Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

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sábado, 26 de novembro de 2016

ANINHADA EM AMOROSIDADE

Esse é um mês que a saudade aperta mais...E não é que arrumando minhas gavetas, reencontro esse presente dado pelo meu, nosso,amado Bruxo/Rodolfo Barcelos?! Estava tão recente a perda...latejava em dor, tão minha, apropriada de cada pedacinho do meu ser. Um poeta ouviu, acolheu e converteu nessa belezura amorosa. De onde você está Rodolfo se fez PRESENTE e sou-lhe, mais uma vez, gratidão!!! Saudades, diárias, de você mãe...

"A amizade e a solidariedade entre certas pessoas é mágica. Produz milagres. E aqui está um 777 para nossa querida Rê - por sugestão da Denise. Beijos às duas."


Hoje não teremos aula,
Minha Leoa querida.
Entro hoje em tua jaula
Sabendo que estás ferida;
E tua dor me corrói
Pois sei bem como te dói 
Essa ausência tão sentida.

A quantos extraviados
Tu mostrastes o caminho?
E quantos desesperados
Sentiram o teu carinho?
Se hoje estás perdida
Segue minha voz, querida,
Vem em busca do teu ninho.

Deixei cadeira e chicote
Num canto do picadeiro;
E inda que te sofra o bote
Veloz, mortal e certeiro,
Te abraçarei com carinho,
Te falarei de mansinho,
Serei o teu enfermeiro.

Deita a cabeça em meu ombro,
Sente o afago de quem te ama
Com afeto e desassombro.
Ouve a voz de quem te chama;
Eu venho trazer-te a calma,
Eu venho beijar-te a alma,
Eu venho avivar-te a flama.

Sossega, Leoa inquieta,
Pra ti não há domador.
Eu sou tão só um poeta
Que te faz versos de amor;
Pois tu sabes que te amo,
E hoje sobre ti derramo
As preces de um sonhador. 

Vem, querida, adormece
Sem sobressalto ou cuidado,
E no teu repouso esquece
Este doer arraigado.
Vem, aninha-te em meus braços,
Depõe aqui teus cansaços,
E dorme em paz a meu lado.

Quando enfim adormeceres,
Enquanto não acordares
Cantarei os teus quereres,
Quererei os teus cantares.
E tua dor terá sido
Não mais que um sonho esquecido
Que se esvaiu pelos ares. (Rodolfo Barcelos)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

DASDÔ



Como não acreditar na imortalidade se é dali que ela se diz?
No transcrever de sentidos abaulados, transfigurados como forma de letra no abandono do sentido.
É no silêncio da nomenclatura que se diz, dos exemplos dos restos, do vazio. É através do sóbrio, como sobra, que bordejamos o que nos foi deixado de herança nas entrelinhas da vida.
A água escorre como se tentasse limpar toda dor ainda morada.
A esperança se agarra no fio que tece a vida! 
(Imagem: google)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Filhos? Melhor não tê-los! Mas...


Minha mãe quando estava muito aborrecida, decepcionada, triste mesmo com alguém, dizia: to queimada e assada. Achava estranho, mas entendia perfeitamente a expressão dita com olhos lacrimados e alma desnudada pela dor. Porque pra ficar queimada e assada, dessa maneira, qualquer proteção já foi pro beleléu. Numa conversa telefônica, a amiga referindo-se ao filho único, disse-me: hoje ele tá chato demais! Ops. Mãe dizendo da chatice de um filho?! Senti um alívio, com esse desabafo partilhado, que vocês nem imaginam. O tempo todo, todo o tempo, só ouço, leio, e vejo declarações mais que perfeitas desse amor incondicional. Como se nessa relação não houvesse desgaste, confrontos, furos, medos e outras coisinhas mais. Filhos são sim, muitas vezes, chatos. Outras tantas: egoístas, desmemoriados, ingratos, dramáticos, acusadores, cobradores e passageiros. E a gente - aqui - sendo ônibus grandão na incondicionalidade! Afff... Como falamos, minha amiga e eu, até pra ausência de condições há que se ter algum limite! O problema, o meu pelo menos, é encontrar a medida certa. Lembro-me das palavras de outra amiga, Zizi, me dizendo: “ser mulher e mãe nesta vida, indica um tremendo carma redobrado" Enquanto a gente vai errando e acertando na medida deixo, novamente, esse poema de Vinícius que a-do-ro!
Poema Enjoadinho
(Vinicius de Moraes)
Filhos...  Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos?  Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

  Extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 195.

sábado, 20 de outubro de 2012

"FELIZ DIA PARA QUEM É"



Sempre tive uma admiração intensa pelos poetas. Inveja também. Traduzem o que vivem, veem, sentem em versos encantados. Para uma leiga na arte de poetar, como eu, parece fácil. Mas bem sei que pelejam para fazer nascer tanta beleza. Rubem Alves disse assim:

"Lamento mas minha prioridade de vida é botar os meus ovos, escrever as coisas que me dóem. Igual a um furúnculo... Você já teve furúnculo? Incha, fica vermelho, lateja, dói, forma aquele ponto amarelo de pus. Tem de ser espremido. Dói para ser espremido. Mas é só através da dor do espremer que ele pára de doer. Escrever é assim." Rubem Alves, Você tem um furúnculo?

Sofrem as dores de um parto sempre inspirados, mas sós. De companhia verdadeira só mesmo aquilo que lhes instigam.  Seus gritos são acolhidos pelo silêncio do papel e recolhidos pelos leitores, muitas vezes, anônimos. Ao longo desses anos de blog tive o prazer de conhecer e me tornar amiga de alguns. Para não correr o risco de esquecer algum, hoje, dia do poeta, deixo aqui essa pequena homenagem a todos eles e a cada um...amaaados meus! Dia feliz poetas!!!  
"A poesia não é alheia - a poesia está logo ali, à espreita. 
Pode saltar sobre nós a qualquer instante."
(Jorge Luis Borges, In Esse ofício do verso)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

CARTA ABERTA



                                               Querida A.
Aguardei todos esses meses por notícias suas. Não sei quando nem mesmo os motivos que a fizeram partir. Aliás, foi embora sem aviso prévio e só percebi sua ausência quando, aos poucos, os amigos começaram a perguntar.  É que sempre fomos unha e carne. Andávamos tão inseparáveis que chegavam a nos confundir. Agora que você se foi não me reconheço mais. O que devo fazer para que regresse? Diga-me! É que tem épocas que precisamos seguir instruções. Desaprendemos o passo-a-passo e mais que uma mão para nos levantar, precisamos de alguém para se deitar ao nosso lado. E você se deitava e levantava comigo a despeito de qualquer adversidade. Não morava no futuro, mas só no agora. Tão perto que bastava esticar a mão para colhê-la. Será que ando fazendo como Quintana dizia?: “quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz: em vão, em toda parte, os óculos procura, tendo-os na ponta do nariz!”. Estava lá, modesta e fiel, no espaço da casa, no espaço da rua. Sinto tantas e intensas saudades... Cantar ajuda? “Volta, vem viver outra vez ao meu lado...” Você, Alegria, é a chama que dá vontade de viver! Não perca o agora, ouço. Ele nunca mais se repetirá. E Pessoa diz a mesma coisa num dos seus poemas:
“Dia em que não gozaste não foi teu:
Foi só durares nele.
Quanto vivas
sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias: Basta o reflexo do sol ido na água
de um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
seu prazer posto, nenhum dia nega
a natural ventura.”
Então, volta? Vem viver outra vez ao meu lado!
(Tive um dedim de prosa com meu Peludim amaaado e não é que "coincidência" ele me escreveu essa música?! Tirou-me risadas gostosas e instantes de alegria se fez. Obriagada Tatto!)