Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

APRENDA A GOSTAR DE VOCÊ



Com o passar do tempo,
nossas prioridades vão mudando...
A vida profissional,
a monografia de final de curso,
as contas a pagar.
Mas, uma coisa parece estar sempre presente:
a busca pela felicidade.
Desde pequenos ficamos nos perguntando:
- Quando será que vai chegar?
E a cada nova paquera, vez ou outra,
nos pegamos na dúvida:
- Será que é ele?
Como diz o meu pai:
- Nessa idade tudo é definitivo.
Pelo menos a gente achava que era.
Cada namorado era o novo homem da sua vida.
Faziam planos, escolhiam o nome dos filhos,
o lugar da lua-de-mel e, de repente... plaft!
Como num passe de mágica ele desaparecia,
fazendo criar mais expectativas
a respeito do próximo.
Você percebe que cair na guerra
quando se termina um namoro é muito natural,
mas que já não dura mais de três meses.
Agora, você procura melhor
e começa a ser mais seletiva.
Procura um cara formado, bem resolvido,
inteligente, com aquele papo
que a deixa sentada no bar o resto da noite.
Você procura por alguém
que cuide de você quando está doente,
que não reclame em trocar
aquele churrasco dos amigos
pelo aniversário da sua avó,
que sorria de felicidade quando te olha,
mesmo quando está de short,
camiseta e chinelo.
A gente inventa um monte
de desculpas esfarrapadas,
mas continuamos com a procura incessante
por uma pessoa legal,
que nos complete e vice-versa.
Enquanto tivermos maquiagem e perfume,
vamos à luta...
Mas, bom mesmo, é se divertir com as amigas,
rir até doer a barriga,
fazer aqueles passinhos bregas de antigamente.
Olhar para o teto, cantar bem alto
aquela música que você adora.
Com o tempo, você vai percebendo
que para ser feliz com uma outra pessoa,
você precisa, em primeiro lugar,
não precisar dela.
Percebe também que aquele cara
que você ama (ou acha que ama),
e que não quer nada com você,
definitivamente não é o homem da sua vida.
Você aprende a gostar de você,
a cuidar de você e, principalmente,
a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas...
É cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas,
Você vai achar
não quem você estava procurando,
mas quem estava procurando por você! ( Atribuído a Mário Quintana)

Não cabulei aula, mas a vida insisti em mostrar que sim. Já perdi a conta de quantas vezes refiz a lição. Na matemática da vida não há resultado correto e muito menos problema de fácil solução. Cuidar do meu jardim? Não dispenso um fiel jardineiro que faça desabrochar todas as flores!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

(H)A(H) VIDA EM UMA FESTA!





Nesse final de semana aconteceu a XXII Festa de Israel na rua. Acredito que de todas as vinte e duas edições devo ter faltado a poucas. Só mesmo se não estou na cidade deixo de ir. É uma oportunidade ímpar de rever amigos, se deliciar com as comidas típicas, música, danças, show de humor e claro, muita prosa sem pressa de terminar. Vocês poderiam acreditar que é sempre a mesma coisa. Repetições – neuróticas - que perderiam a graça da novidade de uma primeira vez. A compulsão à repetição, que muitos chamam de “neurose de destino”, é sem dúvida, um fenômeno intrigante! Seus padrões desagradáveis parecem regidos por uma força incoercível, e eles sempre nos surpreendem por seus desfechos tanto esquisitos como inevitáveis. A mesmice é a verdadeira face da repetição.  É o que não ocorre nessas festas, posso lhes assegurar. Dois fatos absolutamente novos para mim dessa vez: degustar um shnitzel feito pela moçada do Dror e adquirir o Livro Neurótico de Receitas (2ª edição/Ophicina de arte & prosa). O shnitzel é um sanduiche feito com pão de sal fresquinho, pasta de grão bico e peito de frango frito com gergelim. Simples e delicioso assim. O livro é de autoria da Ana Cecília Carvalho, psicanalista fantástica, mestre em Psicologia, Doutora em literatura comparada, professora aposentada da UFMG - desde 2009 - e cozinheira de mão cheia.
A capa - um cérebro feito de um emaranhado de fios de macarrão - o título e a orelha, escrita por Renato Mezan chamou minha atenção: São cinquenta capítulos – alusão ao tempo usual das sessões – cujos títulos se relacionam com as ocasiões nas quais figurou o prato em questão: o “Salmão Narcisista”, feito para restaurar o amor-próprio da sua filha; a “Torta Reparativa de Maçã”, oferecida a um amigo enciumado; a “Truta Contrafóbica”, presenteada por uma paciente ao concluir o tratamento, e assim por diante. Logo após a crônica Ana nos brinda com a receita passo-a-passo. Já estou no capítulo 30... Frango do Suposto Saber: “Acho que meu analista fica calado nas sessões porque ele quer me fazer pensar que sabe alguma coisa sobre mim que eu desconheço. Mas, na verdade, ele não sabe nada. (Diz um amigo da filha num almoço de domingo) Ao ouvir isso minha filha exclama: Você não precisa mais de análise! E, em seguida, ela se volta para mim e pergunta, provocativa: Como analista, o que você acha? Não respondo. Reenviados ao próprio desejo, todos continuam a comer.”
Fica a dica para os apreciadores da boa mesa, leitura e cozinheiros em busca de novidades. Até 2014 Festa de Israel. Com o prazer dessa “compulsão à repetição!”.
Barraca do tradicional Falafel
A moçada do Dror e o seu Shnitzel
Artesanato típico

As crianças, de todas as idades, aproveitam os brinquedos 0800
"Descansando" ao lado do filhote
Vista geral com duas queridas que sempre prestigiam!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

NATAL LFV

Bunitim dimaisss da conta esse Luis!

Quando minha amiga, Angelinha, ligou, perguntando se sabia da internação de Luis, quase tive um troço. Como assim??? Ele não faz ideia de como sou sua fã! Mas minha amaaada sim! Tem conhecimento de minha paixão por esse escritor gaúcho e tivemos a oportunidade, juntas, de ouví-lo (mesmo sendo pouco falante) quando esteve por aqui. Foi internado em 21 de novembro depois de se sentir mal após uma viagem por Minas Gerais e Rio de Janeiro. Ficou no CTI por 12 dias, fazendo hemodiálise (afff), mas agora já está no quarto. Segue melhorando e até discutiu (bom sinal!) com a equipe que o atende uma alta médica. Vamos lá Luiz! Tô cum cê e num abro!!! E como prometi, na postagem anterior (que a pobre de Cecília nem teve ibope) deixo mais uma crônica natalina. Vai que é sua Luis Fernando Veríssimo!!!
 
Natal é uma época difícil para cronistas. Eles não podem ignorar a data e ao mesmo tempo não há mais maneiras originais de tratar do assunto. Os cronistas, principalmente os que estão no métier há tanto tempo, que ainda usam a palavra métier – já fizeram tudo que havia para fazer com o Natal. 
Já recontaram a história do nascimento de Jesus de todas as formas: versão moderna (Maria tem o bebê numa fila do SUS), versão coloquial ("Pô, cara, aí Herodes radicalizou e mandou apagá as pinta recém-nascida, baita mauca"), versão socialmente relevante (os três reis magos são detidos pela polícia a caminho da manjedoura, mas só o negro precisa explicar o que tem no saco) versão on-line (jotace@salvad.com.bel conta sua vida num chat), etc. Papai Noel, então, nem se fala. 
Eu mesmo já escrevi a história do casal moderno que flagra o Papai Noel deixando presentes sob a árvore de Natal, corre com o Papai Noel e não conta nada da sua visita para o filho porque querem criá-lo sem qualquer tipo de superstição várias vezes. 
Poucos cronistas estão inocentes de inventar cartas fictícias com pedidos para o Papai Noel: patéticas (paz para o mundo, bom senso para os governantes), políticas ("Só mais um mandato e eu juro que acerto, ass. Fernando") ou práticas ("Algo novo para escrever sobre o Natal, por amor de Deus!"). Já fomos sentimentais, já fomos amargos, já fomos sarcásticos e blasfemos, já fomos simples, já fomos pretensiosos – não há mais nada a escrever sobre o Natal!
Espera um pouquinho. Tive uma idéia. Uma reunião de noéis! Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel. Acho que sai alguma coisa.
Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos... onde? Na mesa de um bar? Papai Noel não freqüenta bares para não dar mau exemplo. Pelo menos não com a roupa de trabalho. No Pólo Norte? Noel Coward, acostumado com o inverno de Londres, talvez agüentasse, mas Noel Rosa congelaria. Não interessa onde é o encontro. Uma das primeiras lições da crônica é: não especifica. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos em algum lugar.
Os três conversam.
Noel Rosa – Ahm... Sim... Hmm...
Noel Rosa diz: o quê?
Noel Rosa – E então?
Noel Coward e Papai Noel se entreolham. Papai Noel cofia a barba. Ninguém sabe, exatamente, o que é "cofiar", mas é o que Papai Noel faz, enquanto Noel Coward olha em volta com evidente desgosto por estar em algum lugar. Preferia estar em outro. A todas essas eu penso em alguma coisa para eles dizerem.
Noel Rosa (tentando de novo) – E aí?
Papai Noel – Aqui, na luta.
Noel Coward – What?
Esquece. Não há mais nada a escrever sobre o Natal.
Salvo isto, se dão vênia: que seu Natal em nada lembre o da Chechênia. Que suas meias se encham de metais vis desde que não sejam guaranis. Que sob a árvore enfeitada o grande embrulho com seu nome seja... Meu Deus, a Paola pelada!
Que em nenhum momento do rebu alguém faça piada com o tamanho do peru.
Que em alegre bimbalhada os sinos anunciem ao mundo que está saindo a rabanada. E cantem os anjos, a capela, que o Cristo vai nascer assim que acabar a novela. (Luis Fernando Veríssimo)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

COMPRAS DE NATAL




Então é natal. Vou (Rê)contar para vocês que tenho muita preguiça de tudo que acontece ao longo desse mês. O tal espírito que baixa - só e somente só - nas pessoas, nessa ocasião, então nem conto. A correria, o trânsito intransitável, o sorriso amarelo, os tapinhas nas costas, os beijos sem tocar face (que dirá o coração), as festinhas de confraternização nos locais de trabalho – campo de batalha ao longo de todo o ano -, os presentes, as visitas formais, enfim, "espírito" e alegorias que terminam antes mesmo da virada do ano. Claro que acho lindo ver minha cidade decorada, corais entoando músicas, vitrines criativas, luzes piscando ali e acolá. Propagandas na TV que é pura maquiagem alegria. Apelação pouca é bobagem. E a gente cai. Cai não, esborracha. Mas isso também me faz, curiosidade natalina, perguntar: e o nascimento DELE, é realmente celebrado?  Uma única vez estive presente numa ceia natalina onde, à meia-noite, chegou a mesa central, um bolo maravilhoso, vela acesa, e os anfitriões começaram e todos entoaram um parabéns pra você bacanérrimo! Fiquei procurando pelo aniversariante, feito uma esquecida, lesada, de tão envolvida por esse espírito... Ô vergonha! Mas, não é assim que comemoramos os aniversários, nascimentos?! E logo no DELE o alemão, aquele que afeta a memória, invade nos fazendo esquecer?! Não me cabe questionar o natal de ninguém. Ado ado ado, cada um no seu quadrado! Até porque existem escritores maravilhosos, da nossa literatura, que sempre o fizeram de maneira ímpar. Vou postar ao longo desses dias alguns que selecionei. Vou começar com ela: Cecília Meireles. Já conhecia? Espero que gostem! Eu adoro. Critica de um jeito lindo! Beijuuss – os de sempre... os que mando ao longo de toooodo o ano – procês e claro um Natal Felizzzz!  
Praça da Liberdade
A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.
As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.
Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.
Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.
Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços – e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade.
Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade.
Praça da Liberdade
Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que – especialmente neste verão – teremos de conquistar o pão de cada dia.
Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma. Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão.
Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas.
Todos ficamos extremamente felizes! São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias.
Durável apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo. (Cecília Meireles em: "Quatro Vozes", 1998.)