Nesse dia internacional da mulher me vem à cabeça uma pergunta: “afinal, o que quer uma mulher?” É sabido que a área da sexualidade humana foi fortemente marcada pelas teorias freudianas. A sua psicanálise acabou tendo um papel marcante no ocidente dentro da teia de discursos da modernidade que tentaram definir e conceituar a figura feminina, seu corpo, sua "função" e sua sexualidade. Entre outras preocupações, Freud retomou a discussão da natureza do sexo feminino, abrindo para a então nova ciência do inconsciente, possibilidades ainda inexploradas. Tentou então desvendar a feminilidade, estudar a sua constituição a partir da estrutura edipiana, que constitui uma das matrizes da psicanálise.
Através da estrutura edipiana, Freud distribui as posições do pai, mãe, do filho e da filha e detalha o longo périplo através do qual cada um aprende a assumir a sua realidade sexuada ou, a resignar-se a ela, quando se trata da menina. Para ele a lei do pai, ao proibir a posse da mãe, primeiro objeto de desejo, que deverá transferir-se para outra mulher e, no caso da filha, para outro sexo, inaugura o acesso à maturidade e à capacidade do simbólico, através da prova da castração. A posição de cada sexo está ligada à sua configuração morfológica. A menina é diferente do rapaz, sendo inferior a este, privada como está desse pênis que lhe falta, de que tem "inveja" e de que não encontra senão um pálido sucedâneo no clitóris.
O sexo feminino é definido negativamente em relação ao sexo masculino. Tornar-se mulher é aceitar não ser homem, através de um laborioso itinerário cujas peripécias não descreveremos aqui. Uma certa bissexualidade vem corrigir esta disposição. Mas o acesso aos benefícios fálicos, à sublimação, custará caro à menina, sempre mais ou menos levada a escolher entre o prazer e o trabalho, enquanto o rapaz pode harmonizá-los.
Freud não ignora o papel desempenhado pela cultura na determinação do lugar das mulheres, mas isso não "derruba" a estrutura edipiana, considerada como transcultural. É com nostalgia que ele verifica a evolução que se arrisca a conduzir ao desaparecimento da coisa mais deliciosa que o mundo tem para nos oferecer: o nosso ideal da feminilidade. A este título, Freud critica o feminismo de J. S. Mill, que reclama igualdade.
Em linhas gerais, o pensamento freudiano, sublinha o dimorfismo, ou mesmo a dissimetria, dos sexos, mas a partir de um monismo fálico: não há libido senão masculina. Entretanto, o que é revelado pelo inconsciente parece espantosamente próximo do que é produzido pelo social. Encontra-se mesmo aí uma normatividade genital e heterossexual em harmonia com a forma da família tradicional.
Perto do final da vida, após um longo silêncio sobre a questão e efetuando uma crítica sobre si próprio, Freud não hesita em afirmar que durante o seu percurso lhe escapou alguma coisa da feminilidade, "esse continente negro". E dirige a Maria Bonaparte a pergunta que se tornou célebre: "Que quer uma mulher?", a qual não será dada resposta.
Ao mesmo tempo em que a psicanálise foi capaz de dar conta do desejo das mulheres, ela permaneceu, até então, impotente perante o seu querer, que não coincide com o seu desejo. O que foi compreendido continuou insuficiente para explicar a feminilidade. Para Freud, o que constitui a masculinidade e a feminilidade é um caráter desconhecido que a anatomia não pode captar... "é impossível dar qualquer conteúdo novo às noções de masculino e feminino".
Meu lado mulher incomoda-se de receber homenagens num dia do ano – 08 de março - enquanto nos outros 364 ele se farta, em múltiplas funções, sendo simplesmente mulher!
Atenção, amadas minhas: aproveito para lembrá-las, nesse nosso dia internacional, do auto-exame de mamas! O câncer de mama continua sendo a maior causa de morte entre mulheres no Brasil. É de fundamental importância os exames clínicos, todos os anos, a partir da adolescência, mamografia anual a partir dos 40 anos, auto-exame mensal e um estilo de vida saudável. Dá-lhes meninas!!!