Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

RECONHECIMENTO DO AMOR

Amiga, como são desnorteantes
os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
onde se reclina a inquietação do forte
(ou que forte se pensava ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
a bruma da renúncia:
não querias a vida plena,
tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
não pedias nada,
não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

Descansei em ti meu feixe de desencontros
e de encontros funestos.
Queria talvez – sem o perceber, juro –
sadicamente massacrar-te sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam desde a hora do nascimento,
senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
ou mais longe, desde aquele momento intemporal
em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
no caos universal.

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro
o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
quando – por esperteza do amor – senti que éramos um só.


Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
com olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
e a pura essência em que nos transmutamos dispensa
alegorias, circunstâncias, referências temporais,
imaginações oníricas,
o vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
as chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
todas as imposturas da razão e da experiência, para existir em si e por si,
à revelia de corpos amantes,
pois já nem somos nós, somos o número perfeito:
UM.


Levou tempo, eu sei, para que o EU renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
e se confessasse jubilosamente vencido,
até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
a melodia, a paisagem, a transparência da vida, perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.
(Carlos Drummond de Andrade em "Amar Se Aprende Amando")

Esta foto me foi enviada pelo amigo, amado, JC. Fiquei tão encantada que perguntei se um dia, numa postagem especial, poderia usá-la. Quis saber também, se era montagem (não entendo nada dessas coisas) e ele gentilmente perguntou a quem lhe enviou e aí está a bela resposta:
"Bom dia JC! Quanto à foto nao tenho certeza se é montagem, entretanto, acho que ela, intrinsecamente considerada, leva uma mensagem de que as coisas simples podem nos arrebatar para uma autoreflexao que, por sua vez, nos colocará em contato com o dom da Paz interior, mesmo que seja por alguns instantes. Quanto ao meu nome, conhecendo voce como o conheço, se for seu amigo pode passá-lo. Abraçao! Jorge Lemos"
Agradeço a você JC e a seu amigo: OBRIAGADA! Como pode perceber é uma postagem bem especial e a foto foi...a tradução, delicada, desse poema de nosso DRUMMOND, amado! Mais que isso... só dois disso!!!

15 comentários:

  1. Uma foto muito "Photoshop";)
    O tema da amizade gosto, especialmente quando ela é verdadeira e...sem montagens de photoshop :)

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  2. Bom dia, amada!

    Opa! Começamos o dia com muito amor, Drummond, simplesmente Drummond!...
    A sexta-feira promete heim, amiga?...rss

    Beijos
    Lia♥

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  3. Olá Rê querida,
    A foto pode ser trabalhada ou não, mas é um encanto e traduz fielmente o espírito da postagem.
    ...nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar...
    Li e reli voltarei para ler, porque a anos luz fico e me sinto tão pequenino com a poesia de Drummond.
    O amor não se explica ou troca por palavras singelas ou mais elaboradas, simplesmente acontece, mas o poeta nas entrelinhas diz sempre mais do que nele conseguimos retirar.
    Kandandos meus a atravessar tanto mar.

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  4. Isa, amada!
    Quem "montou" essa foto, para mim, teve a criatividade e sensibilidade suficientes para colocar nela duas preciosidades, ao mesmo tempo: a amizade e o amor!
    Beijuuss n.c.

    Lia, amada!
    Essa semana, em quase todos os blogs que acompanho (apesar do sufoco que anda minha vida) só li e vi sobre o amor. Cada coisa tão linda...o vírus me pegou rsrs e como jamais, conseguiria escrever como esses poetas, amados meus, e muito menos como Drummond, escolhi esse que nos ensina como tudo vai se transformando... A sexta, o sábado, o domingo...todos os dias prometem!!!!rsrs
    Beijuuss n.c.

    Kimbanda, amigo poeta, amado!
    Todos se sentem assim perto de Drummond...eu, desde pequena (um dia fui rsrs)sempre o amei, pela forma simples que escreve e ao mesmo tempo metafórica. Nos meus tempos de faculdade fiz uma disciplina isolada que era: A Psicanálise na obra de Drummond! Uma loucura... E como vc disse: o amor não se explica e prá nosso poeta maior: AMAR SE APRENDE AMANDO!!!
    Beijuuss n.c. do lado dé cá do Atlântico
    P.S. escrevi procê no Serra da Leba meu encantamento com aquela poesia... Meu e de todos que a leram. Parabéns por tanta inspiração.

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  5. Você é fera. Não importa se a imagem foi montada ou não o que vale é a emoção e inspiração que ela nos passa, aliadas à maravilhosa poesia que você garimpou.
    Uma maravilha.
    PS: aguardo resposta do Jorge.

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  6. Querida Regina, mais um gosto em comum: amo de paixão a poesia de Drumond e tenho o livro que você citou. Tenho também outro, chamado Corpo, onde ele fala de sensualidade e erotismo daquele jeito tímido, meio mineiro, que é só dele. Que poeta!
    A imagem, quem se importa se é montada? Tão linda...
    Quanto à amizade, ou qualquer outra manifestação do Amor, nada de se conter; como diz a canção ' só louco, amou como eu amei, só louco, quis o bem que eu quis, oh insensato coração...' É preciso entrega, sem medo do mergulho, senão de que vale a vida? Muitos beijos

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  7. Minha cara amiga Regina.

    Este espaço é cheio de vida, assim, emoções a flor da pele, amor, medo, humor, tudo divinimamente misturado, Drumond nossa para que mais?
    tenha um lindo fim de semana ocê merece.

    Renata

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  8. JC,amado!
    Que booooom que gostou da utilização da foto...não fez um par perfeito com o poema? Como é que vc descobriu que sou LEONINA??? Uma fera, mora???rsrs
    Beijuuss n.c.

    Ângela, amada!
    E eu já num sei quantas temos? Por isso que lhe digo, na hora do tricô num vai ter novelo que dê conta da gente rsrs. Também teeeenho, imagina se logo esse: CORPO num haveria de ter!!! Dilícia de degustar e testar rsrs Lembra desse:

    "O que se passa na cama"

    (O que se passa na cama
    é segredo de quem ama.)

    É segredo de quem ama
    não conhecer pela rama
    gozo que seja profundo,
    elaborado na terra
    e tão fora deste mundo
    que o corpo, encontrando o corpo
    e por ele navegando,
    atinge a paz de outro horto,
    noutro mundo: paz de morto,
    nirvana, sono do pênis.

    Ai, cama canção de cuna,
    dorme, menina, nanana,
    dorme onça suçuarana,
    dorme cândida vagina,
    dorme a última sirena
    ou a penúltima- O pênis
    dorme, puma, americana
    fera exausta. Dorme, fulva
    grinalda de tua vulva.

    E silenciem os que amam,
    entre lençol e cortina
    ainda úmidos de sêmen,
    estes segredos de cama.
    Êita Drummond arretado, sô!
    Beijuuss n.c.

    Renata, amada!
    Taí uma verdade que gostei dimaiiiisss de ouvir: "esse espaço é cheio de vida"...OBRIAGADA! Realmente você já me conhece um cadim e descobriu que eu amo a vida de viverrr!!!!
    Beijuuss n.c.

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  9. Gostei de sua postagem. Vá aos meus blog's
    www.queriaserselvagem.blogspot.com
    www.congulolundo.blogspot.com
    Um beijão

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  10. Olá José! Seja bem vindo e que bom que gostou da minha postagem. Isso é um convite ou uma intimação no imperativo? rsrs
    Beijuuss n.c.

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  11. Ah, linda de viver a imagem, se é montagem, e é bem provável q seja, foi muitíssimo bem bolado. Muita sensibilidade de quem o fez.

    E quanto à poesia, o que dizer de Drummond?
    Simplesmente maravilhoso.

    Beijos, Regina...
    bom fim de semana.

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  12. Bravo!
    Delicioso espaço para reflexão.
    Bom dia.
    Que lino post. E que linda foto. Adorei.
    FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja um bom final de semana para você.
    Saudações Florestais e Educacionais !
    Inaugurei esta semana o meu CADERNO DE RECEITAS, onde pretendo postar, na medida do possível, receitinhas de meus antepassados.
    http://www.blodasreceitas.blogspot.com/
    http://www.blogdasilnunes.blogspot.com/da foto.

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  13. Pétala, amada!
    Linda messsmo,né? E Drummond é...Drummond!
    Beijuuss n.c.

    Sil, amada!
    Mais um blog? PARABÉNS e muito sucesso! Depois vou lá conhecer....
    Beijuuss n.c.

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  14. Zé, amado!
    Esse homem (quem sou eu prá conversar com vc sobre esse assunto) prá mim, não tem igual naummmmmmmmmmm. AMO DE PAIXÃO!
    Beijuuss n.c.

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