“Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati ‘pra cortar a friagem’. Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso... esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco...”
O trecho é do livro “O cortiço”, clássico do naturalismo publicado pela primeira vez em 1890, quando o autor Aluísio Azevedo identificava na ‘parati’ um dos agentes de brasilidade – estado que tomou conta do imigrante português da história e que tem outros sintomas, como a infindável imaginação para dar nomes às coisas. No caso da aguardente de cana, de acordo com a sagacidade da região, ela pode atender pelos incompatíveis água-benta e água-de-briga; os psicanalíticos amansa-corno e meu consolo; os sinceros arrebenta-peito, engasga-gato, mato-bicho e quebra-goela; o simplesmente boa e o mais humilde boinha; os dissimulados dengosa, lindinha e sinhazinha; os assumidos danada, marvada e teimosa; os engajados esquenta-por-dentro e quebra-gelo; os indecifráveis assovio-de-cobra e sete-virtudes; ou o profético tome-juízo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Passou por aqui? Deixa um recado. É tão bom saber se gostou, ou não...o que pensa, o que vc lembra...enfim, sua contribuição!