Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quinta-feira, 30 de junho de 2011

ESCREVENDO A VIDA


Não sou escritora*. Nem poeta**.  Represento por escrito minha alma sonhadora e meus devaneios diários. Outro dia um amigo me disse por escrito: daqui a 120 anos quando você escrever um poema...  Quase bebi da má água com essa fala. Mas aí lembrei: escrever eu posso em qualquer lugar.
É tarefa fácil. Mesmo sem papel.
Posso escrever na mão,
                      no chão,
                      na praia
no quadro
na folha
na cama, no mundo.
Posso escrever eu mesma.
Está em tempo hábil.
Sem pretérito ou condicional, menos ainda subjuntivo.
É livre meu verbo.
É só presente. Escrevo.
Ah! Que sensação legal.
O que é legal pode não ser legítimo, e a recíproca é verdadeira.
Mas eu legitimo a minha legalidade.
Só há um jeito possível,
só uma forma sonhada:
                                 sensibilidade. Só isso.
Só disso se precisa para ser,
                            pra viver,
                            pra morrer
e pra escrever poesia.
Não é difícil. É fácil. E não preciso de 120 anos!
Sou dessas pessoas que provocam facilidades. Facilitar as coisas nos faz menos embrutecidos.
Não sou uma pessoa difícil. Sou fácil.
Sou, porém, muito sensível.
Ah! esta sensibilidade me debilita.
Não, não sou débil.
Não fui bem compreendida. Talvez nunca seja. Não me importa. Não mais.
Quero continuar sensível.(RR) 
Prá minha minina-ternura... sensibilidade pura!

*Escritor: Aquele que compõe obras literárias, científicas ou didáticas.
**Poeta: Aquele que faz versos e se dedica à poesia.
(Imagem: Karin Izumi)
                            

terça-feira, 28 de junho de 2011

CORPUS EM SANTA


Feriado prolongado é sinônimo de recarregar as energias. Para tal o destino só poderia ser Santa Matilde.  Na semana santa já tinha feito minha pré-reserva. Sabia que seria disputado conseguir uma vaga. Afinal, é também época de São João e as festas pipocam por essas paragens. O frio junino só fez a mala um pouco mais pesada. 
Nada que um fogão de lenha aceso, um bom vinho, caldo de mandioca, canjica e prosa a perder a hora não abrandasse.
Pela manhã as brumas de Santa escondiam o por vir. 
Dias de um azul de encher os olhos de encantamento. A mistura com o verde era pintura com assinatura reconhecida: D’us.
Escrevo o momento que a história me concede como vivente e senhora que constrói com sua lucidez e com suas procuras o que há de melhor para se viver intensa e livremente.
Estou correndo o sagrado risco de ser. Estou substituindo o destino pela probabilidade. Antes eu pensava que latejar era ser uma pessoa. Só meu pensamento me salvava; por isto sempre escrevi, fingindo que estava escrevendo pra alguém. Era meu jeito fingidor de conviver com minhas carências antigas.
Agora não quero mais fingir, nem finjo carências inúteis.
Não há mais futuro ou condicional em mim. Só o presente me conforta, me realiza, me dá vida e se impõe delicada e firmemente em cada coisa que me acontece.
Santa Matilde é acontecimento a cada instante.
A horta oferecia - generosa - alface, couve, cenoura, salsa e cebolinha para as aventuras gastronômicas.  Depois do pecado diário a capela abria suas portas para quem dela necessitasse. Eu dispensei. Senão ficaria por lá internada para todo o sempre.
Olhem bem - pequena amostra - o sistema de engorda desses dias. 
Feijão do Zé Renato que tropeiramente foi feito com esmero.
Torta fria de atum que Syl fez, com amor, prá sua irmã vegetariana.
Esse lagarto ensopado só comendo prá entender...
Tivemos aniversário para celebrar: se tornar uma sexi_genária assim é para poucas e boas. Amigos visitando e família chegando quase no dia de voltar.
FELIZ NATAL JUNIA
Tudo aqui tem um nome só: ACONCHEGO.
Brassavora reginae
Afetuosamente lindo!
Confortavelmente simples.
Onde tudo alcança significação.
Nada é em vão ou sem sentido.
Cada canto, todo objeto tem vida.
Há tanto calor humano neste inverno!
E tanta vida neste universo novo.
Gosto demais deste sabor vital.
Onde me vejo inteiramente nascida.
Sou gratidão. Obriagada Syl e Zé... irmigos amados meus!!! (RR)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

DES_APEGO MATINAL

Desapeguei-me de mim para poder dormir. Se não, não durmo. Tenho tido ajuda de Bach numa mistura de notas de cidreira, melissa e anis.
Não quero ser repetitiva.
Amanheceu de novo. O dia se repete à mesma hora e não fica velho.
É sempre nova a manhã.
E tem coisa mais viva, linda e quente que manhã? Manhã é mulher. Ela traz o dia.
Que me importa o inverno? É de manhã. Manhã é mulher grávida do dia. Ainda que a meteorologia me intimide não temerei o frio. Muito menos o interno.
Me agasalho como posso, que venha pois o frio. É frio novo, virgem, que nem a manhã.
Sempre é tempo demais. Eu não quero.
Basta-me a eternidade. Esta, do momento presente que eu mereço. Mereço?
Nunca é nenhum tempo...
Pois é, nunca me senti tão merecedora. Também não é sem tempo.
Tempo é saber e sabedoria.
Tempo sempre dá, no tempo certo, o tempo que se precisa. Mas eu não careço.
Tenho tido todo o tempo pra me desembaraçar de mim e das concessões que fiz de mim mesma.
Conceder-se.
Ceder eu posso, até devo, às vezes.
Porém conceder-se é absurdo. Ninguém merece isto. Nem você.
Qualquer você que não seja eu mesma.
Eita sujeitinho agarrado esse verbo.
Eu sou.
Tu és. E ele? Sei lá.
Só eu não via que tinha me largado de mim. Que traição, não?
Pois é. Ao desembaraçar-me das concessões, voltei.
E ao voltar, me vi! (RR)
(Imagem: Internet)

terça-feira, 21 de junho de 2011

DOROSA

Respirava e doía. Peito, ombro, braço esquerdo. Nada de formigamentos. Só o lado esquerdo. Não! Sabia que não era um enfarto. Já havia sentido – poucas vezes – esses mesmos sinais. Sintomas de agonia. Nada de morte súbita. Anunciada em doses homeopáticas. E sabia como doía. Dorosa era o diagnóstico. Dor amorosa.
Mas os amantes parecem querer tudo. De um lado, não abrem mão da paixão. De sentimento. Mas só esse, sairia na urina. É fugaz como o corpo que sente. E se impõe ao amante. Não queremos ser amados só por um instante. Nem como uma manifestação da natureza não deliberada ou endossada por quem sente.
Por isso, de outro lado, os amantes também não abrem mão da opção de serem escolhidos. Da autonomia da escolha. E da eternidade. E nada disso combina com sentimento. Tem a ver com amor prático. Com boa vontade, para quando o amor falta. Os amantes, então, querem tudo. Que amemos com paixão e liberdade. E por esperarem tanto, acabam não desfrutando do que têm.
Mas deixemos os amantes gananciosos. Interessa-nos o amor prático. Que é simulacro de amor. Simulação para a falta de sentimento. Não se trata de fingir. Mas de colocar a razão a serviço da vida. Uma vida que nem sempre é amável. Mas que vale a pena mesmo assim. Porque mesmo quando o amor falta, ainda nos resta uma valiosa boa vontade. De amar!(RR)
(Imagem: Karin Izumi)

domingo, 19 de junho de 2011

PORTUGUESES E O VALOR DO DINHEIRO


Somos todos consumistas em potencial. Uns em potências mais elevadas. Alguns poucos totalmente liberados da preocupação do orçamento familiar, saldo em conta-corrente, para exercitar suas compras diárias.
Tenho um cunhado doutor em economia e sempre que há chance, ele lança as três perguntas básicas que deveríamos nos fazer antes de consumir: 
  1. Quero mesmo aquilo que penso em comprar? Ou é apenas um estímulo vindo de um vendedor habilidoso?
  2.  Se quero, eu preciso do que vou comprar? Se não lhe trouxer uma utilidade duradoura, esqueça. Há uso mais inteligente para o seu dinheiro! 
  3.   Se quero e preciso posso comprar?
Na realidade não faço essas perguntinhas quando uma blusa “básica” dá aquela piscada para mim. Nem quando aquele vinho delicioso e na “promoção” quase comete suicídio se jogando da prateleira dentro do meu carrinho de supermercado. Prazeres que duram pouco, bem sei.
Foi pensando neles – esses fugazes – que li a reportagem de Gustavo Carbasi na Folha de São Paulo. Gustavo é autor de “Casais Inteligentes Enriquecem juntos” e “Investimentos Inteligentes”. Não li nenhum. Não enriqueci e não tenho investimentos. Mas isso já é outra estória.
O autor conta que havia ido a Lisboa para o lançamento de mais um livro seu. Com os graves sinais da crise econômica, pedido de socorro à União Europeia, desemprego e inflação em alta e esperança em baixa, questionou seus editores se era o momento de lançar novos títulos no mercado.
Ficou surpreso com a resposta uma vez que supunha que os trabalhadores portugueses tinham menos dinheiro no bolso para consumir qualquer coisa, incluindo livros.
Segundo seus editores, a crise que impunha mudanças até nos hábitos alimentares dos portugueses pouco influenciava o mercado de livros. A explicação é fantástica e me causou mais admiração naquela que já nutria por esses irmãos!
Para eles – portugueses – assim como para a maioria dos europeus, leitura é lazer. Cinema, teatro, viagens, comer fora, práticas esportivas e jogos também são lazer, mas a procura por essas práticas havia caído drasticamente com a crise portuguesa.
O argumento para a sustentação na venda de livros era de que o lazer obtido com um livro era barato, durava vários dias, podia ser repassado para toda a família e, ainda, doado a famílias com poder de consumo mais oprimido.
Resumindo, o que sustentava o comércio livreiro em um país em crise era a durabilidade do prazer ou do benefício obtidos com esse tipo de produto. Nada traduz melhor o conceito de consumo do que a ideia de obter do dinheiro um benefício mais duradouro. Quanto mais benefícios obtemos do nosso dinheiro, menos impulsos de consumo temos afirma Gustavo. E termina categórico: o consumismo está diretamente relacionado à incapacidade de obter prazer duradouro nas compras, como uma droga que gera dependência!
Talvez precise me internar numa clínica de dependentes. Não sem antes reiterar minha admiração pelo povo português! Tenho muito que aprender. Tenho prazeres no criado-mudo me aguardando nesse domingo.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

DIÁRIO


Diário senão novidade de um novo dia? Pois é.
Estou à disposição da vida. Coloco todo o meu talento e as minhas habilidades para cumprí-la.
Bom dia Beagá.
Bom dia Regina.
Bom dia Vida!
O dia se abriu como se abrem meus caminhos. Quem trocou carinhos por enganos não viu este dia clarear. Que pena!
Faço ligações que nem o verbo, só sendo.
Não permaneço, nem fico.
Concedo-me esta alegria solta de ser quem sou. Posso ser lida por qualquer pessoa, mesmo fora do contexto.
Sou o quero dizer sem dicionário, intérprete, dúvida ou pontuação.
Sou a palavra escrita. Além da leitura, registro e assino embaixo.
Autenticação é coisa de cartório. Burocracia.
Eu não. A autenticidade me confere identidade e diferença. É este meu passaporte.
A validade não me importa. Viajo e vivo enquanto eu der valor às pessoas.
Ah! Estas têm valor demais para mim. E sou-lhes gratidão.
(Imagem: http://galacta.org/literatura/blog-diario-certo-errado/)

terça-feira, 14 de junho de 2011

CONFIANÇA EM SI MESMO

“Não existe outra realidade, a não ser a que está contida dentro de nós. É por isso que tantas pessoas vivem uma vida irreal. Elas consideram as imagens exteriores a elas como a realidade e nunca permitem que o mundo interior se afirme.” (Herman Hesse)
Observo a independência. Viver por conta própria. Quantas vezes ficamos enjoados e cansados de sermos jogados de um lado para outro como uma pluma num furacão. Preparamo-nos para aterrissar. Claro, poderá haver alguns obstáculos no chão para contornar. Mas, se permanecermos completamente atentos ao ambiente e estivermos preparados para nos protegermos, há uma boa possibilidade de pousarmos em segurança em território amigo. Podemos nos sentir um pouco egocêntricos. Mas, é assim que devemos sentir. Aguçar a nossa percepção de quem realmente somos. E, verdade seja dita, o nosso senso de identidade é mais que um fator importante em nossas vidas. Somos incentivados a reconhecer e valorizar as características que nos fazem especial, de modo que possamos realmente ser essa pessoa sem igual!
A realização pessoal é um sentimento forte e bonito. É um dos aspectos mais importantes do crescimento humano. Principalmente, na medida em que deixamos para trás o “eu sou” e entramos no “eu somos”. Pluralidade necessária.
Observo onde a culpa e a censura estão impedindo minha evolução. É preciso um grande esforço emocional para penetrar a barreira da culpa, livrar-me do que é velho, do que limita e adotar o que é novo e progressista. Acreditar em mim mesma. Fazer algo que quero fazer, mas nunca tive coragem. Fazer algo diferente. Talvez, sejam nessas horas, que temos que nos ver de um modo como nunca antes havíamos nos visto. Dispenso o Palácio dos Espelhos. Imagens distorcidas e ilusórias. Aprender a me adaptar e a dobrar a minha singularidade para alcançar o que quero.
Há que se ter um propósito construtivo para esse sentimento de solidão que experimento. Claro que gostaria de ter um pouco de encorajamento ou de ajuda efetiva no meu trabalho, nos meus planos, sonhos e até mesmo nas necessidades básicas. Fui deixada por conta própria e embora – realmente - precise dos outros para amar e receber apoio, é importante que não dependa deles para a minha felicidade ou para os resultados que estou buscando. Independência ou morte? Dou o grito, ainda que tímido!(RR)

domingo, 12 de junho de 2011

DESSE AMOR DIÁRIO

Faz um ano que, nessa mesma época, dediquei aqui uma semana para as comemorações do dia dos namorados. Escolhi músicas, poesias diversas que falavam de e para o amor. Recebi comentários lindos de amados que vivem - particularmente - seu amor. É... o amor é sempre nosso! Vive conosco e, tantas vezes, convive no outro sem que se dê conta. Muito vivi desse sentimento liberto. Cativeiro nunca houve para contê-lo. Esparramo sensações inexplicáveis em sonhos reais. Um ano se passou e com ele tantas mudanças. Muda o coração? Muda o amor? Não! De “muda” só mesmo esse silêncio que aconchego e esquento sob a manta de nome AMOR. Esse ano, para celebrar o amor, escolhi trechos de poetisas. Escrito por mulheres que tinham esse sentimento na ponta de suas almas e nas vivências diárias. Desejo a cada um de vocês, amados meus, um domingo amorosamente bem vivido!

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava.Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente”. (Clarice Lispector)

"Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor". (Clarice Lispector)

POEMINHA AMOROSO
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
“Eu te amo, perdoa-me, eu te amo...”. (Cora Coralina)

“Nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas”. (Cora Coralina)
"O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória, imperecível". (Adélia Prado)

“Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível". (Adélia Prado)


"Tenho fases, como a Lua; fases de ser sozinha, fases de ser só sua". (Cecília Meireles)

“De longe te hei-de amar
 da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância". (Cecília Meireles)


“Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!
Eu nãos as tinha pressentido,
eu era como a terra sonolenta e exausta
sob a inclemência do céu carregado de nuvens,
quando, igual a uma chuva torrencial de verão,
tuas palavras caíram da altura em cheio
e se infiltraram em meus tecidos". (Henriqueta Lisboa)

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