Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

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quarta-feira, 19 de agosto de 2020

"Sexies and the Rê"





Quando eu era criança imaginava como seria fazer 40 anos.Distância gigantesca, para uma criança de 10 anos, por ocorrer no ano 2000 e ainda coincidir com a virada do século! Mudou o mundo e mudei eu...muito! Cheguei na velhice? Perguntei àquela época. Ela não veio. E depois quando aos 50 afirmei: agora ela me pareceu chegar com força total. Como num piscar de olhos, ela foi embora e eu vivi uma década ágil, dinâmica, agitada e nada tediosa. Conheci pessoas, fiz amizades, reencontrei a dança e fiz dela minha bandeira diária: "a vida pode não ser uma festa como esperávamos, mas enquanto estamos aqui, dançar é uma ótima pedida". 


E agora, em plena pandemia, eis  que chegaram meus 6.0 de vida! Meu planejamento não era estar em casa, isolada dos que amo, daqueles que fizeram e fazem parte da minha história, construção... Queria fazer uma festa e uma viagem! Como não dá, olho ao redor, procuro a velhice e juro de pé junto que não a encontro! O que mudou, então? Eu mudei! Mudaram as circunstâncias, as ferramentas, mas sobretudo, mudaram as prioridades...
A saúde é mais importante, o silêncio para ouvir meus desejos e encarar meus medos (sim, às vezes ainda aparecem alguns), o humor é mais importante, e a aceitação é hiper importante! E a alegria de viver? Uma bênção que carrego desde sempre.
Contudo, apesar de extraídos alguns pedaços do meu corpo e da minha alma, percebo-me caminhando para essa terra prometida de nome velhice, inteiraça! Sim, me sinto um es-pe-tá-cu-lo cuja única platéia necessária sou eu! Adquiri os ingressos ao longo desses anos todos.
Alguns desgastes do tempo, cicatrizes e rugas não podem ter soberania sobre a minha vontade. Afinal eu sou Regina, do latim rainha!
Faz tempo que parei de inventar razões para viver. Estamos sempre criando justificativas para todas as coisas que queremos ou não, mas viver não tem justificativas, ponto. Também não há meios termos, Existem acordos!
Lá no início dos 50, fiz alguns com a vida e comigo mesma... Vocês sabem, acordos são tratos, são compromissos e tem que ser levados à sério. Caso contrário fica-se sujeito à multas e/ou penalidades!
Me comprometi a viver apaziguada - com o tempo, com as perdas, com as mudanças, com as diferenças, com os limites, comigo mesma -e a curtir cada pedacim do muito que tenho - das pessoas que permaneceram nessa jornada, da família construída, do patrimônio, da saúde e do amor que chegou para mim por várias estradas.
Dos apelidos carinhosos que ganhei pela vida, Regis, Rê, Ré, Rex escolho para esse momento, mais que nunca, o Rê...prefixo, pretexto para que assim, então, hoje possa declarar: nasço, penso, ajo, faço, conheço,aprendo, inicio,paro, envio, passo, acendo,assumo, formulo, enegizo, tomo,vigoro, invento, stauro e VIVO!
Hoje, aos sessenta anos, eu me misturo à multidão, sou cada vez mais "ninguém" e gosto muito disso. É uma sensação libertadora quando nos percebemos fugazes e finitos, nesse vasto universo de sucessões e renovações. Sinto-me como Cora Coralina, "com mais estrada no coração do que medo na cabeça". Os nossos natais são para isso, um atrás do outro...sequência de nome VIDA!
E  encerro com minha "carteira de identidade" à época da criação deste divã:
Concedo-me esta alegria solta de ser quem sou. Posso ser lida por qualquer pessoa, mesmo fora do contexto. Sou o quero dizer sem dicionário, intérprete, dúvida ou pontuação. Sou a palavra escrita. Além da leitura, registro e assino embaixo. Autenticação é coisa de cartório. Burocracia. Eu não. A autenticidade me confere identidade e diferença. É este meu passaporte. A validade não me importa. Viajo e vivo enquanto eu der valor às pessoas. Ah! Estas têm valor demais para mim. E sou-lhes gratidão. (RR)


sexta-feira, 15 de abril de 2016

MANHÃS DE ABRIL





As manhãs de abril sempre encantaram minha mãe. Aprendi com ela a olhar o céu azul – de brigadeiro, como dizia – e respirar, de um jeito diferente, a cada manhã, os ares outonais. Nunca entendi os motivos das noivas escolherem maio para se casarem em detrimento desse mês tão lindo!
Olho pela janela e vejo a mesma paisagem, agora, diferente. Há algo mais do que a tonalidade azul do céu, algo mais do que a névoa que sutiliza o recorte dos prédios. Há o mistério das estações.
O outono chegou com sua bagagem e, a cada dia, vai mostrando uns tons envelhecidos, tons de guardados, como se tivessem esperado calmamente o verão colorir a tela e, já desbotados, sair de cena. Vai mostrando que tem cor e sopra. A brisa que me toca traz um frescor também.
O outono arrepia a pele.
Olho para dentro e vejo a cozinha. Sobre o fogão, imagino uma velha chaleira – o outono não combina com o novo, isso é coisa primaveril. Na chaleira, imagino chocolate quente, café com leite, chá, qualquer bebida que aqueça, somando líquido, calor e as lembranças mais antigas, mais amigas. O outono tem gosto e textura. O outono é fofo como um bolo saindo do forno na casa da avó da gente.
Outono combina com os contos de Tchecov
que estou lendo. Tende um pouco para o sombrio, mas soma elegância e originalidade indiscutível. Passo as páginas e respiro fundo. Absorvo a literatura e o romance que me circunda. É a vida real, é outono. Os hábitos mudam.
A Terra girou. O tempo passou. Agora, o outono desfila lá fora e dentro de mim. E eu que nem havia pensado que estréio o outono da vida também! O susto passa como a folha que o vento leva. É bom saber que eu passei o tempo. Não foi só o tempo que passou para mim.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Só falta um mês!



Pois é. Já chegamos ao final do ano. Vitrines e comerciais convocam os desavisados que as festas, e com elas o consumismo, estão batendo à nossa porta!
Como é prazeroso chegar ao final do dia com a sensação de que ele foi útil e produtivo! E para isso não é preciso fazer nada de extraordinário. Basta ter cumprido minimamente o planejado (encarar aquilo que não foi) e, se possível, acrescentado uma ou outra atividade, de qualquer natureza ou tamanho, que possa ter contribuído para provocar um movimento ao nosso redor – em casa, no trabalho, dentro do círculo de amigos ou até mesmo em relação a um estranho.
Alcançar essa meta exige foco. Ah como sei bem disso. Para tanto, é importante desapegar do que não precisamos e valorizar o que realmente importa – e podemos conseguir isso ao nos organizar melhor. Já é sabido que devemos arrumar nossa casa, para arrumar nós mesmos. A organização é só uma ferramenta, não o destino final. O objetivo principal é alcançar o estilo de vida que você almeja. Foi assim que me desapeguei de uns tantos quilos de gordura, sedentarismo e também um quadro de depressão.
Num mundo cheio de excessos, inclusive aos ligados ao consumismo, vale a reflexão do que, afinal, queremos de verdade, e o que é exagero. Podemos incluir na lista não apenas itens materiais, mas tudo o que vem sendo acumulado e pode estar atrapalhando o dia a dia – sentimentos, relações, planos infundados, objetivos utópicos. No meu caso, nesse 2015, foi especialmente o sobrepeso!
Ao fazer essa faxina, podemos ter mais claros nossos pontos fortes e nossas limitações. A partir daí, a chance de assumir compromissos que desejamos seguindo o desapego inteligente será maior. Que tal?   

sábado, 3 de outubro de 2015

Como uma onda



“O crescimento espiritual é como um parto. Você dilata, então você contrai; você dilata, então você contrai novamente; e, por mais doloroso que possa parecer, esse é o ritmo necessário para alcançar o objetivo final da expansão total”. (Marianne Williamson)

E outubro chegou! Veio que veio quente, abafado, repleto de escândalos, com o dólar nas alturas e rosa também. #OUTUBROROSA (não esqueçam amadas!).
Após um período de stress, sempre vem uma fase de bonança e ventura. A história da humanidade é cíclica, já reparou? 
Falo isso porque vivemos hoje tempos de crise, com violência, correria desenfreada, competitividade excessiva, preocupações mil, angústia, insegurança e medo permanentes. 
A instabilidade do mundo aqui fora pode nos fazer adoecer. Mas também não conseguimos viver numa bolha, né mesmo?
No entanto, a sabedoria milenar indiana nos ensina que as coisas são como devem ser. Não adianta espernear, elas jamais poderiam ser diferentes. 
Existe uma força maior que rege o Universo conduzindo os eventos de maneira harmônica, mesmo que, aos nossos olhos, isso não seja compreensível- pelo menos não naquele instante crucial e doloroso. 
Não quer dizer que devemos nos acomodar naquilo que não vai bem: podemos fazer nossa parte pela harmonia do todo. 
Um começo e tanto é mudar nosso padrão de pensamento e, consequentemente, de comportamento. É preciso buscar aprender com cada adversidade – com qualquer situação, na verdade, seja ela boa ou ruim. 
Nas horas de aflição, ajudará muito lembrar que as coisas começam no momento certo e terminam no instante certo, nem um minuto antes nem um minuto depois. Em resumo, vale confiar nas leis do Universo – sem, é claro, perder de vista as próprias ações. Passamos por época difícil nos dias de hoje, mas a boa notícia é que a era de luz está chegando! Esse é o ciclo da vida, afinal. O que precisamos é abrir nosso coração para aceitar que o momento atual é parte da evolução do planeta e da humanidade.
Necessitamos de sabedoria para, quando os problemas parecerem GRANDES demais, não nos esquecermos de que somos parte inseparável e indestrutível de um todo e passamos por igual movimento.
Confie que, durante cada momento de escuridão enfrentado, já estão plantadas as sementes de um período novo e esplendoroso. E falo com experiência vivida na alma e na carne!!!
Quando chegarmos ao ponto de acreditarmos nisso de fato, teremos encontrado a legítima paz interior, aquela que habita dentro de nós independentemente do mundo que nos rodeia.
Daí a importância de mergulharmos em direção ao âmago do nosso ser, para enxergarmos o que se passa ali e sermos capazes de organizar nossos sentimentos.
A realidade de fora reflete o que temos dentro. Se estivermos em paz, o mundo à nossa volta, espelhará as mesmas ótimas condições.
Apenas deixe rolar, vivenciando o presente com atenção e intenção! Para tanto dedique-se a uma coisa de cada vez. E encare os períodos mais complicados como momento de transição, que devem ser aproveitados para crescer.
#Fica a dica: imagine que você naquele instante, está sendo preparado(a) para a fase emocionante que ainda está por vir.
Até lá, esteja presente, seja paciente e sempre, sempre mesmo, consulte o que seu coração lhe revela! Bora lá viver mais um mês?!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MUDANÇAS



A gente pensa que é fácil, mas não é. Como diz uma irmã minha: dez anos de terapia mais um século e a gente continua na peleja. É tanta tranqueira que a gente carrega, ao longo da nossa história, que se desfazer requer mais que desapego... coragem!
Estou beirando a resposta. Ando pensando no assunto mudança, rodeio daqui, aprofundo dali e quase antevejo a revelação. Cabe dizer que isso tem a ver comigo e com meus sentimentos. A resposta que está se delineando é minha e pode ou não servir para você. Se servir, dividiremos isso. Se não servir, pelo menos pode conduzir à própria pergunta.
A minha resposta começa a chegar com o insight de que "não tem encontro sem busca". Quem não pergunta não escuta. Eis o início: eu questiono, tu questionas, ele questiona. E o final: eu ando, tu andas, ele anda.
Gosto quando leio Saramago e percebo que há - o tempo todo - algum tipo de questionamento pairando nas entrelinhas. Quando, no livro Caim, ele pergunta: "Por que o senhor não me impediu?" Eu não duvido de que ele encontrou a resposta para a morte de Abel ali, naquela pergunta. Que espécie de senhor seria esse, que gostaria de ver sua criação acomodada e
covarde? Questionai homens!