Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

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quarta-feira, 20 de junho de 2012

É MENTIRA TERTA?

 
A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer. Mário Quintana


Ah Pantaleão quantas saudades de suas histórias. Nesses últimos dias tenho me lembrado de você. Após alguns episódios, surpreendentes, venho pensando sobre a mentira e a verdade. Há controvérsias. Muitas eu diria. Olhe bem como Fernando Pessoa reflete:
Menti? Não, compreendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espontânea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tão somente a noção da existência real dos outros e da necessidade de conformar a essa existência a nossa, que se não pode conformar a ela. A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais íntimos e sutis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns aos outros, o que com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer. Fernando Pessoa
A mentira faz parte, de tal forma, de nosso cotidiano que chegamos a considerá-la verdade. Ela está no cotidiano social e cultural, permeia as questões educacionais e os livros didáticos, sustenta a ficção em suas diferentes formas; está na gênese das religiões; é central na política e é integrante da paixão e do amor; enfim, faz parte do humano.
É difícil falar da mentira sem falar também da verdade. Mentira e verdade constituem um par antitético. Um conceito se afirma e se define por oposição ao outro. Será? A mentira também passa pela discussão acerca do engano, do falso, da paródia, da paráfrase, da quimera e da impostura, do embuste, das fraudes e das falsificações, da vida cotidiana, e dos etecéteras. A ética e a moral também necessitariam ser convocadas, assim como a psicanálise, a literatura, a religião, o humor, entre tantos outros campos da cultura humana, para esta conversa básica. Para que possamos desconstruir o conceito de mentira, ou fazer como Jack, o “estripador”, transformando o corpo do conceito de mentira em pedaços, e, assim, talvez, compreendê-lo um pouco melhor. É como uma collage ou uma colcha de retalhos, onde os pedaços ou citações isoladas não significam muito, mas quando juntados nos revelam um todo coerente e harmônico. Não vou convocar! Não carece para algo tão simplista... Divagações dessa vivente que vos fala. Dizem que a mentira tem pernas curtas. Mas, desde cedo, aprendemos que ela tem mesmo é o nariz comprido. Basta lembrar de Pinóquio, personagem bastante presente no imaginário infantil ocidental, que recebeu como castigo por sua má conduta um nariz expansível e retrátil. Assim, toda vez que faltasse com a verdade, seu nariz cresceria e denunciaria a farsa. O boneco é uma referência para as crianças do significado das mentiras e da internalização das regras. Deveria ser assim com os adultos. Deveria. Internalização das regras para uma boa convivência. E não teríamos narizes tão compridos a nos cutucar diariamente. Mentir é uma tentativa de viver como se queria viver e não o que se vive de fato. Está vivendo como?
 
Ando pasmada com minha incapacidade de lidar com mentira... Com o que não se vive de fato. Ou seria com meia verdade? Ou com minha miopia? Então, no princípio dos contos e no final dessa história, fico com Drummond e sua sabedoria em nos ensinar. Um dia aprendo!
“A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
(Imagem: Karin Izumi e internet)

domingo, 30 de outubro de 2011

DAS HABILIDADES E COMPETÊNCIAS

Sempre gostei das palavras. Dos seus significados e significantes fico umas tantas vezes, cativa.  Concretas, abstratas ou simbólicas vão construindo meu dizer diário. Quantas vezes elas se embolam numa saída atropelada que o remédio é um não foi isso que quis dizer! Outras escapam criteriosas, e mesmo assim somos mal interpretados. E não pensem vocês que o silêncio é solução. Claro que é melhor se calar quando não temos ou sabemos o que dizer. Não é por acaso que temos dois ouvidos e uma boca! Mas, até mesmo no silêncio, elas dizem de nós. A expressão oral e escrita é, realmente, uma arte. Outro dia empaquei numa: habilidade. Acreditava que quem possui a tal, por si só, supunha-se competência. Ledo engano. Competência é quem faz de suas habilidades um diferencial. E entenda-se aqui diferencial = dinheiro. Saí dessa reunião, onde me corrigiram no que as coloquei sinônimas, tristinha mesmo. Nem adiantou o consolo do meu – constante - amigo Aurélio. Disse-me ele: se você é hábil é apta, capaz, competente sim! Ora, pois, retruquei na minha decepção, competência é qualidade de quem é capaz de apreciar, resolver certo assunto e fazer determinada coisa di-fe-ren-te-men-te. Eu acreditava como você, amigo Aurélio, que eram sinônimas. Mas entenda-se, aqui também, que diferentemente = dinheiro ou o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que, quando integrados e utilizados estrategicamente, permite atingir com sucesso os resultados que dela são esperados na organização (Dicionário de Termos de Recursos Humanos/Benedito Milioni). Ah, então falamos das organizações? Pensava na vida. Desculpa aí!  E quais as competências que fazem a diferença? Competitividade, produtividade, agilidade e racionalização de custos são as principais. Além disso, as mais apreciadas atualmente no mercado de trabalho são a capacidade empreendedora, saber trabalhar sob pressão, ser comunicativo, criativo e inovador. E ainda: saber negociar, ter capacidade para planejar, organizar e liderar. Ser assertivo na hora de tomar decisões, tendo flexibilidade e agilidade em situações inesperadas. UFA! Viu como não são sinônimas? Chego à conclusão que administrar o dinheiro do mês, planejando, organizando os gastos, liderando a família, requer de mim uma flexibilidade comparável a de Nádia Comaneci. Agilidade com as situações inesperadas - estragos domésticos, inflação, doenças e outras coisinhas mais – nem lhe conto. Uma coisa posso assegurar: há que se ter competência nesse sobre_ viver diário! Mas agora sigo, insistente, em transformar o que creio serem minhas habilidades em competências! Será que consigo? E você? É habilmente competente?! Então,compete a você transformar seu domingo num dia lindo de viverrr!(RR)