Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

sábado, 24 de janeiro de 2009

ESCOLADO OU DESCOLADO

Não conheço pais que não sofram com as questões escolares de seus filhos. Desde a escolha da escolinha na mais tenra idade, até o colégio que irá prepara-los para o vestibular.
Profissão honrosa e rendosa é a que tem diploma universitário. Houve um tempo que o diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza.
Os pais já podiam estar prontos para morrer quando uma dessas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso ficasse para titia; 3) um filho entrava para o Banco do Brasil, outro para o seminário para ser padre, outro para o exército para ser oficial e mais um tirava diploma de doutor: médico, engenheiro ou advogado.
Lembro, com carinho, do meu Tio Jaques, o doutor médico, orgulho da minha avó e de toda família, orientando minha mãe nesse assunto: - bota essas meninas para estudar! Uma para ser médica, outra advogada, outra engenheira, outra arquiteta. Você ficará tranquila com o futuro delas! Não foi bem assim: uma fez serviço social, duas letras, outra comunicação social e uma só casou. Quando lhe contei que faria psicologia, respondeu: é melhor que pedagogia, mas não sei se dá dinheiro!?!
Mesmo estando no século XXI, esta ilusão continua a morar na cabeça de todos os pais, e é introduzida na cabeça dos filhos desde pequenos. A diferença é que hoje, além de existirem uma infinidade de cursos, a escolha não é mais garantia de emprego nem de sobrevivência honrosa.
Quando se pergunta a uma criança “o que você vai ser quando crescer?” E ela, baseada no seu mais puro desejo responde “bombeiro, polícia, bailarina, astronauta” acham bonitinho. Quando se pergunta a um jovem vestibulando “o que você vai fazer?” o sentido dessa pergunta e a expectativa da resposta são a mesma de ontem: garantia e tranquilidade no futuro.
Saber o que se deseja aos dezessete anos não é tarefa fácil. Ouço a angústia existente na fala de cada cliente nesse momento decisivo. Sentem-se pressionados pelos familiares, pela realidade daqueles que já com o diploma na mão não conseguem arranjar emprego e por si mesmos quando ainda não sabem de seu desejo ou não conseguem sustenta-lo por ser profissão pouco valorizada.
Dois dias antes do início do vestibular da UFMG falo com meu filho de um compromisso familiar que teríamos no domingo e assim acontece:
- Não vou poder ir mãe, porque vou fazer o vestibular da federal.
- Como assim???? Misto de surpresa com “mãe é a última a ficar sabendo das coisas”.
Ele já cursa direito na PUC. Na época da escolha, também muito jovem, não sabia o que queria. Estava em análise, fez teste vocacional, conversou com muitos, trocou idéias com pais, tios e primos. Tomou sua decisão, eu bem sei, porque na hora de preencher os formulários do vestibular, precisava escolher uma das opções oferecidas. Cursou o primeiro ano, viajou no segundo para o exterior e aprendeu coisas que nenhum banco de escola oferece. Questionou sua escolha. Retomou o curso quando retornou.
- É um curso novo, mãe, abriu esse ano: Ciência do Estado e da Governança Política.
- ???????
- Eu vi a ementa e me interessei por várias disciplinas.
- O que um cientista do estado faz? Que tipo de emprego ele tem?
Afinal, faço parte desse grupo de pais que se pré-ocupam com o futuro dos filhos.
- Mãe fica calma, não vou largar o direito não. Se passar, pretendo fazer as duas faculdades. Inclusive elas tem tudo haver.
- Ta bom. Mas você está estudando?
Estou no meio de um atendimento quando meu celular toca e um cliente, pura alegria, me avisa que passou na segunda etapa. O resultado havia acabado de sair. Batalha vencida.
Vou rapidinho para a internet pesquisar o resultado do meu filho. Como é mesmo o nome do curso? Vejo na telinha seu nome e me emociono com essa nova conquista. Quero lhe contar a notícia em primeira mão, mas ele está de férias, viajando e saboreando a vida.
Quero lhe dizer, filho, que muito mais que escolado*, sustente seu(s) desejo(s) se transformando num Homem descolado*.

Escolado = esperto, vivo, sabido; experimentado, ensinado.
Descolado= que se despegou ou desuniu; gíria: diz-se de pessoa que se dá bem no que faz.


Um comentário:

  1. Cheguei no seu blog por um acaso, e achei muita coincidência você ser de BH e trabalhar no Socor, porque eu sou paciente da Renata, que tbm é pisicologa la !
    adorei o seu blog
    beijos

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