    bjs
    Jussara

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  9. Eu adoro o amor e penso que pode ser pra sempre, desde que nos faça feliz!Lindo texto! beijos,chica

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  10. Eu sou daquela que ainda acredita que
    ainda existe amor.
    Nem sempre é prazeroso amar demais sempre vem algum sofrimento pela frente ,pois nem tudo na vida sai exatamente como sonhamos .
    Lindo texto e sem duvidas o amor é lindo.
    Um feliz final de semana beijos,Evanir.

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  11. Eu já havia lido lá no Tony. É para fazer pensar esse retrato do amor e não me canso de ler.

    Beijo, viu?
    Seja amor, sempre amor.

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  12. A revanche dos românticos...
    Voltando das trevas, depois colocarei minha leitura em dia, vendo o que eu perdi nesta ausência...
    Continuo conectado!
    Obrigado pelo apoio e pelas mensagens!
    Abraços, Rê!

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  13. Olá, RÊ!

    Aqui arribo de novo, após uma pausa que se prolongou para além do previsto.
    E encontro um texto delicioso,que não conhecia, em forma de longo trocadilho: O amor perfeito; certamente num qualquer outro mundo que não este, onde a emoção sempre levasse de vencida a razão, já que as duas juntas, ao que consta, nunca se entenderam lá muito bem, nem nunca entenderão...

    Beijinhos amigos; bom fim de semana.

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  14. ..."o amor é mais bonito que a vida."

    O texto é mesmo um pretinho básico...todos temos um??
    É irmiga, tocou-me tb, profundamente - levei-o para que "mais alguém" possa desfrutar dessa dualidade...
    Um beijãozão saudoso de ti!!!!

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  15. Regina, este texto é muito bonito.

    Ainda bem que existe o amor, o mundo precisa da força dele. Eu vejo nas pequenas ações, como um olhar, um gesto, uma palavra.

    "o amor é um estado de que se sente, é a nossa alma".

    Beijos

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  16. O Miguel sabe do que fala e escreve...quando ele próprio vive um amor assim : para a eternidade!
    O amor é uma coisa e a vida, outra!
    Sem dúvida!
    Parabéns por teres escolhido esta crónica do MEC.
    Beijocas
    Graça

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