Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

MEDI_AÇÃO



Estava num restaurante quando ouvi, e todos os outros comensais também, a discussão do jovem casal. Cobranças, reivindicações, mágoas e intimidades despejadas publicamente, sem nenhum pudor, para que todos degustassem de prato principal. 
Tive uma vontade de convidá-los ao consultório. Mas, fiquei nela, é claro. Pensei aí na importância de um terceiro, mediador, numa situação como essa. Como aqueles que são enviados a países em guerra ou nos programas pré-eleitorais. Certo que aqui a população se resumia a dois. Mas pareciam milhares de homens e mulheres sendo representados pelo referido casal. 
Mediar uma discussão é algo diferente de julgar. O mediador, penso eu, tem como função gerar um campo de escuta e, assim, estabelecer pontes entre interlocutores. 
Percebo a tenacidade com que esse especialista se dedica, evitando que as partes fiquem encurraladas em becos sem saída – becos estes que são gerados pelos ressentimentos, que sabotam qualquer escuta. 
Ideias são armas e ficam sempre atreladas a alguma função. Uma opinião quer afirmar ou convencer; uma justificativa, por sua vez, é um veredicto. E tudo o que se julga não promove a mediação.  
Já as histórias - ouvida das partes – se insinuam como uma escuta antes de qualquer conclusão. Elas apostam na identificação e no envolvimento porque se retiram do contexto do conflito ou dos interesses entre partes e vão para um território neutro, de um tempo indefinido ou de um “alguém” que é um terceiro. 
Nesse lugar neutro surge a oportunidade de abrandar ânimos. O tom da história nos liberta do tom de nossas próprias certezas e ideias já estabelecidas. 
O mediador é alguém que está sempre transformando opiniões e juízos em histórias. Somos tentados, como em brigas em que o ódio transborda em agressividade, a desfilar nossa opinião. Mesmo quando educadamente recheamos nosso discurso de desculpas e abrimos parênteses de toda ordem, tentamos a socar o outro no estômago.
O diálogo é construído principalmente a partir das escutas. As falas manifestam os sentimentos e reivindicações, mas a interação só se produz na escuta. 
O que escuto do outro é o que realmente promove os avanços nas relações para ambos os lados. Isso porque, quando escuto o outro, nós dois nos transformamos. Quando reconhecemos que o outro nos ouviu, muitas das adversidades se desfazem automaticamente, pelo simples fato de que o ódio é um produto da sensação de isolamento. 
A escuta do outro reduz a definição das fronteiras de nosso ego e permite perceber nossa “causa” num ambiente maior do que aquele restrito apenas ao meu interesse pessoal. Tudo o que alivie a sensação de solidão e encurralamento em defesa de nossa posição possibilita uma atitude anfitriã. O outro passa a não ser mais o intruso e podemos assim partilhar o pão. De preferência em casa! Descobri com esse episódio que exerço(?) essa função: mediar dores.

21 comentários:

  1. O dialogo é uma flor que nasce internamente, é a busca quando já nos encontramos sem horizonte, acuados ou voando, a luz chega de divinas camadas e toca a canção, olhe a flor iluminada, abraços

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  2. Que belíssima reflexão, Regina!
    Em momentos tensos assim, quando as duas vozes se sobrepõem continuamente, faz-se mesmo necessário um mediador.
    Não havia por lá uma aguinha "trincando" de tão gelada?
    Abraços.

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  3. Imagino que vc já tenha vivido situações anteriores, semelhantes a essa, Rê...o que mais chama a atenção da gente é o quanto é gritante os problemas da comunicação, seja entre quais sejam os envolvidos...que só desejam serem ouvidos, e, em outros momentos esquecem que seu par vive sentimentos parecidos, e tb deseja ser ouvido. Acho que o motivo que leva ao estresse é que nem sempre basta ser ouvido, tem que ser compreendido tb, e isso já abrange outras questões. O diálogo não precisa ser sinônimo de conflito, mas é a disputa pela "razão" que acaba gerando o desencontro. Em geral o tom aumenta na medida em que diminui o sentimento de estar sendo acolhido. Tenho trabalhado intensamente a questão "comunicação" no consultório, e obtido resultados bastante bons quando, na medida em que melhoram a escuta e treinam a fala (aquela coisa de colocar-se no lugar do outro, pensando no que não gostaria de ouvir, no que seria bom ouvir, enfim...treino, treino...), por conseqüência obtêm espaço para a conversa e isso se torna uma prática que oferece solução e deixa de gerar as discussões que intoxicam a relação...é um processo, né? E como a gente, mesmo sabendo, "peca"...vamos combinar que nem sempre aplicamos o que mediamos...em alguns momentos o ego leva a melhor...
    A mediação é um ofício de amor, sei bem como se sente, minha querida...falou lindamente sobre isso!
    Bjãozão

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  4. Segurar-se pra não intervir...Mas por vezes talvez fosse o melhor. Mas realmente, o lugarfoi péssimo,,,beijos praianos,chica

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  5. Havia uma miúda com imensos problemas na escola e até em casa. Não trabalhava, não estudava, sempre demotivada com tudo,...
    A certa altura os pais souberam que na escola havia um outro professor que acompanhava os alunos com "problemas".
    Repararam que, dia a dia, a sua filha fazia "progressos" notórios.
    Tiveram curiosidade em saber quem era o "tal" novo professor e dirigiram-se à escola para o conhecer.
    Ficaram admirados quando, falando com ele, verificaram que ele era mudo !... !!!
    Já em casa disseram à filha : Olha lá. Como é que tu estás muito melhor se o professor não pode falar contigo?
    Resposta: Pois é ! Ele não pode falar,... mas é o único que consegue "ouvir-me" !!!
    .

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  6. Que situação hein...dá vontade realmente de mediar, de meter a colher...rs Brincadeiras a parte gostei muito de sua frase:que o ódio é um produto da sensação de isolamento, e eu concordo, muitas vezes nós sentimos raiva por sermos excluídos, não amados, deixados de lado mesmo, seria isso uma ação bem primitiva? Quem não as sentiu em algum momento não? Olha amiga fique com Deus e tenha uma ótima semana!!! Bjsss

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  7. As vezes o melhor é deixar passar....
    Beijo Lisette.

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  8. Enquanto os contendores não medem nada, os mediadores agem. Por isso a palavra MEDI-AÇÃO: medir e agir, coisa que quem está tomado pela emoção não consegue fazer. O mediador consegue ver com distanciamento e conduzir um DIÁlogo onde antes havia um MONÓlogo, porque quem está sofrendo raramente ouve, só despeja. Você deve gostar muito do que faz: proporcionar o espaço e promover a compreensão, mesmo que não haja entendimento ao final. Beijos,Angelinha

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  9. Deus nos deu dois ouvidos e apenas uma boca. Devemos portanto ouvir o dobro do tempo que gastamos em falar.

    Beijos.

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  10. Minha querida

    Realmente essas discussões deviam ser feitas em casa...e é dificil ouvir sem nada dizer, quando o que apetecia era intervir...Complicado.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  11. Olá, RÊ!

    Foi uma refeição estragada, imagino eu, a ouvir esses dois...Que possivelmente terão escolhido o restaurante e o ambiente criado pelo sentar à mesa imaginando que aí a reconciliação seria mais fácil, digo eu.

    Nada fácil, e ainda menos invejável, será fazer de mediador - profissão que eu não queria...

    Belo texto!

    Beijinhos amigos; boa semana.
    Vitor

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  12. Muito interessante Rê!
    Sei que és uma ótima moderadora.
    Gostei de ler e ... aprender, penso que ouvir o outro é realmente a chave da solução, embora saiba que ouvir é sempre complicado.
    Valeu, muito obrigado Dtra pelos ensinamentos.
    Bjs, fica bem.

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  13. Com certeza Rê querida, é na escuta que podemos nos preparar para o diálogo, pois se ficar os dois batendo boca, não chegam nunca a uma conclusão. Vejo isso por aqui, quando eu e o filho discutimos um tema e se ele começa a se alterar eu vou falando baixinho, mais baixinho ainda, até ele entrar no tom. hehe
    Muito legal seu post, escrito de uma forma terapêutica. Tô aprendendo um bocado com esta amiga psico. hehe
    beijinhos cariocas


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  14. Ia me dar uma comichão de vontade me sentar na mesa deles e dizer: Parem a palhaçada, conversem que nem gente... Relações são complicadas. Por que tendemos a impor as nossas verdades? Somos doidos e nem sempre é uma maluquez belezinha. Às vezes é feia ensurdecedora que só!

    Beijo, galêga.

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  15. Amadinha
    As pessoas se perdem em seus egos inflados e inflamados. Só eu tenho razão, pois só eu sofro nessa história. Como o outro não enxerga isso?
    Nada fácil essa profissão de mediadora. Ter o cuidado de acordar cada um do seu pesadelo e mostrar que exite uma maneira de resolver a situação...
    Te admiro e a todos os mediadores.

    Beijinhos

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  16. Adorei: "o ódio é um produto da sensação de isolamento". Percebo que as pessoas se isolam e começam a alimentar ressentimentos com pensamentos destrutivos. Pena que muitos casais não aceitam fazer terapia e ficam por toda uma vida, escutando apenas eles mesmos. Até mesmo quando se separam, passam a falar mal um do outro...
    Quando era menina, tinha um casal na vizinhança que brigava muito e um dia reclamei com minha mãe e ela achou bom. Ela disse "a indiferença é pior". Um alento, pois enquanto estão brigando, estão fazendo tentativas de conciliação.
    Boa semana!! Beijus,

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  17. Querida amiga

    As vezes
    para resolver
    certas coisas,
    diante das
    nossas barreiras,
    uma ajuda externa
    se faz necessário
    e muitas vezes
    essencial.

    Que todos os dias
    os sonhos nasçam em ti,
    como nasce o sol pela manhã...

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  18. Um mediador sempre acalma os corações neh amiga?
    Muitas vezes discussões acaloradas, fazem com que as partes percam a razão e se agridam e digam coisas que não retornarão as suas bocas, então melhor um mediador que os ouça de preferencia separadamente e os leve a raciocinar, e chegar a uma conclusão razoavel. Amei o texto. Bjos achocolatados flor

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  19. Dialogar sempre..serenamente é o melhor a se fazer...beijos minha amiga e um bom dia pra ti.

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  20. Rê Amiga,
    Moderadora sei que é. Os eus sábios e bem dispostos comentários, moderam e aliviam muitos problemas. Digo-o por experiência própria. São uma radiosa lufada de ar fresco que, atravessando o oceano, ruma até nós. Bem haja!
    O meu xião.
    J

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  21. Todo e qualquer diálogo dá discernimento a qualquer momento, a qualquer situação.
    Regina do meu coração, adorei essa postagem que mostra a todos nós leitores, que podemos e devemos manter a calma antes de palavrear.
    Você é joia mesmo.
    Xero

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