Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MODELITO PÓS FIM DE ANO

Ou Maria Abana Banha

A gente sabe que é uma mentira essa estória de que engordamos com os excessos das festas de final de ano. A gente sabe que a verdade se encontra entre o natal até a chegada do próximo natal, ou seja, ao longo de todo o ano. Fico pensando nesses dias iniciais de um novo ano no que deixei de fazer: exercício físico há exatos cinco meses (tudo por conta do tal ombro). Mas me restaram as pernas. Então por que não fui caminhar, caminhar e caminhar? Sei lá! Gostava da academia e de pegar pesado com a turma. É, não agrado de nada solitário. Só de alguns pequenos deleites que agora não vem ao caso. Outra coisa: peguei, melhor, pequei na gula. Minha amiga Angelinha, já apresentada a vocês, passou o ano inteirinho dando dicas bacanérrimas em sua cozinha. Até receitas rápidas, saudáveis, de liquidificador - pra essa cozinheira de meia tigela – me presenteou.  Por que não segui? Sei lá! A falta da doméstica pra fazer aquele grelhadinho acompanhado de legumes ao vapor e uma saladinha básica de entrada, serve de desculpa ideal. Percebo que não tenho disciplina. Onde será que perdi? Se é que um dia a tive. É que sinto um prazer em comer que me perco pelos caminhos... Desde um arroz soltinho e bem temperadinho com um ovo frito por cima até aquele prato sofisticado – feito pelo chef importado - do restaurante ba-da-la-do! Fazer uma boquinha é convite irrecusável. Só me resta enfrentar o espelho e umas questões misturadas que me habitam: a ideia de que valemos o que pesamos? De que nossa respeitabilidade adviria de um senso concreto de acúmulo... Como se para “ter peso” fosse preciso ter peso? Por hora me chegam alguns reflexos/respostas dessa imagem especular. Obesidade tem menos a ver com o conceito magro/gordo, do que com o de leve/pesado. Obeso é aquele que é pesado em diversos níveis. Para tratar nada de regime. Dieta! E entendo que dieta não é uma prática para se ficar mais magro, mas sim para se ficar mais leve. Definitivamente decido pela leveza!(RR)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

BICHO-PAPÃO


Das saudades, várias, que tenho de minha mãe uma é os almoços de domingo. Todas as filhas, genros, netos e bisnetos reunidos ao redor da mesa atualizando as novidades, feitos, conquistas, problemas enfrentados ao longo da semana, planos, sugestões e soluções. Uma muvuca de gente e afetos.  Muitas vezes também, ao longo da semana, corria lá pra filar a bóia.  Num instante, magia de mãos maternas, ela incrementava a comidinha pra filha que trabalha demais! O sabor de sua comida caseira, tempero, a mão danada de boa pra fazer um simples arroz com feijão não herdei. Nesses meses todos, sem auxiliar doméstica, venho uns tantos dias da semana fazendo uso das tais comidas a quilo. Não sei se foram os anos a fio comendo em casa, mas acho tudo insosso! Até o dia que descobri, pertinho de casa, um Bicho-Papão. Não, não é ele que me aterroriza na tentativa de me comer. Sou eu que saboreio a comidinha simples e honesta que ele oferece. Inclusive no preço cobrado. O lugar é pequenino e praticamente almoçam por lá as mesmas pessoas, dando um ar de uma grande família.
Fernando e seu sorriso. Bem verdade que não é todo santo dia. Lidar com público não é tarefa fácil!
Fernando, o proprietário, é um apaixonado por Marilyn Monroe e filmes antigos. Nas paredes do restaurante tem sua loira espiando os comensais e na tela da TV vai desfilando atores e atrizes, de tempos bem antigos, desempoeirando as lembranças.
Essa loura é uma de suas paixões. A outra é a coleção de "Kátias" de cada cantinho dessas Gerais...é pinga pra ninguém botar defeito!
Se você quiser um bife passado na hora, é só pedir e em poucos minutos, os atendentes - simpáticos e alegres diariamente - nos trazem acompanhado de um grande sorriso.
Seus fiéis escudeiros e nosso acompanhamento predileto: educação + sorriso!
Sábado tem feijoada e uma caipilima 0800, feita por Fernando, que bebo sem deixar uma gotinha pra contar história. Para ajudar na queima calórica, na saída, não dispenso o chá de abacaxi natural. Gosto tanto (e me iludo nessa queima) que o moço comprou uma nova garrafa térmica – enorme – atendendo meu pedido. Parece ou não com um almoço na casa da mãe?! Meu pesar é que domingo, Bicho-Papão fecha. Afinal, até papões tem que descansar. Mas, tem problema não. Segundona logo bate à porta!(RR)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

É TUDO COM G.


Gastronomia, Gula, Gourmet, Gourmand, Glutão, Goela, Gola, Garganta, Gulodice. Já contei que dos sete pecados capitais tenho a GULA como o meu, por assim dizer, predileto. Prefereria a luxúria, mas como não é bem assim que as coisas funcionam em nosso psiquismo, tenho que me "conformar" com ela: a gula. A comida sempre esteve no centro da vida humana. Na Idade da Pedra, os homens caçavam animais e convidavam os amigos para compartilhar a comida. Hoje não caçamos mais, mas continuamos a compartilhar, degustar as delícias da magia gastronômica com nossos amigos e familiares. Além disso, de caçadores nos transformamos em caça - fomos capturados nas armadilhas da boa mesa. Segundo São Tomás de Aquino "A gula se refere a paixões e à falta de temperança e moderação." Para a Psicanálise, os excessos, de um modo geral, têm a ver com o gozo. Por mais consciência que a pessoa tenha do seu pecado (sintoma), ela não sabe por que o comete. Ou seja, o sujeito sabe que faz, mas não sabe e não entende o porquê. A pulsão na gula é oral. A pessoa come para se ver livre da angústia. A origem da palavra gula vem do latim "gul", que significa parte da boca na qual se engole. Gola, goela, garganta, gulodice são todas derivadas. E gourmet e gourmand? No pequeno Dicionário da Gula, Márcia Algranti ensina: "Gourmet - indivíduo que aprecia e conhece iguarias finas. Ser gourmet é uma vocação, uma arte cultivada de comer e beber bem. Trata-se de um caso evidente de paixão pela culinária, pelos vinhos, pelos pães, doces, etc. Gourmand - indivíduo que é dado a comidas apetitosas. Indivíduo guloso." Então descubro, finalmente, o que sempre esteve encoberto: sou gourmet e gourmand! Se sou gulosa, como a autora define meu pecado que nomeia seu Dicionário? "Gula - excesso de comida e de bebida. Apego excessivo a boas iguarias. Embora considerada um dos sete pecados capitais, a gula em fase moderada, entretanto, talvez seja a expressão que melhor corresponda à significativa gourmandise (gulodice) francesa." Então meu São Tomás  como a moderação existe... posso continuar a pecar? E se eu lhe contar que há um provérbio japonês que diz "A felicidade raramente tem ligação com estômago vazio", posso ser feliz? Ou ainda confessar que, dos outros seis, não sou apaixonada e tenho muito temperança para com eles. Fico assim, meu São Tomás, absolvida e ganho, eternamente, o reino das boas mesas? 

terça-feira, 24 de novembro de 2009

GULA NÃO É MAIS PECADO




Éramos oito ao redor de uma mesa. Calmamente a conversava fluía... Risadas, novas descobertas, e meus sentidos, que de prontidão, aguardavam aquele aroma que insistia em fugir pela porta fechada da cozinha. A surpresa do primeiro prato – pupunha recheada de bacalhau imperial – caprichosamente arrumado, me fez sentir como uma verdadeira imperatriz. A cada garfada, o prazer do bem comer. Já poderia me dar por satisfeita, mas um novo cheiro escapuliu da bendita cozinha e trouxe até a mesa, o segundo prato: lombo de cordeiro ao porto com risoto. De imperatriz me tornei rainha, soberana no prazer e levemente súdita, pelos vinhos que harmonizavam cada prato. Nina corria pela sala, e mesmo com seu único aninho de vida, dava demonstrações que sabia o que estava acontecendo ao redor daquela mesa: alegria, magia e prazer! Depois desse almoço e de muitos outros que ainda virão a gula não é mais pecado para mim: é ousadia do mais puro prazer. Comi sem culpa e o confessionário foi definitivamente excluído da minha programação.

Algo mais precisa ser dito: tudo isso só é possível, quando se faz com amor, se recebe com prazer e se compartilha a VIDA! Mau e Lu, obrigada por esse saboroso sábado de bem viver.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

GULA


“Gosto tanto de feijão com arroz! Meu pai, minha mãe, que privaram da metade do prato para me engordar sofreram menos que eu. Pecaram exatos pecados, voz nenhuma os perseguiu. Quantos sacos de arroz já consumi? Ó Deus, cujo reino é um festim, a mesa dissoluta me seduz, tem piedade de mim.” Adélia Prado – “A Boca”.
Adoro comer. De todos os sete pecados me dedico, quase com exclusividade, de boca e alma à gula. Comida aguça todos os meus sentidos. Ouço o lavar, picar, moer, fritar, assar como uma música de amor. Meu olfato sente os cheiros e aromas que passam pelas frestas trazendo sugestões do que está sendo cozido no fogão. Aguardo, com ansiedade pueril, a visada das travessas na mesa com tudo aquilo que, até então, era só imaginação auditiva e olfativa. Desfilam um a um suas cores, diante de olhos famintos e encantados. É assim que a degustação se inicia... É chegada à hora mais que esperada. A primeira garfada e aquela sensação... Quais os ingredientes misturados que transformaram aqueles grãos, verduras, legumes ou carnes nessa sensação? Imaginação corre solta: cebola, sal, alho, páprica, pimenta, orégano, salsa e cebolinha, o que mais pode ter? Como pode transformar uma refeição, por mais simples que seja, em um verdadeiro momento para comemorar? A diversidade de sabores, a combinação de ingredientes agradam a todos os paladares. A língua estala e as mãos se juntam em oração: OBRIGADA por tanto prazer! Fome é diferente de apetite... O que te apetece?