Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

ÉPOCA DE PLANTIO : PSICOLOGIA HOSPITALAR


Desde o século XV, com o pensamento mecanicista de Descartes, passou-se a ver o ser humano como uma máquina, e foi se perdendo a visão de totalidade proposta pelo pai da medicina, Hipócrates. Evoluiu-se (?) para uma visão fragmentada do corpo humano, que não mais passava do que um conjunto de órgãos, células, moléculas, receptores, genes.
Essa foi a armadilha em que caiu a ciência médica: a visão integral que é fundamental para se estabelecer a proposta de tratamento mais adequada para um indivíduo, em particular, foi-se.
Em 1994 minha inquietude e desejo de expandir, para muito além das quatro paredes do meu consultório particular, me fez criar e apresentar um projeto/proposta de implantação da Clínica de Psicologia e Psicanálise num hospital geral. Acreditava - e ainda hoje - que a visão cartesiana estava equivocada. Não haveria local, mais apropriado, para demonstrar o quanto paciente e familiares se sentem fragilizados numa internação, desorientados ao ouvir um diagnóstico, e se beneficiariam de um atendimento interdisciplinar e  de uma visão holística.
No quarto encontro com o então presidente da instituição ele solicita a saída - da sala de reuniões -  das duas colegas que havia convidado para fazer parte dessa aventura/sonho, ficando a sós comigo. Começa assim sua fala:
- Sabe Dra. Regina, a Sra. é muito parecida comigo: exigente, meticulosa, acredita que todos devem atendê-la de imediato, quer as coisas para ontem, cobra soluções rápidas, enxerga com agilidade as falhas, entusiasmada, e por ser assim crê que todos devem ter esse mesmo pique no trabalho. Não pode continuar assim! Numa instituição, as coisas e pessoas funcionam num tempo bem diferente do nosso e ritmo aquém do nossa vontade. A Sra. precisa ter mais flexibilidade, jogo de cintura, pois caso contrário - rapidamente - ela mesma, com seus mecanismos de defesa, a expulsará daqui. Eu não gostaria de perdê-la. Como faremos?
Se houvesse um buraco naquela sala de reuniões teria desaparecido através dele e parado do outro lado do mundo! Meu rubor de menina envergonhada ganhando um pito desses, o silêncio do Presidente aguardando minha resposta, meus batimentos cardíacos descompassados, a frase jogo de cintura martelando minha cabeça fez minha boca disparar rapidamente:
- Pode deixar. Vou me matricular, hoje mesmo, numa academia e fazer aulas de lambada!
Ele me olha - pasmo - por segundos, sorri e levantando de sua cadeira presidencial, despediu-se de mim com um enérgico aperto de mãos.
Quando voltei a mim pensei que, mediante tal disparate, havia surtado e deveria de imediato procurar um colega para após narrar o episódio, ser avaliada e medicada.
De onde tirei uma resposta dessas??? Agora ele só vai aguardar alguns dias, marcar nova reunião, agradecer e dispensar essa dançarina sem jogo de cintura. DANCEI sem direito a música.
Isso não aconteceu. Graças a algo ou alguém que até hoje não sei... Será que foi o tal desejo???
Passado um ano desse episódio e no final de 1995, numa reunião de "balanço" do que tínhamos feito, o quanto avançou, os projetos para o ano seguinte, na hora de se despedir de cada uma de nós - com aqueles votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo - eu, a última da fila para receber o vigoroso aperto de mãos, ouço algo além dos votos:
- A Sra. está de parabéns. Depois gostaria do nome dessa academia para fazer algumas aulas também! Estou precisando.
Tem coisas que nem Freud explica...Simplesmente vive-se!(RR)
Esse vídeo, feito por estudantes de psicologia, é uma amostra do que vivemos dentro de um hospital.

27 comentários:

  1. Fantástico! Esse presidente entendeu direitinho a leveza com que você lidou com o impacto. Todo mundo gosta de bom humor, meu bem! E você encontrou a medida necessária depois daquele momento, e que lhe vale até hoje, na vida. Beijinhos, Rêzinha do coração. Angelinha

    ResponderExcluir
  2. Olá, Regina!
    Tão importante quanto remédios e equipamentos, são os sentimentos. Pouco adianta conhecimentos, se não tivermos sentimentos, pra pormos em prática tudo que aprendemos, de forma racional!
    Bjs!
    Rike.

    ResponderExcluir
  3. Rê, querida,
    Adorei sua postagem e o video também. Percebo que os médicos durante sua carreira acadêmica aprendem a se distanciar do paciente, talvez uma forma pragmática de exercer a medicina e ver o paciente como um simples conjunto de orgãos doentes, digo isso porque convivo com um. Porém quando associado ao tratamento profiláctico existir um acompanhamento emocional, paciente/família creio que a cura ou a aceitação da não cura se estabeleça de uma forma mais serena e orientada. Admiro demais seu trabalho, sério mesmo. E com certeza psicologia está nos meus planos, é um sonho antigo.

    Quanto as aulas de lambada, que bom que ele gostou da sua cinturinha rebolante, hahahaha.

    Beijo enorme pra você

    ResponderExcluir
  4. Regina
    Vc me leva da gargalhada ao choro.
    O amor que brota da tua alma quer abraçar tudo e todos e aliviar a dor daqueles que sofrem.
    Admiro teu trabalho, tua garra, teu entusiasmo e teu jogo de cintura (com aula de lambada ou não).
    Como é bom saber que tem gente como você que faz a diferença.
    Gratidão

    ResponderExcluir
  5. Divagando sentadinha em uma sala de espera essa semana, me fiz uma pergunta?
    O que leva uma pessoa, um médico, de família abastada, humano e carinhoso, com um curriculum invejado, optar por trabalhar com pessoas carentes.
    Em um mundo tão prático e competitivo.
    Cheguei a conclusão.
    Missão amiga.
    Um ser de Luz.
    Pessoas Especiais fazem a diferença.
    Como é bom saber que existem Doutores Andrés, Reginas......
    Nem tudo está perdido.
    Se todos fossem iguais a você...
    Que maravilha viver...
    Saúde e Paz.
    LINDA!!!!!!!!
    BJS.
    Wilma
    www.cancerdemamamulherdepeito@blogspot.com

    ResponderExcluir
  6. O bom seria se os médicos fossem seres com uma constituição diferente da nossa, imunes a algumas coisas, mas com profundo conhecimento dos nossos problemas físicos e mentais.
    Porém, eles são seres humanos como todo o mundo, e apesar de treinados e doutrinados para o desempenho de sua função, estão sujeitos aos mesmos problemas que seus pacientes.
    Para mim, ter "jogo de cintura" pode significar engolir coisas que nos parecem intragáveis!
    Como o objeto de trabalho do profissional de saúde é o ser humano, com toda a sua complexidade, qualquer desequilíbrio no seu comportamento pode ocasionar efeitos sobre seu paciente, às vezes já fragilizado pela própria condição de ser um paciente.
    Difícil para mim avaliar esse assunto, pois só conheço a visão do paciente!
    Mas, seu texto foi de ótimo nível, como sempre!
    Abraços!

    ResponderExcluir
  7. Este assunto é um assunto tão complexo neh amiga.
    A medicina tem que reformular tantos conceitos e atitudes.
    Bjos achocolatados

    ResponderExcluir
  8. Essa é a nossa RÊ, cada post uma linda surpresa!
    Adorei ler seu texto, perfeito.
    Beijossssssss minha lindaaaaaaaa

    ResponderExcluir
  9. É isso amiga Regina, há coisas que nem Freud explica... só vivendo-as para se entenderem...
    Gostei da tua reflexão.

    Um beijo e bom final de semana.

    ResponderExcluir
  10. Toda a explicação pressupõe o conhecimento do inexplicável, ou seja, do que seria mais interessante explicar ,gostei do ko.

    Beijinhos meus e bom fim de semana.

    ResponderExcluir
  11. Querida amiga, minha filha é enfermeira e está fazendo residência na Unifesp, fico feliz, quando ela chega e me diz: Mãe hoje cuidei de um senhorzinho na área de Nefrologia, chamei alguem para ajudar a levantá-lo, ajeitei-lhe a cabeça, ele me agradeceu muito e disse...Deus lhe pague....Além de ser médico ou enfermeiro, as pessoas devem agir com "amor", as vezes cura mais que o próprio medicamento. Mas existem profissionais tão ruíns, que não tem o menor respeito pelo ser humano. Adorei seu post. Tenha um lindo final de semana. Beijocas

    ResponderExcluir
  12. Ei Regina!
    Sabe que foi até engraçado? Mas você se saiu da situação como uma verdadeira lady, e mostrou jogo de cintura! No final o resultado foi um sucesso!
    Bom fim de semana!
    Gd beijo

    ResponderExcluir
  13. HAJA CRAÇÃO PRA LER SENTIR E VER TUDO ISSO!!!
    PRIMEIRO DOUTORA ANJA...SE MORASSE PERTO DE VOCE GOSARIA DE FREQUENTAR A MESMA ACADEMIA SRSRSR ....SEGUNDO PATCH ADAMS FOI O FILME MAIS INCRIVEL E VERDADEIRO QUE JA ASSISTI POR QUE ACREDITO COMO ELE...SER MEDICO NÃO É SO EVITAR A MORTE E SIM MELHORAR A VIDA DO PACIENTE...ENTRE OUTRAS COISAS PERGUNTAR O NOME DA PACIENTE...TER AMIZADE AFETO..E NÃO CHAMA LA DE A PACIENTE DO 102,PELO NUMERO DO QUARTO!!!VOCES QUE CUIDAM DESSA AREA TÃO DELICADA QUE É A AREA ENTRE A VIDA E A MORTE ..SÃO ANJOS DE VERDADE...VOCES QUANDO SÃO TREINADAS PARA ISSO E QUANDO TEM AMOR POR ISSO QUE FAZEM É UMA UNIÃO POR DEMAIS BENEFICA...NO AMBINETE QUE TRABALHAM..VOCES VIVEM RODEADAS DE GENTE A FLOR DA PELE DE NERVOS INSEGURANÇA E TRISTEZA..E UM OLHAR AMOROSO DE UMA ENFEREMEIRA OU PSCOLOGA OU ATE MESMO MEDICO E DIZER AVOVE QUANDO SEU FILHO ESTA ENTRE A VIDA E AMORTE COMO O MEU JA ESTEVE ..ESSE OLHAR DE AMOR DIZENDO!"""SEU FILHO VAI CONSEGUIR "" É UMA INJEÇÃO DE ANIMO QUE DÃO A NÓS...FICARIA AQUI FALANDO TUDO QUE ACHO DE UMA PROFISSÃO DESSAS...ENFERMEIROS MEDICOS PSIOLOGAS HOSPITALARES POR HORAS E SÓ SAIRIA ELOGIO E GRATIDÃO ...VOCE DOUTORA E REALMENTE UMA ANJA...DISSO EU TINHA CERTEZA...
    ETA VIDEO QUE ME FEZ DESIDRATAR ...VIU???
    BEIJOS

    OTILIA

    PARABENSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS SEJA SEMPRE ASSIM.....

    ResponderExcluir
  14. rsssssssssss....muito legal e cada uma que acontece,não? beijos,lindo fds,chica

    ResponderExcluir
  15. Talvez, Rê, o amor pelo teu trabalho - e pelo projeto - tenha se mostrado tão maior que, afiada e com humor, ele concluiu que a aceleração dele era bem diferente da tua...apostou pq sabia que ia ganhar uma parceira de peso, atitude e resultados. Jogo de cintura teve ele, né?...Ô hômi inteligente!...rsrs

    Aki ó...importa? lindo foi/é teu trabalho por tantos anos!
    Bjo de admiração, respeito e cumplicidade (essa área sempre me seduziu tb...)

    ResponderExcluir
  16. Olá Rê ! Estou a passar por aqui, cheio de pressa, só para te deixar um beijinho e desejar um Bom fim de semana.
    Sabes, é que ainda tenho que ir ao hipermercado e pode fazer-se tarde !
    ;))) Beijão !
    .

    ResponderExcluir
  17. Re... palavras sem intenção articulosas causam mais pasmo e simpatia... O mundo anda carente de gente de verdade, assim, como vc. Por isso sou sua fã. Apareça para colocarmos o papo em dia, prometo responder rápido...
    saudades
    Bjs

    ResponderExcluir
  18. Rêzininha...
    Liga naum.. Eu só sô um "órguinho" infrâmado carente duma tricotomia e isento de vasectomia...
    Pódi passa um pó pra tapá táio... e arremenda cum pedaço de carrêté de ponto farso... e tudo bem!

    Deusssssskiajude
    Tatto

    ResponderExcluir
  19. - A ética de Hipócrates nunca deveria ser esquecida. Nela está o ponto de equilíbrio entre o padecente e seu curador, seja para o corpo, seja para a alma.
    - E nada melhor que uma curadora de almas para nos dar essa lição.
    - Abraços, Rê!

    ResponderExcluir
  20. Minha amada, num sei falar munito não quando é dessas coisas serias ai, mas sei entender e achei lindão esse coração tão apaixonado pelo que faz..

    um beiJO e uma noite linda de paz..

    ResponderExcluir
  21. Rê, excelente post! A formação dos médicos estimula o distanciamento do paciente como forma de proteção.

    No caso do câncer, esta abordagem médica traz inúmeros prejuízos, pois as pessoas estão fragilizadas e o que o médico diz pode ser tomado como verdade e levar a minar a força interna do paciente.

    Por meio do nossos blogs, podemos ajudar as pessoas a entenderem isto e a procurar e buscar nelas mesmas a força necessária para superar os obstáculos.

    ResponderExcluir
  22. Você é meu orgulho, garota! Oxalá os médicos de todas as áreas fossem como tu, assim, cuidadosos, que se importassem, e não aqueles ice bergs que nos espiam como se não fôssemos nada.
    Saiba, afora todas as brincadeiras que a nossa amizade nos permite dizer, tenho muito orgulho de conhecer alguém como tu, que tenta fazer da vida do outro verdadeiramente algo melhor, menos sofrido.
    Obrigada por isso.

    E não acredite na Si, ela sempre nos abandona e demora a responder, tu bem sabe.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  23. Regina.

    Fui aposentado por laudo médico (F33/F41). A dor é como um câncer da alma.
    Em um hospital, imagino que o ambiente não seja favorável a um paciente deprimido. A terapia vem atenuar o que as drogas não resolvem.

    Os anjos divinos associaram-se a uma alma cheia de boa vontade.

    Bjos.

    ResponderExcluir
  24. Darling, me lembre da gente conversar sobre "hospitalização domiciliar" quando eu voltar.
    bjos bjos
    eidia
    www.oquevivipelomundo.blogspot.com

    ResponderExcluir
  25. Eu já tive muito em hospitais e vi tantas coisas que muitas vezes achava que estava em um hospício. Talvez exista o que você chama de humanização da saúde, pessoas como você, levantando essa bandeira, mas admito que sou muito pessimista com essa questão.

    Abraços,

    ResponderExcluir
  26. o parceiro foi inteligente...e eu te entendo Regina. A gente sempre acha que o disco tem que tocar na nossa rotação (coisa véia né rs) que os passos de todos devem ser do tamanho da nossa perna. E temos dificuldade em aceitar que o outro pode ser mais lerdinho, que não tem tempo, que tem outro ritmo e jeito de agir.

    e assim a humanidade briga pra criar 7 bilhoes de microuniversos. haja conflito.

    na sabedoria empregada por ambos, o resultado foi maravilhoso. sempre aprendendo...
    adorei seu post (bom, não que houvesse algum que eu não gostei, mas esse está especial, serve muito pra mim)

    bjs

    ResponderExcluir
  27. Achei esse blog pesquisando sobre Psicologia Hospitalar e achei seu relato - cheio de humanidade e valorizaçao ao ser humano - realmente emocionante.
    E queria deixar um outro blog que encontrei, sobre Psicologia Hospitalar tb, para quem possa se interessar em um curso sobre a área: http://www.vagassp.com/2011/02/16/curso-de-pos-graduacao-lato-sensu-em-psicologia-hospitalar-sp/

    Beijos

    ResponderExcluir

Passou por aqui? Deixa um recado. É tão bom saber se gostou, ou não...o que pensa, o que vc lembra...enfim, sua contribuição!

Ocorreu um erro neste gadget