Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

CTI


 Quando entrei pela primeira vez no CTI do hospital fiquei chocada. Mesmo tendo me preparado tecnicamente, não há preparo psicológico, suficiente, para tudo que explode diante de nós. Local onde - a vida está por um fio e ligada a vários outros - tudo urge. 
Os sons dos aparelhos, a nudez dos corpos, o despojamento da história, cheiros, ações rápidas e precisas, dependência, fragilidade misturam-se, construindo um cenário mutante a cada segundo. Nunca me acostumei. Desse verbo não transformei em hábito. Mas foi através desse lugar, que pude assistir a mais inexplicável magia: vida e morte. De tudo que via acontecendo precisei buscar maior sustentação, respostas às inúmeras questões que a medicina não me respondia. Lembro de vários pacientes e familiares, mas especialmente de um – João – que foi o facilitador nessa minha busca.
Seu João estava a dois meses no CTI em coma. Eram feitos, diariamente, todos os procedimentos e manobras necessárias para o seu conforto. Paciente em coma não vê, não fala, não ouve, não sente. Será? Ficava na minha ignorância médica do termo, tentando compreender aquele corpo ali inerte mais morto do que vivo. Será? 
Um dia resolvi, por loucura própria, conversar com Seu João e fui seus olhos, ouvidos e boca. Chegava perto de sua cama, dava-lhe bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Contava-lhe o que tinha acontecido no dia anterior, perguntava-lhe para qual time de futebol torcia, partilhava meus problemas, ria de nossa prosa que era só minha. Não preciso dizer quantas vezes vi sorrisos de deboche dos colegas ou até mesmo o alerta médico de que “Regina ele não está te ouvindo, ele está em coma”! Não sei dizer o motivo que nada disso me deteve, mas minha insistência em conversar com Seu João fizeram os colegas se acostumarem com minha prosa solitária.
Um dia chego ao CTI e todos estão me olhando de um jeito muito esquisito mesmo. Fiquei com medo de ter feito alguma grande besteira. Será? O coordenador do local me chama e diz: 
- “Regina, Seu João quer te conhecer". Como assim me conhecer? 
- “Ele saiu do coma”!  E isso é possível?
Corri para perto de seu leito. Quando me viu, não precisei dizer meu nome como da primeira vez. Ouço sua voz ainda fraca me dizendo, emocionado, que era cruzeirense e essa seria nossa única diferença. Com olhos marejados em lágrimas me diz obrigada. Não proferi palavra sequer. Naquele silêncio, fiquei em coma ali parada, só lágrimas de emoção. Não, não foi nada fácil compreender essa “loucura”. Foi Seu João que me fez descobrir que quanto mais me permitia o confronto com a realidade da morte, mais profundamente me envolvia com a vida.
Foi por causa dele que descobri Dra. Elisabeth Kübler-Ross e com ela perceber que “Sobre a morte e o morrer” nada existe de loucura. Não fui queimada muito menos beatificada. Simplesmente passei a me sentir mais leve e mais à vontade, comigo mesma, nessa lida que é a vida.
A propósito... Seu João vai vivendo, muito bem obrigado, nesses últimos dezesseis anos.   

14 comentários:

  1. Menina que história maravilhosa! Você é muito especial,acreditou na sua intuião e coração e deu certo.Puxa vida, me emocionei com sua inesquecível experiência e vivência.Isso faz com que a vida sempre valha a pena né! ? Montão de bjs e abraços

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  2. Rê, olha isso que contas tão bem aqui é fantástico.
    Eu passei por algumas experências com familiares no instituto de oncologia, assisti revoltado com Deus a crianças com "cancro", tive a minha mãe em coma e actualmente em estado quase vegetativo, acredita ... sei como é. Nós que queremos bem a eles, falamos, brincamos, sempre na esperânça de que nos ouçam mas ... nunca sabemos ao certo,se nos ouvem, por isso foi muito invulgar isso que te aconteceu, foi mesmo maravilhoso sabes? Talvez "ele" lá em cima te saiba tal como eu ... uma pessoa muito especial.
    Bjs, fica bem.

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  3. Nossa minha amiga,,,a historia é de arrepiar, é interessante essa colocação da vida por um fio,,,,ou varios fios,,,passei por algo parecido ano passado com um irmão meu, o cti foi uma constante, aqueles dias sombrios de incerteza,,,de medo, mas o mais importante nessas horas, a pergunta,,,sair do coma é possivel? pra nós pobres mortais não, mas pra Deus Todo Poderoso é apenas mais um sopor de vida, linda a historia,,,e claro,,,passando pro lado leve da historia....um Cruzeirense não se entrega facilmente...."Tão combatido jamais vencido" como no hino...rs..rs...grande beijo pra ti amiga de Belô,,,,,tenha um lindo dia.

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  4. Mas que estória real mais linda, Rê !
    ... e com final tão feliz !!!
    Curiosa aquela tua dúvida sobre o que sente ou não uma pessoa em coma. Será que está mais morta que viva ?...
    Beijão
    .

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  5. Ah Rê,
    vc sempre me emocionando!
    Tb já tive meus dias no CTI, não internada, mas acompanhando um amigo. Eu, com autorização dos médicos, e a mãe do Cláudio(este é o nome dele) sempre iamos bater um papinho com ele, ler seus livros preferidos e (que ninguém me escute) cantar bem baixinho suas músicas preferidas.
    Quando ele saiu do coma acordou cantando bem fraquinho tb:
    "Mais um ano se passou
    E nem sequer ouvi falar seu nome, a lua e eu
    Caminhando pela estrada ..."

    Ele tb esta bem vivo nesses últimos 10 anos e me prometeu nunca mais andar de moto ( foi um acidente com a tal que levou o moçinho pro coma), mas não cumprir a promessa não, o danadinho.
    Ainda falta muito pra eu "me sentir mais leve e mais à vontade, comigo mesma, nessa lida que é a vida" mas a experiência foi muito marcante!
    Bjs minha querida amiga.

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  6. Olá, Regina!
    Sabes que sou fã confesso do seu jeito de contar estórias & histórias. Porém, sou mais fã ainda do seu jeito de sentí-las, com alma e coração!
    Bjs!
    Rike.

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  7. Regina

    Abracei você e o Sr. João mentalmente,me desculpe, mas apertei mesmo com muita força e vontade.
    Que história linda...

    Beijos
    Wilma
    www.cancerdemamamulherdepeito@blogspot.com

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  8. Que historia tan tierna Regina.
    Pues a mi me dicen que sí, que escuchan aunque estén en coma... y la prueba eres tú misma... y Sr. João.

    Gracias por compartir tan bella historia!

    Saludos argentinos,

    Sergio.

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  9. Licença, espere! Tenho que me recompor... Ai, Regina, tens o dom de emocionar, entre outras coisas. Que história mais linda, daria um belíssimo roteiro pra um filme.

    Sabe, quando meu pai sofreu o AVC, entrar no CTI para vê-lo foi talvez a pior experiência da minha vida. Quase não consegui me manter de pé, tentando não chorar pra que ele mesmo não estando totalmente consciente, percebesse meu sofrimento.

    Revi esse momento agora.

    Fico imensamente feliz pelo Seu João. Que bom que vcs tiveram um ao outro.
    Conseguiram!

    Bravíssimo, doutora!

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  10. Esta é uma história de vida, de vida autêntica e maravilhosa...Eu penso que até ao último batimento do coração, a vida está ali...e foi isso que entendeste e bem! Gostaria que muitos médicos lessem este teu depoimento sobre o que é viver...infelizmente não acontece sempre nos nossos hospitais, uma atitude como a tua...Emocionaste-me...sabias??
    Beijocas
    Graça

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  11. Olá RÊ!

    História mais linda e comovente, Apesar de nos contares como te sentiste com o "ressucitar" do Seu João, ainda assim é muito difícil imaginar o que realmente terás sentido, como se sentirá alguém em semelhante situação. Imagino que será como que um sentimento dum quase "Deus" perante tal "milagre", para além da enorme sensação de feilicidade pelo facto de o teres conseguido.O teu acreditar foi recompensado, e o que fizeste foi absolutamente extraordináio, foi muito lindo!

    Beijinhos Amigos.
    Vitor

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  12. Re, passei por uma experiência muito semelhante, e foi com minha avó. Ela passou 100 dias em uma UTI. Desses, 30 em coma. Os médicos sempre diziam que não retornaria mais. Um dia, em uma das visitas, enquanto fazia carinho em seus cabelos, e lhe contava que finalmente tinha xonseguido o emprego que tanto precisava, ela simplesmente abriu os olhos, olhou direto para mim e sorriu. Desse dia em diante ela ficou desperta. Seu quadro era muito grave e ela acabou partindo. Mas ter podido despedir dela, conversar ainda um pouco mais, foi uma felicidade que jamais vou esquecer.
    Acho que todos deveriam visitar, pelo menos uma vez na vida um lugar desses. Para repensar um pouco seus valores. Ela, que sempre foi uma mulher tão cheia de vaidade, naqueles 100 dias ficou ali, só com um lençol a cobri-la e nossa companhia diária, mas nos poucos minutos em que podíamos estar com ela. É mesmo uma enorme lição de vida.
    Obrigada por compartilhar conosco essa história tão bonita.
    Bjs

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  13. Elaine, corujinha, amada!
    Não sei bem se foi uma intuição...precisava trabalhar, me envolver com aquele "lugar" absolutamente diferente das 04 paredes do meu consultório e os instrumentos técnicos que possuia, naqueles tempos, não cabiam! Até hoje, e muitas expervivências bem "atípicas", tento buscar maior conhecimento...
    Beijuuss n.c.

    Urbano, amado!
    Especial, meu amigo, foram e são essas expervivências... E como diz não temos nenhuma garantia sobre a nossa vida e viver, que dirá sobre a morte e o morrer.
    Beijuuss n.c.

    Everson, poeta, amado!
    Sei bem do que me conta... Pude acolher muitos familiares com suas inseguranças, sofrimentos, angústias... mesmo que silenciosamente...pois não há palavras que deem conta desse real.
    Beijuuss n.c.

    Rui, amigo, amado!
    Se soubesse quantas questões ainda tenho...afff
    Beijuuss n.c.

    Fatinha, afinadora de minh'alma, amada!
    Seu amigo Cláudio relatou alguma vivência "diferente"? Lembra-se de algo "especial" enquanto esteve em coma? Se souber, pode me mandar um email contando?
    Beijuuss n.c.

    Rike, mininu-amado!
    Só quem enxerga com alma e ouve com o coração, como vc, é que lê dessa maneira minhas histórias.
    Beijuuss n.c.

    Wilma, guerreira, amada!
    Sentimos daqui a energia desse abraço. OBRIAGADA!!!
    Beijuuss n.c.

    Sérgio, amado!
    Sou eu que agradeço, sempre, a possibilidade de estar aqui dividindo com vocês minhas histórias...OBRIAGADA!!!
    Beijuuss n.c.

    Milene, minina-ternura, amada!
    São tantas (Graças a D'US) que dariam para fazer uma série... E saiba que eles sentem tudo mesmo... (nem me adianta perguntar como!)Não tem idéia como sou grata a cada um dos Joões que tive a benção de conviver!!!
    Beijuuss n.c.

    Graça, amada!
    Já houve mudanças nesses 16 anos ( Graças a D'US!),mas ainda precisamos evoluir muiiiito! Tenho esperanças...sempre!!!!
    Beijuuss n.c.

    Vitor, amigo, amado!
    Não, não me senti uma "Semi-Deusa"... me senti muiiiiito, absolutamente perdida! A angústia era GI-GAN-TES-CA, mas foi com ela que fui buscando mais conhecimento e a confirmação que não sabemos nada mesmo!
    Beijuuss n.c.

    Xará, amada!
    Ela precisava ouvir você tanto quanto vc ter esse "tempo" para se despedir dela... É, as "coisas" são assim: tudo a seu tempo!
    Beijuuss n.c.

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  14. na relidade sou academica de enfermagem estou no cti e na verdade também não me sentia bem avontade com toda aquela situação. mais pude observasr que parece pode ser impressãode que alguns pacientes em coma ouve agente sim! e isso é mágico só Deus mesmo! adorei e me emocionei com sua história!grande bj

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