Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

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sábado, 5 de março de 2016

DIVÃgando



Num dia assim, de encontros que a gente sabe que vão ficar na história, quando nada é irrelevante e tudo conta, quando o fio da vida se torna tão nítido que incomoda, eu me vi integrando a cena. Além de mim, vi uma menina dando passos responsáveis, vi uma mocinha interrogando-se a respeito da vida, vi outra moça começando a colher os frutos da própria semeadura. E foi sobretudo porque me vi que escrevo estas palavras. Diante delas, eu me senti mais velha. Não no sentido do tudo acabado, mas daquilo que foi vivido, aproveitado e aprendido ao longo dos anos. Fiquei feliz. Aliás, ando feliz com as minhas escolas. Não há nenhum erro aí. Quis dizer escolas mesmo e não escolhas. Porque elegi a vida como condição do aprender e vivo absortamente sentada no banco desta escola. Não vejo outra maneira de ser ou de aprender a ser feliz. Queria dizer isso para as meninas, mas acabei dizendo para mim mesma. Porque a consciência da minha trajetória bateu forte agora.
Então, lembrei-me do I-Ching e fui consultar. Eis o comentário:

RETORNO.
Sucesso.
Saída e entrada sem erro.
Amigos chegam sem culpa.
Para adiante e para trás segue o caminho.
Ao sétimo dia vem o retorno.
É favorável ter aonde ir.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Religião, política e futebol...

"Seria injusto censurar a civilização por tentar eliminar da atividade humana a luta e a competição. Elas são indubitavelmente indispensáveis. Mas oposição não é necessariamente inimizade; simplesmente, ela é mal empregada e tornada uma ocasião para a inimizade."(Freud/Mal Estar na Civilização/1929).


Se minha mãe estivesse viva repetiria, em sua sabedoria, que religião, política e futebol não se discutem. Pelo menos não no nível que vimos. E que no final das contas e início de todos os contos dá no que dá: nada de viveram felizes para sempre! Esperei esse par de dias para colocar minhas ideias e sentimentos em certa organização. Logo após o resultado das eleições fui acometida de uma tristeza estranha, amarga. É claro que ninguém gosta de perder e tinha fé que meu candidato iria ganhar. Não importa se foi apertado, mas perdeu! E agora? Agora não quero ler as contínuas ofensas dos vermelhos contra os azuis e vice-versa. Muito menos as piadinhas - sem a menor graça - contra nós mineiros. Tenho honra e orgulho do meu estado, berço de grandes estadistas, artistas, intelectuais e gente como eu: trabalhadora, honesta e brasileira. Perdeu aqui? É, perdeu nas minhas Gerais. Decepcionante sim e já analisado pelos estudiosos os motivos. Para mim somos um único país e povo desejoso de tempos melhores para todos! Eu desejei e continuo!
Freud não era um teórico político, assim como não era historiador das religiões ou arqueólogo. Era um psicanalista que aplicava os recursos de seu pensamento às diversas manifestações da natureza humana. Mas ele fundou sua análise da vida social e política numa natureza humana muito própria. Recorri a seus textos - Psicologia das Massas, O Futuro de uma Ilusão e O Mal Estar na Civilização – para ordenar meus caos.   
Visualizar o fenômeno político, como expressão da esfera individual, em sua dimensão subjetiva, e tendo como fundamento a ansiedade, pode levar a negar a situação política objetiva. Da mesma forma, o protesto social, na visão psicanalítico política, pode ser visto como sintoma neurótico, abrindo espaço à Psiquiatria considerar a sociedade conforme as malhas do modelo médico mais autoritário: o modelo hospitalar clássico. 
Ao rechaçar o maniqueísmo ingênuo, que consiste em rotular como “boa” ou “má” tal ou qual política, a Psicanálise vincula como “soluções dramatizadas”, de uma temática que tem a sua gênese na vida pessoal.  
O governante tem o verdadeiro poder, mediante a atribuição ilusória de seus partidários. A imagem freudiana do pai, como modelo de autoridade, vincula-se diretamente com a ideia de que na sociedade ocidental qualquer tipo de autoridade será submetido a crises.  
A atitude psicanalítica reforça o distanciamento ante a autoridade. Freud agrega a contribuição da análise psicanalítica à crítica do conceito de legitimidade, já muito desenvolvida nas ciências sociais. Para Freud, a dimensão política é uma extensão da esfera privada; assim, a veneração exagerada ante o homem público é uma recorrência da adoração do filho pelo pai. Freud considera a personalidade pública como um carente de atenção e afeto, derivado das relações pessoais! E essa lembrança, nesse momento, me bastou para reorganizar o meu caos.
Está amargando a derrota? Fui perguntada. Respondo:
Jiló na sopa, conserva de jurubeba, chá de boldo ou de carqueja... De vez em quando, o amargo dá o sabor do dia. Algumas pessoas gostam muito, juntam o útil ao desagradável e ainda fazem cara boa. Há quem usa o amargo para transformar a comida insossa em um algo mais palatável. Claro, depois de uma jurubeba, até arroz sem tempero fica bom. E há quem nem mesmo experimente. Jamais faria parte deste grupo. Posso até fazer careta e engolir rápido, mas experimento. Por vezes, até gosto, como no caso do jiló cozido inteiro dentro da sopa.
Jiló dentro de uma sopa de legumes é uma surpresa, ele intensifica o sabor dos outros ingredientes. Não fica tão amargo, chega quase a ficar adocicado, mas faz a cenoura aparecer, a batata ganhar graça, a abóbora brilhar e a batata doce se superar. Precisa ser cozido inteiro. Colocar só um pedaço atrapalharia toda a receita. Aí, sim, ficaria amargo.
Acho que tem a ver com a vida também. Nos dias amargos, tentar viver pela metade é a pior estratégia. Melhor entrar por inteiro na tristeza, na decepção, na frustração, para entender melhor, para poder sair mais forte, para saber que, no final das contas, a vida tem disso e que, apesar dos pesares, vale a pena ser saboreada às colheradas.
A vida não é sopa, mas pode ser gostosa, inclusive com os seus amargos. Sigo em frente!
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

PROCRASTINAÇÃO



Palavra grande e feia. Podemos traduzir como a enrolação nossa de cada dia, ou seja, procrastinar: adiar, prorrogar, usar de delongas, embromar. Sua origem, do latim procrastinare, significa encaminhar para amanhã. Não se preocupem. Acontece na vida de todo mundo! Procrastinamos ao acordar, quando apertamos o modo soneca do despertador, quando ficamos com preguiça de lavar a louça do jantar (nem me falem!!!) ou quando deixamos de responder àqueles e-mails chatos. Os principais fatores que levam a procrastinação: falta de tempo, impulsividade (deixamos algo de lado para fazer outra atividade), falta de energia, medos, autossabotagem e preguiça. Implica deixar que as tarefas de baixa prioridade (menos importantes) antecipem as de alta prioridade (mais importantes), normalmente as mais chatas.
É possível demorar muito para realizar uma coisa. Adiar tudo ao máximo. Não olhar para as coisas a serem feitas, deixar prá lá, ter má vontade. Resoluções são difíceis, implicam posicionamento, responsabilidades. O mundo para em nossas mãos. Esse adiamento torna densas as relações. O ar fica pesado, pode-se cortá-lo com a faca. Principalmente quando as coisas dependem de uma pessoa assim, com medo de decidir.
Conta uma história que um burrinho andava pela estrada com fome e sede. De um lado rio, de outro, feno. Incapaz de escolher um dos lados e seguir, ele morreu no meio, de fome e sede. Não por falta de inteligência, mas por indecisão, uma atitude de receio frente ao desejo. Porque o desejo é guia. Porque o desejo pode parecer perigoso... E você? Anda conjugando muito esse verbo PROCRASTINAR? Por aqui tento eliminá-lo do meu dicionário... e não desisto!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

RESSENTIDO (A) VOCÊ?



A conversa girava amenidades quando ele – um amigo amado – começou a desabafar seus melindres diários. Estranhei o tom tanto quanto as pessoas a quem atribuía esses aborrecimentos. Enquanto ouvia me lembrei, primeiramente, do que disse o genial Shakespeare: “o ressentimento é um veneno que a gente toma todos os dias, querendo que o outro morra.” Nem é preciso acrescer que faz mal a saúde de quem o guarda. Mesmo assim quem não o tem?
Em seguida veio Maria Rita Khel - autora do livro Ressentimento (Casa do Psicólogo, 2007) – dizendo ser uma constelação de sentimentos negativos pelos quais responsabilizamos o outro por nossos próprios fracassos e prejuízos.
Todo neurótico apresenta claramente sinais de ressentimento acompanhados de queixas imputadas ao outro, que não pôde lhe dar o que esperava e talvez por dificuldades em se implicar naquilo que deseja. Então, culpa alguém por suas impossibilidades ou impotências.
Ressentimentos são frustrações acompanhadas de raiva, tristeza, inveja, ruminações negativas e tudo de ruim. Um ressentido é sempre uma pessoa azeda, mal-humorada, ranzinza. Não sabe curtir o que a vida lhe dá.
Só consegue ver o que lhe falta ou faltou por culpa da mãe, do pai, do chefe, do irmão, e por aí segue uma lista de todos que passaram por sua vida e refletem sua própria repetição. Sim, na repetição nos colocamos numa posição tal que encaixamos o outro nesse lugar, quer ele queira ou não. Ele nunca terá chances conosco! Pronto, emburrei.
Não é o caso desse amigo. Ou, até então, ele usava uma boa maquiagem. Será?
A expectativa de reciprocidade é um labirinto do qual nunca se sai sem escoriações. É dor causada pela esperança. Ruminação de mágoa depois de tudo feito por amor sem retorno.
Se o que nos move é uma demanda de amor ou de reconhecimento ou de qualquer outro bônus, inevitavelmente vira frustração. O outro desconhece as intenções por trás das boas ações e da servidão implícita nessa doação. Por isso, temos que questionar nossas ações.
Fazemos o que fazemos porque é nosso desejo e, não importa se com o que virá depois, estaremos satisfeitos, ou fazemos para sermos reconhecidos e recompensados?
A resposta a essa pergunta é fundamental. Se nosso desejo é atendido, ficamos satisfeitos e nunca ressentidos pelo que vem do outro. De fato, não esperamos nele a nossa satisfação. Por realizar o desejo, somos satisfeitos. Não diria sempre felizes ou alegres, seria tolice.
Portanto, independentemente do que o outro faça com tudo que lhe damos, tanto faz. Porque agimos por nós e não em função do retorno do outro. Esse é o ponto em que encontramos maior apaziguamento. Estamos conosco. Voltados para interesses e desejos genuinamente próprios. Não quero dizer egoístas, quero dizer subjetivos.
Ao nos voltarmos tanto para o outro, estamos sujeitos a chuvas e trovoadas. Claro, do outro não temos controle ou nada podemos com o que não nos pertence. O outro é diferente. A distância entre o desejo de cada um causa transtornos constantes devido a nossa tendência de esperar desejos iguais aos nossos, ou retorno como nós faríamos.
A reciprocidade que ansiamos e aprendemos ingenuamente a esperar é uma armadilha perigosa e é o motivo de diversos desentendimentos, queixas e mágoas. Fazer-se tolo requer manobra. Se o outro não sabe receber, não é grato, é problema dele.
Como diz o livro dos livros, não jogue pérolas aos porcos! Resta-nos cortar a ânsia dadivosa, recolher e pendurar as chuteiras. Colocar nosso banquinho debaixo de outra janela, pois são tantas e podemos encontrar uma que se abra. Mesmo não havendo perfeição nas relações, há as que valem muito!
  

segunda-feira, 10 de junho de 2013

DIA DO AMOR



Corações acelerados, suspiros fora de hora, sorrisos sem motivo aparente. Nada como o amor para deixar a vida mais colorida, alegre e graciosa.
Em O mal-estar na cultura, Freud salientou que, embora consideremos o amor como a nossa mais poderosa fonte de prazer, “nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor”. Porque amor e dor são indissociáveis. As questões são muitas. Entre os seres que amamos, quais são os que consideramos insubstituíveis e cuja perda provoca dor? Quem é esse outro eleito, que faz com que eu seja o que sou, e que sem o qual eu não seria mais o (a) mesmo (a)? Com que fio é tecido o laço amoroso para que sua ruptura seja vivida como uma perda? O que é perder o amado e sofrer a dor de amar?
Até mesmo Drummond escreveu, lindamente, em As sem razões do amor esse agarramento dor-amor:
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Deixando de lado essas e outras tantas perguntas celebraremos, nesse 12 de junho, mais um dia de, né mesmo? Particularmente sou - absolutamente a favor desse sentimento - diariamente. Uma carta recebida pinta o dia cinzento com cores esperançosas:
"AMOR, coisa mais terna do mundo! Sem palavras para descrever o que senti ouvindo a letra da música... Estou fora de mim e a pensar como faço para ganhar asas e voar até você. Encostar minha cabeça à tua, beijar-lhe intensamente e fugirmos, os dois, para o lugar mais recôndito deste mundo e amar, sem tempo nem espaço, sem fronteiras nem oceanos que se metam entre nós. Amor de minha vida estou desesperando por não te ter a meu lado e fazer o que tem de ser feito. Você que de tão longe veio até mim e levou a minha alma para tão longe, que já não sei dela perdida em ti. Trata-a bem e devolve-a recheada do teu encanto para eu te retornar comigo dentro e em você me encontrar. Que é feito de mim que já não tenho nexo, mas também não quero. Não tenho aonde ir porque a você não posso chegar! E receio que a distância e a não presença física seja uma cortina translúcida entre nós. Beijo-te com todo o meu ser e me rendo..."

Um convite assim, sem mais nem menos, também chegou provocando um riso pueril:
“Procure realizar essas delícias todas que o teu peito pede. E se ele anda te pedindo certas coisas fascinantes com as quais você em princípio não concorda, reaja e mude — antes que ele mesmo te abandone para sempre. Porém, se o teu peito anda meio amolecido e teu coração cansado não te pede nada mais; se o teu peito está perdendo a coragem da poesia, da paixão e da loucura entusiasmada; se o teu peito já não te assusta nem te encanta todo dia — troque de coração, urgentemente. Valentine's Day. Get Inspired! Solteira, casada, namorada, apaixonada, de qualquer forma você é nossa convidada especial para uma quarta-feira cheia de atrações. Venha se inspirar!"
Até mesmo estudos postados (UOL) - na rede social - aguçaram minha curiosidade. Já o que ocasiona com as mulheres e homens deixei de lado:
- Casais que se conhecem pela internet se divorciam menos;
- Quem se casa vive mais, diz estudo;
- Estudo comprova: casamento feliz faz bem ao coração;
- Casamento faz mulheres beberem mais - e homens, menos;
- Sistema imunológico de ratos "infiéis" é mais forte do que o de animais comportados;
- Sociedades poligâmicas são mais violentas, diz pesquisa;
- Caneta, papel e 21 minutos podem salvar o casamento. (essa eu não entendi mesmo, alguém pode desenhar pra mim?!).
Quer saber? Com carta ou sem, com convite ou não, com estudo ou na ausência de, meu desejo é que prevaleça, eternamente, esse lado da moeda! Feliz dia (s) do AMOR procê (s)!!!