Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

TEPT - FRAGMENTO DE CASUÍSTICA


Trabalho num hospital geral há quatorze anos. Desde formada sempre acreditei que seria possível, enquanto psicanalista, estender o atendimento a mais pessoas.
Freud em seu texto de 1918 “Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica” conclui dizendo de uma situação que pertenceria ao futuro: “... os senhores sabem que nossas atividades terapêuticas não têm alcance muito vasto... mesmo trabalhando muito, cada um pode dedicar-se, num ano, somente a um pequeno número de pacientes... as nossas necessidades de sobrevivência limitam o nosso trabalho às classes mais abastadas... é possível prever que mais cedo ou mais tarde, a consciência da sociedade despertará, e lembrar-se-á de que o pobre tem exatamente tanto direito a uma assistência à sua mente, quanto o tem agora, à ajuda oferecida pela cirurgia, e de que as neuroses ameaçam a saúde pública não menos que a tuberculose...”
Era uma segunda-feira, depois da semana de carnaval, quando recebi o telefonema do hospital dizendo que havia um pedido de interconsulta solicitado pela cirurgia geral, ortopedia e clínica médica. Não era o meu dia de plantão, mas como os outros membros da equipe não foram localizados e necessitavam com urgência da Psicologia, lá fui eu. Precisando da Psicologia... Estou numa instituição médica e, como tal, nossa inserção se fez e ainda se faz com muitas dificuldades. Pensei... o caso deve ser bem grave.
Cheguei ao andar e assim que me avistaram, parecia uma comitiva de boas vindas com uma fala aliviada de “que bom que você chegou!”, agitação, ansiedade e muita angústia. Nessa “comitiva” estavam médicos, residentes, enfermagem, diretoria e, só depois vim saber, representante da seguradora.
Acidente de ônibus ocorrido na noite de sábado, na estrada de Guarapari-BH, vários óbitos e algumas transferências de casos de Vitória para BH. R. era uma dessas. Estava muito machucada. Os médicos aguardavam, enquanto era possível, sua evolução para a necessidade ou não de levá-la para o bloco cirúrgico. Mas o motivo da minha presença lá e de tamanha comoção em toda a equipe era outra.
R. 34 anos, casada, seu marido também estava no ônibus, havia perdido sua filha de quatro anos no acidente de maneira muito chocante. Chocados estava também toda a equipe, que são pais, antes mesmo de serem profissionais treinados para vencer a morte. Pais, mães que não compreenderão, nunca, a subversão da ordem natural da vida. Enterrar um filho escancara um buraco na alma sem medição possível.
Todos falavam ao mesmo tempo e nem se lembravam que também sou mãe. Uma calma diferente tomou conta de mim e de uma forma inexplicável consegui organizar a equipe e me preparar para ir ao encontro de R.
Atendimento no hospital tem dessas coisas. São histórias que para muitos não passam de ficção. Mesmo com todos esses anos de trabalho não canso de me assombrar e nunca acostumar. Não há nada nos bancos da faculdade ou nos livros que nos prepare para um atendimento dessa natureza. Vou com o que tenho dentro de mim: nem mais nem menos.
Bato na porta, peço licença, entro e vejo uma jovem miúda, olhar perdido, paralisada no leito. Está acompanhada de sua mãe que me recebe com lágrimas. Lágrimas que, durante muito tempo, iria ver através dos olhos dos avós, tios, e amigos da pequena J.
Lágrimas que ainda escorrem, a qualquer hora ou lugar, nas faces de R. e E. - seus pais.
Aproximo do leito e pego, cuidadosamente, em sua mão. Meu sentimento era de que qualquer coisa, até mesmo um afago, poderia feri-la ainda mais. Apresento-me e um silêncio longo se faz. Ela não solta minha mão e depois de senti-la e perceber que R. de fato me enxergava disse:
- Não consigo imaginar o que você está sentindo, não existem imagens e nem palavras... A única coisa que posso lhe dizer é que, se você quiser, podemos tentar ajuntar todos esses cacos aí de dentro e construir algo. Vai ser no seu tempo, vai precisar de muito trabalho, coragem, e não tenho a mínima idéia de como faremos e em que resultará. Mas estou disposta a estar com você, lado a lado, nessa longa empreitada.
R. aperta minha mão e sinto pelas primeiras lágrimas jorradas, para mim, o tamanho de sua dor e da sua garra. Iniciamos assim nossa jornada. Jornada que já faz dois anos. Jornada nomeada de "Perdas, Danos e Superação".

5 comentários:

  1. To louca prá ler o ultimo post, mas tenho q sair correndo agora. Vou ler com calma à noite.
    bjins
    eidia

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  2. Setembro mes dos aniversários...a turma que bota prá quebrar nas férias e no carnaval, em setembro a meninada chega gritando. Inclusive eu...só até agora, já tive uns 12...haja!!!
    bjins
    eidia

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  3. Regis, c não acha que essa música do Skank, "Sutilmente" poderia ter como subtítulo: O Egoísta - ou Eu só quero me dar bem.
    Ou eu tô sendo muito severa? rsrrs
    bjins

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  4. Minina, vc não vai nem acreditar... Tá sendo nada sutilmente severa!!! "Mas quando eu estiver morto suplico que não me mate dentro de ti" cê acredita que ontem o Rab usou essa música prá falar dos nossos entes amados que já se foram??? E a gente é egoísta messsmo!!! Desejamos ser amados, atenção, carinho, mimos e afagos rsrsrs. Quem disser que é mentira ganha uma sessão 0800 rsrsrs Beijuuss n.c.

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  5. Sabe estou chorando pois minha vida também esta em cacos, minha filha morreu em um acidente de carro, realmente não existe ninguém que possa me dizer agora etsa na hora alguma coisa...não existe teoria, nem livros, existe sim é amor no coração de quem consiga te dar...
    Viver uma experiência desta nos ensina muitas coisas, nos decepcionamos, mas aprendemos que existem pessoas que nos ajudarma a fazer um novo quebra cabela de nossa vida...enfim cada história é muito particular.
    Hoje em ajudo algumas pessoas, muitas mães me procuram para saber como sobreviver e em digo que não existe mágica e sim um coração com um amor incondicional, infinito, um abraço de uma mãe chamada Lisette.

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