"Se tivesse a tolice de me perguntar “Quem Sou Eu(?)” certamente cairia estatelada e em cheio no chão.
É que “Quem sou eu?” provoca necessidade.
E como satisfazer a necessidade?
Quem se indaga é incompleto!" (Clarice Lispector)
Sempre há uma confusão entre desejo, necessidade, querer e vontade. Palavras que – no dicionário – chegam a se misturar. No cotidiano então, nem se fala!
Fala-se em desejo como vontade de alcançar algo, de realizar sonhos, de satisfazer necessidades. Fala-se do desejo referido à libido e à sexualidade. Em todo caso a palavra desejo é largamente utilizada e comporta tantos significados que não dá para nos reportarmos a ela sem sublinharmos que no campo psicanalítico o desejo é absolutamente contrário ao termo vontade como algo deliberado e consciente.
Na necessidade a tensão é da ordem física, biológica, e é reduzida a partir da satisfação do “encontro” com um objeto real, já a relação do desejo não é com um objeto real, mas com um objeto simbólico que aponta sempre para uma falta impossível de ser satisfeita, pois onde o desejo encontra um objeto (objeto a), ou seja, o significante encontra um significado transforma-se num novo significante, mantendo-se, desse modo, o desejo e sublinhando o objeto de satisfação como objeto perdido para sempre.
O desejo em psicanálise não se trata de algo a ser realizado, mas sim de uma falta nunca realizada. O sujeito é um ser faltante e pode passar a vida buscando saciá-lo. Talvez, por isto mesmo, não seja algo de fácil compreensão, pois remete sempre ao campo do desconhecimento, do inconsciente, da própria constituição do sujeito. Trata-se de um conceito que foi ganhando um sentido tão próprio que é nuclear para a teoria e a prática psicanalítica. Assim, a “compreensão” do desejo é algo de certa mobilidade que ora nos escapa e ora nos é revelada. Portanto, escrever, pode ser uma forma de ordenar o que passível de compreensão.
Nesses tempos de desvio de percurso (foi esse o termo que me ensinaram) profissional, existencial e com direito a todos os ais que fazem parte, recebi o texto abaixo que parece ter sido feito sob encomenda! Melhor impossível. Um dia ainda consigo escrever assim... Do autor – C.Calligaris – posso dizer que tive a honra de ser sua aluna. De sua função – psicanalista – seus livros, crônicas e textos falam por si. Os negritos e sublinhados são meus - of course - para jamais esquecer desses novos desejos...(RR)
| Considerações sobre novos desejos
| Causa da depressão pode não ser perda e frustração, mas a chegada de novo desejo, que é silenciado
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UM JOVEM não sabe o que ele está a fim de fazer da vida, e os pais pedem que eu descubra qual é o desejo do filho, e modo que ele possa escolher o vestibular e a profissão que ele "realmente" gostaria.
Na mesma semana, encontro um adulto que acha que, de fato, nunca fez nada por desejo. Embora bem-sucedido, queixa-se de que suas escolhas (profissionais e amorosas) sempre teriam sido circunstanciais, efeitos de oportunidades encontradas ao longo do caminho. Ele pede, antes que seja tarde, que eu o ajude a descobrir qual é "realmente" o seu desejo. Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo: quem viver segundo seu desejo será, no mínimo, mais alegre. Esta é mesmo uma boa definição da alegria: a sensação de que nosso desejo está engajado no que estamos fazendo, ou seja, de que nossa vida não acontece por inércia e obrigação. Inversa e logicamente, muitos estimam dever sua(grande ou pequena) infelicidade ao fato de terem dirigido a vida por caminhos que - eles declaram - não eram exatamente os que eles queriam.
Pois bem, esse pressuposto e os pedidos que recebi se chocam com esta constatação: o "nosso desejo" nunca é UM desejo definido por UM objeto ou por UM projeto. Não existe, nem escrito lá no fundo escondido de nossa mente, UM querer definido, que poderíamos descobrir e, logo, praticar com afinco e satisfação porque estaríamos fazendo aquela coisa ou caçando aquele objeto aos quais éramos, por assim dizer, destinados. Nada disso: de uma certa forma, todos os objetos e os projetos se valem, e nenhum é "nosso" objeto ou projeto específico. Ou seja, nós desejamos sempre segundo as circunstâncias, os encontros, as oportunidades - segundo as tentações, se você preferir.
Somos volúveis? Nem tanto, pois cada objeto e projeto não substitui necessariamente o anterior. O que acontece é que desejar é uma atividade inventiva a jato contínuo.
Por consequência, mesmo quando estamos alegremente convencidos de estar fazendo o que queremos com nossa vida, nunca estamos ao abrigo do surgimento de desejos novos.
Claro, podemos aceitar esses desejos novos. Por exemplo, em "As Confissões de Schmidt" (que não é um grande filme), de A. Payne, com Jack Nicholson, o protagonista acorda de noite, olha para sua mulher de sei lá quantos anos e se pergunta estupefato: "Quem é esta mulher que dorme na minha cama?". Logo, ele dá um rumo novo à sua vida, colocando o pé na estrada. Mas a expressão de seus novos desejos é fortemente facilitada por duas circunstâncias: providencialmente, o protagonista se aposenta e fica viúvo. Nessas condições, escutar novos desejos fica fácil, não é?
Agora, imaginemos alguém que esteja no meio de sua vida profissional e num bom momento de sua vida amorosa. Nesse caso, provavelmente, o novo desejo será silenciado, reprimido, menosprezado ("deixe para lá, é besteira"). Resultado: o indivíduo continuará declarando que está vivendo a vida que ele queria (e, em parte, será verdade); só que, de repente, sem entender por quê, ele perderá sua alegria.
Por que razão nosso indivíduo negligenciaria seus novos desejos? Simples: por serem novos, eles acarretam a ameaça de uma ruptura no presente: afetos e laços que poderiam ser perdidos, medo da solidão e preguiça dos esforços necessários para reinventar a vida.
Infelizmente, essa negligência tem um custo alto. Sempre entendi assim a "Metamorfose", de Kafka: alguém acorda, e o que até então era uma vida normal e legal, de repente, aos seus olhos, é uma vida de barata.
Nota útil para a clínica da depressão. Às vezes, procuramos em vão as causas de uma depressão; será que houve lutos ou perdas? Nada disso; está tudo bem, trabalho, família, filhos e tal, mas o indivíduo entristece, volta a fumar e a beber como se quisesse encurtar a vida, engorda como se estivesse num mar de frustração e precisasse de gratificações alternativas.
Em muitas dessas vezes, a origem da depressão não é uma perda, nem propriamente uma frustração, mas a aparição de um desejo novo que não foi reconhecido. E os novos desejos, sobretudo quando são silenciados, desvalorizam a vida que estamos vivendo.
Moral da fábula: 1) Não existem vidas definitivamente resolvidas, pois novos desejos surgem sempre; 2) É bom reconhecer os novos desejos, mesmo que deixemos de realizá-los. Contardo Calligaris in Folha de São Paulo/Ilustrada – 19/05/2011
(Imagem e citação de Clarice L. retirado do blog de
Karin Izumi)