Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

terça-feira, 5 de março de 2013

MI NE VOLAS MORTI - PARTE I



Estava no supermercado quando ouvi o chamado: Dra. Regina!
Ao me deparar com aquele moço, sorri amarelo. Não me lembrava de quem era e isso anda me causando certo constrangimento. Mas, com o Dra. uma dica: paciente, muito provavelmente, atendido no hospital. É que lá ficamos todos doutores, vestidos de jalecos e com crachás identificatórios. Mesmo assim minha memória não ajudou. Para não perder tempo fui logo dizendo que não me lembrava de seu nome. Educado disse ser Fred* e emendou a importância que teve meu atendimento naquela madrugada em que deu entrada no Pronto Socorro do hospital. Com esses dados tudo ficou claro. Fiquei feliz em ouvir dele os desdobramentos que tiveram sua vida a partir daquela sessão. É mesmo, só no a posteriori que os efeitos acontecem. Lembrei também que, assim que comecei o blog, em 2009, postei essa casuística aqui. Então, decidi reposta-la como antes, em duas partes. Tempos que deixam saudades, sempre atualizadas, em reencontros assim!
A intervenção do psicólogo frente às situações de emergência em paciente cardíacos.


Durante muito tempo assistia, no canal a cabo 47, a uma série de nome E.R. Nela era mostrado o corre-corre de um hospital de emergência/urgência que atendia pacientes em situações de risco, sendo o Pronto-Socorro sua principal porta de entrada.
Um dia, vendo meu interesse constante, meu filho me lança uma pergunta à queima-roupa:
- Mãe, você atende esses casos no SOCOR? Tem jeito?
Adiei um pouco minha resposta e fui então procurar sobre a diferença entre emergência e urgência. Dos vários significados encontrados, primeiramente, no dicionário, escolhi estes:
*emergência: - situação crítica, acontecimento perigoso ou fortuito; incidente.
- nascimento.
*urgência: - que é necessário ser feito com rapidez;
- indispensável; imprescindível.
Fui ainda verificar os significados para a medicina e constatei que a primeira dúvida que assalta os profissionais é a definição do que vem a ser emergência e urgência médicas, uma vez que os pacientes recebidos nas salas de emergência dos hospitais são portadores de condições as mais variáveis. Essas condições, de acordo com a gravidade que apresentam, podem ser classificadas em termos de risco imediato, segundo o Prof. Dr.Mário López, nas seguintes categorias:
*rotina: o tratamento pode ser retardadom várias horas, sem que haja risco de vida aumentado ou de incapacidade. Não constituem, portanto, uma real emergência.
*urgência: o tratamento precisa ser iniciado dentro de poucas horas, pois existe o risco de evolução para complicações mais graves e mesmo fatal.
*emergência: a necessidade de manter as funções vitais ou evitar incapacidade e complicações graves exige que o início do tratamento seja imediato.
E segundo a Associação Americana de Hospitais, emergência é qualquer condição que, na opinião do paciente, de sua família, ou de quem assumir a responsabilidade de trazer o paciente ao hospital, necessite de assistência médica imediata. Essa condição perdurará até que um profissional de saúde determine que a vida do paciente não está mais em perigo”.
Volto à pergunta do meu filho e ao corre-corre de um Pronto Socorro, considerando pacientes em situações de risco. Nesse caso, o paciente em si já constitui uma urgência, pois pede algo a alguém – ao médico – que tem algo a oferecer e que deverá fazê-lo com a maior rapidez possível, pois uma fração de segundo pode significar vida ou morte.
O saber médico é uma referência encontrada de imediato no hospital. Ele não interroga o paciente, ele se oferece ao paciente sem a ele se expor.
O saber psicanalítico é um saber particular, a ser constituído, endereçado e apropriado tendo em vista um paciente.
A urgência médica diz respeito a coisas por fazer – injeção no agitado, reanimação para o estado de choque, anticoagulantes para o enfartado – que implicam questões de sobrevivência, enquanto que, para o psicanalista, exige coisas por dizer, incluindo-se sempre o desejo para se definir o que é urgência.
A urgência, dirá a psicanálise, vem do Outro; com isso, ela desarma esse regime, à primeira vista, inabordável, de exigências sem limites, inadiáveis.
A urgência sabemos, impede recorrer à fala; assim, a psicanálise faz falar para que possa haver uma escuta do que é dito. Propõe em vez de fazer alguma coisa para atender a urgência, responder com uma certa escuta. (continua...)

*/nome fictício.
Imagens: google

13 comentários:

  1. Geralmente o BENFEITOR verdadeiro gosta de permanecer ANÔNIMO, só que os bem-feitoriados não deixam isso acontecer...

    Se "sessê" Eu que te chamasse Dotôra, aposto que saberia di bate e pronto quem é... Nénão Rêzininha da Grória...? hehehe

    BeijO e
    DeusssssssssssssssssssssKiajude

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  2. Que lindo um reencontro assim, num local inesperado e ouvir o bem que fizeste,não? Muito bom! beijos,tudo de bom,chica

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  3. Essas histórias nos lembram da importância da ESCUTA! Eu, que já passei por tantas idas e vindas pelos hospitais da vida - inclusive o Socor - conheço a urgência de um sorriso, uma atenção, principalmente, no meu caso, quando não se tem acompanhante e os médicos vão embora, após as cirurgias, em busca de outros afazeres. Os grandes cuidadores são os que ficam e atendem a cada chamado, nem que seja só para conversar um pouquinho e tornar as noites insones e preocupadas um pouco mais leves.
    Viva você, psicóloga! A lembrança do moço sem nome é significativa. Beijos, Angelinha

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  4. A esperança recebida em um momento tão delicado é como Esperanto uma lingua universal.
    Pode ficar adormecida para quem faz, mas jamais será esquecida por quem é agraciado.
    Bonus celeste minha amiga.
    Bjs.
    Wilma
    www.cancerdemamamulherdepeito@blogspot.com

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  5. Muito interessante Rê! Aproveito "agora" para ler, fico já à espera da parte dois.
    Foi uma ótima ideia esta!
    Bj, fica bem.

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  6. Olá, RÊ!

    A mim, estas duas expressões sempre me deixaram algo confundido, devo confessar.Entre uma situação de emergência e uma situação de urgência difícil é encontra a diferença:nalguns hospitais temos a indicação "emergência", enquanto noutros lhe chamam "urgência"...o que mostra não ser apenas o cidadão comum a não saber definir a diferença entre ambas.Chame-se ela uma coisa ou outra, o importante é chegar ao hospital e ter quem nos livre da aflição...

    Gostei de ler.
    Beijinhos amigos; boa semana.
    Vitor

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  7. Bela abordagem, doutora. E nem sempre a linha divisória entre as duas situações é clara. O mais importante é o urGENTE e o emerGENTE - com ou sem jaleco e crachá.

    Beijos.

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  8. Rê,
    Acho que isto é uma perfeita homenagem à pessoas como você que recebem pacientes que necessitam, antes de mais nada, de um apoio psicológico, de força de palavras, de alguém que o ouça e ajude.
    Que coisa mais linda este reconhecimento que você teve do Fred.
    Parabéns, doutora Regina!
    beijos cariocas




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  9. OI Rê, muito boa tua abordagem sobre urgência/emergência.

    Eu nunca parei pra pensar nas diferenças, ainda mais na linha psicanalítica.

    Parabéns loura pelo reconhecimento de teu paciente. Essa gratidão não tem preço´- ajudar o outro e ter empatia, é tudo de bom!

    Profissional de categoria, tu!

    bacios cara mia!

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  10. Faz tudo valer a pena, né?

    Essa questão da memória capenga, misericórdia,sou rainha. E fico com cara de "oi?" até a pessoa parar de me abraçar e ir embora.

    Beijo, galêga.

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  11. Doutora, essa tal de emergência pra quem atende é momento de corre corre, mas para quem é atendido é "momento infinito".
    E quando penso que meu caso é urgente e não sou atendida com a rapidez que gostaria?
    Aff!
    Também achei bacana o reconhecimento de *Fred.
    Xeros

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  12. Re,
    é muito bom ter um retorno desse tipo depois de tanto tempo, parabéns!
    Eu acho que assisti as 17 temporadas de ER, adorava!
    bjs
    Jussara

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  13. Fiquei "grudada" no relato e na riqueza da partilha temática pela qual também me interesso.

    (Como professora, também tenho momentos de (re)encontro pleno..Entendi bem o que quis dizer, assim como me entende...)

    Bjuzz, Rê :)

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