Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sobre perdas e frustrações



Não nos é ensinado a lidar com elas. Aprendemos ou não na vivência doída. Na flor da pele.
Por todo o tempo que passamos por este mundo, lutamos para ter, acumular, mas, por uma questão cultural, nos esquecemos de aprender a perder. Essa semana criei coragem e fui arrumar meu guarda-roupa. Não adiantava mais postergar o inevitável. Por mais que rezasse para Nossa Senhora do Corpão Perdido, sem retomar as atividades físicas e entrar no SPAradrapo nada aconteceria. Juro que foi um dia inteirinho de frustrações. Desapegar daquela calça jeans - maravilhosa - que me deixava com um bumbum invejável, do vestido decotado nas costas (antes retas e sem gorduras laterais) ou da camisa de etiqueta chique, não foi nada fácil! Enquanto ia acomodando 80% de minhas roupas para doar, fiquei pensando nessa dificuldade que é aprender a perder! Parece paradoxal que tenhamos que agradecer a perda, pois quando ela vem, sentimos como um capricho da natureza que está nos ceifando o que tínhamos de melhor, e então deixamos de perceber que perder é crescer. Mesmo que seja sofrido, ainda assim é um crescimento que nos traz novos caminhos, novas estruturas. No meu caso, fez com que eu retomasse as caminhadas e me matriculasse no pilates. Outro dia conto para vocês.
Perder é uma condição permanente e inerente ao ser vivo. Faz parte! Ao aprendermos que a perda é o exercício de conscientização da impermanência, das frustrações advindas dela, estaremos livres para viver com mais intensidade e melhor qualidade de vida.
Refiro-me genericamente à perda, seja ela de qualquer objeto, pessoa ou circunstância, seja uma amizade, um casamento, um objeto estimado, um corpo transformado pela idade e sedentarismo, um objetivo não alcançado, um trabalho ou o ser amado. Mas para tudo há um fim, até mesmo para a dor e sofrimento que a própria perda nos trouxe. Porém, a maneira como lidaremos com ela é que nos importa, é isto que comandará a duração, a intensidade e a compreensão deste estado, desta passagem em nossas vidas. Dependerá de como fomos ensinados a encarar a finitude e a impermanência e ainda de fatores internos e auxílio externo. Se aceitarmos a ideia de que a dor da perda é sentida em fases (1: choque, descrença, negação; 2: raiva, ódio, revolta; 3: barganha; 4: depressão e finalmente 5: aceitação) poderemos aceitar que o luto é um processo de dor.

A fase de aceitação é permeada sempre com o sentimento de esperança e vontade de viver, mas agora com um novo conhecimento, um novo conceito: perder é essencial para viver!
Agora poderemos viver sem medo de errar, de não conseguir. Saberemos valorizar os momentos que se tem com alguém, de não se apegar às coisas que só insuflem o ego e não alimentem a alma, de ser verdadeiro consigo mesmo e com o próximo, de compreender os próprios erros e os dos outros, de ser humilde e não prepotente, de aceitar a própria limitação, de viver o presente, pois só assim o futuro se construirá de modo sensato e prazeroso. Ai então, poderemos recuperar o equilíbrio!
(Imagens: Google)

segunda-feira, 24 de março de 2014

A(s) Saudade(s)




O tempo não para! Só a saudade é faz as coisas pararem no tempo”. (Mário Quintana)

Teve um dia que minha amada Beth Lilás me corrigiu lembrando que saudade é no singular. Substantivos que nomeiam sentimentos, em geral, não são usados no plural. Mas há exceções, como a palavra saudade, diz o professor Pasquale. Mas eu - sem me importar com as regras do português - respondi de imediato, que a minha é sempre no plural. Não economizo mesmo! Nesses cinco anos de ausência sinto saudades: do seu cheiro, das risadas, do colo, afago, comidas, das brigas na tranca, telefonemas sem hora marcada, constante “a vida é para ser celebrada filha!”, alegria, determinação, garra, resiliência (muito antes dos teóricos criarem o termo), sabedoria, avisos gritados (leva uma bluuuusa minina, a sombrinha que vai chover – e o sol rachando moringa, mas de repente caía um toró!), preocupação com cada filha, dedicação amorosa com netos e bisnetos e AMOR!!! A lista é enorme das minhas saudades, mas é melhor parar por aqui. No congelamento desse tempo que guardo na alma. MÃE: AMO VOCÊ DE VIVERRR!
 

quarta-feira, 19 de março de 2014

ESCRIVINHANDO




“Solidão é o que se escreve por excelência, pois ela é o que da ruptura do ser, deixa traço”. (Lacan, Lituraterra, 1971)


O ato de escrever está impregnado de apreensão, inquietação e até mesmo de certo sofrimento. Já o ato de publicar implica sair da intimidade para o movimento, o gesto. Enfim, um passo que evidencia a transitoriedade do privado ao público. O momento de se aventurar nessa mescla de ousadia e receio para colher os frutos da exposição. E sempre são frutos!
Imagens:Google