Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

VIVA LA VIDA


Tem vezes, muitas, que a saudade me deixa de olhos vermelhos e, se descuidar, me sufoca. Coisa inútil. De pequena compreendi que santo de casa não faz milagre e agora descubro que fez sim.  A etiqueta de D.Lucy foi construída na luta diária e ensinada a todo instante. Na primeira capotada, que a humildade nunca é demais; que a firmeza de caráter costuma vencer; que a elegância não é da roupa, mas de quem a veste; que o céu é generoso com quem não pede só para si; que desejar e conseguir é arte que se exercita em silêncio e quase sempre em solidão; que a beleza é uma religião, como o é a verdade.
Crescem os sentimentos que mudam como as cores ao entardecer, a percepção mais profunda, a capacidade de perdoar infinitamente maior. Acaba-se com a necessidade de ser atriz e surge o prazer de ser espectadora, de aproveitar o que resta como se fosse uma vida inteira, que inteira mais não é. Vida maravilhosa - essa que vale a pena ser vivida – que se compreende apenas no fim viver.
(Imagem: Karin Izumi)

domingo, 27 de maio de 2012

BANDINHA OU GIL?


De sexta prá sábado fui dormir às três da manhã. Depois de show de Gil, pizza, vinho, e umas tantas risadas. Sábado é dia que posso acordar mais tarde... Fazer aquela horinha na cama, exercer o pecado da preguiça sem culpa e necessidade de confissão. Danem-se as tarefas domésticas e que aguardem minha vontade de rainha em executá-las. Na sexta-feira, à noite, choveu por aqui entrando pela madrugada. Meu sono foi embalado pelo barulhinho da água na janela, o friozinho minimizado por uma manta deliciosa e o amanhecer escuro reafirmava que poderia pecar. Mais ou menos. Às seis e meia começo ouvir vozes animadas bem debaixo da janela. Estariam chegando de alguma balada? E o volume de gente e vozes só aumentava. Tentei fazer ouvidos de mercador até quando, pontualmente as sete da matina, escuto uma bandinha (é gente, bandinha que nem essas que tocam em coreto de praça de cidade de interior):
Acorda Maria Bonita / Levanta vai fazer o café
Que o dia já vem raiando / E a polícia já está de pé
Ok vocês venceram: não sou Maria, nem Bonita, muito menos polícia, mas já estou de pé! Tá, tudo bem que as músicas tocadas atualizaram as saudades de mamãe, mas carecia de ser tão cedo e no sábado?! Aniversário de 89 anos da senhorinha vizinha do outro lado da rua. Parabéns pra ela – que de fato é bem fofa - e agradeço por esse despertador sui generis.  Enquanto passava o café (sou cumpridora de ordens) penso no show intimista, só cordas (violão, violino, celo e baixo), de comemoração aos 70 anos de vida de Gil. Posso contar? Não gostei. Achei suas novas canções um tanto velhas melancólicas pro meu gosto e pro meu momento. Talvez ele tenha sido contaminado pelo vírus da impermanência e está tentando se imortalizar nessas letras e melodias. Nem carecia. Já está num Expresso 2222 a caminho de um Domingo no parque. Afirma ele, numa dessas novas, que Não tenho medo da morte, mas a letra é sim uma reflexão – intensa - da morte em vida e seus acontecimentos inesperados:
Não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

A morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem fígado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

Não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

Então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.

Quer saber? Prefiro despertar - para a vida - ao som da bandinha a dormir com medo de morrer!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

INSPIRAÇÃO PARA O FINAL DE SEMANA


"É Proibido"

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender os que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.
 (Pablo Neruda*)
(*PABLO NERUDA (1904-1973) foi um poeta chileno, bem como um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX.)
Imagem: Gustavo Bcheche

quarta-feira, 23 de maio de 2012

COISAS DA VIDA

Estava lendo a postagem de um amigo quando me surpreendi com sua fala de desculpas. Desculpas por ter feito um comentário chorão em algum lugar da blogosfera. Sei bem, muito bem, que ninguém gosta de gente que só reclama o tempo todo. Não penso que seja seu caso. Em contrapartida é insustentável, para mim pelo menos, a obrigação de estar feliz. Tirania besta! Já viu alguma foto, recentemente, onde todo mundo não esteja sorrindo?! Raridade dos tempos de minha avó alguém com expressão de seriedade ou tristeza na pose. Quando nos perguntam as novidades, a maioria só suporta ouvir as boas. E só é permitido, incentivado, que tenhamos boas! Quem dera habitássemos um planeta assim. Não teria virado um fardo essa tal felicidade vinteequatrohoras por dia nosso de cada dia? Será que esse fardo não poderia dar lugar à leveza que aceita conviver com a tristeza, a angústia, os fracassos, as limitações – com “a vida como ela é”, e não como nossa cultura euforizante gostaria que fosse? No Brasil, entre 2005 e 2009, as vendas de antidepressivos e estabilizadores do humor cresceram 44,8%. De acordo com dados da Previdência Social, os transtornos mentais e comportamentais já são a terceira causa de afastamento do trabalho no país! Também pudera... Temos que esconder nossa “infelicidade de não sermos felizes” em tempo integral. A tradição filosófica distingue a felicidade e o prazer. Prazeres se dão no instante, e nele se produzem e se esgotam. A felicidade, diz Rousseau, é “um estado simples e permanente”, em que “a alma basta a si mesma”. Não é uma sucessão de estados eufóricos e depressivos. Nossa época é um tanto bipolar porque, de tanto buscar a euforia, ela cai inevitavelmente na depressão e na melancolia. Então, quando fazemos da felicidade uma obrigação, estamos chamando de felicidade o que é, mesmo, um prazer intensificado e permanente. O único problema é que isso não existe... A felicidade é bem mais modesta. Faz parte dela o aprendizado, a renúncia, a capacidade de converter a decepção em algo positivo. Reciclar é o comando. Ando por aqui separando meu lixo (?): cada limitação, fracasso, angústia ou tristeza. Reciclo tudo e não me falta criatividade. Se fosse esse amigo não pediria desculpas. Afinal, frustrações, reclamações também são importante matéria-prima para felicidade. E quem não suporta - ao lado de - esse tempo, que mude de caminho. Eu continuo pelas estradas da vida. (RR)

Imagem: Karin Izumi

domingo, 20 de maio de 2012

TATU-BOLINHA


Era no jardim da casa de minha mãe que vivi grandes brincadeiras de infância. Lá descobri a caça aos tatuzinhos. Aqueles minúsculos bichinhos me encantavam com seus inúmeros pezinhos que nem por isso aceleravam seu jeito lerdo de caminhar. Quando se sentiam ameaçados fechavam-se numa bolinha proteção e quase nada os faziam reabrir. Passava horas olhando quando é que dariam, novamente, o ar de suas graças. Cansava e era só meu olhar se distrair que quando me lembrava deles, já estavam lá seguindo seus caminhos. Essa era a maneira natural, tempo próprio de retomar suas vidas e que nunca descobri quando, como ou o que os faziam desembolar. Outra era forçada. Quando os meninos, perversos polimorfos, acendiam um fósforo para esquentá-los... Ô dó! Instalava-se desde aí a guerra dos sexos. De um lado as histéricas gritando e implorando um pouco de amor e do outro os poderosos machões mostrando quem mandava no pedaço. Tinha me esquecido desses tatus-bolinhas, e o quanto ocuparam minha infância, até essa semana. Na avaliação com fisioterapeuta, após muitas perguntas e exame físico, disse-me ele:
- Poxa Regina, a gente nem pode triscar em você que já se fecha como um tatu-bolinha.
E continuou mostrando minha postura para dentro, envergada, quase totalmente fechada e implodindo. Aconteceu algo nesses tempos? Perguntou-me ainda.
Penso que ocorreram “algos”.  Como acontece na vida de todo mundo. Sei que estava caminhando pelo jardim da vida quando fui triscada, dolorosamente, umas tantas vezes. O porquê que, dessa vez, me fechei bolinha sei não. Nem imaginava a existência dessa minha capacidade. Se está sendo de forma natural, respeitando meu tempo interior, a saída do modelito bola também não sei. Uma coisa posso afirmar: palito de fósforo aceso (telefonema, email, convite pra sair, visitas, abraços...) na alma nos ajuda a sair da casca! Já acendeu um fósforo hoje num tatu-bolinha/amigo(a)?

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