Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

MINISTÉRIO DA RÊ ADVERTE....


ADVERTÊNCIAS:   Essa postagem só deve ser lida para maiores na VIDA! É longa. Pode causar efeitos colaterais.

Ainda me impressiono com a dificuldade que muitas pessoas enfrentam diante de um diagnóstico, adoecimento e morte. Vivi isso bem recentemente. 
Alguns familiares e amigos preferiram fingir que nada estava acontecendo comigo e escolhiam conversar sobre qualquer coisa, menos de que realmente importava. Outros se afastaram como se estivesse carregando a peste. Não os recrimino. É, de fato, assunto delicado.
Em nossa cultura, procuramos visualizar a morte como algo impessoal e distante, exultando com notícias sobre novos medicamentos e recursos terapêuticos para prolongar mais e mais a vida. Sonhamos com o elixir da eterna juventude. Porém, ainda que nos iludamos com a idéia da imortalidade neste mundo de impermanência, a morte será sempre nossa mestra e companheira, da concepção até seu abraço final.
Em vez de fingir que ela só existe para os outros, melhor assumir a realidade: para os outros, o “outro” somos nós mesmos. Também temos Tânatos – a morte, na mitologia grega – como nosso constante companheiro.
A respeitada revista inglesa - The Economist – produziu e publicou relatório sobre a habitabilidade (liveability) nos diversos países, sob o título “A qualidade da morte – avaliação dos cuidados no final da vida em redor do mundo”. 
Habitabilidade é palavra utilizada para definir as condições de vida da população de uma determinada região. Adivinha qual posição o Brasil ocupou? Vergonhosamente o penúltimo lugar!
Poucos sabem que o índice Qualidade de morte existe e faz parte da conhecida e alardeada Qualidade de vida. Ele se refere ao que ocorre a um enfermo em fase terminal de sua doença e à sua família. Afinal, nem todos morrem subitamente e a vida persiste até que se estabeleça a morte cerebral. E a família é parte essencial desse processo. 
A qualidade de morte é avaliada pelas respostas positivas ou negativas às questões: 
  • é proporcionado um grau satisfatório de conforto físico, psicológico e espiritual para o enfermo e seus familiares? 
  • Suas dores são aliviadas adequadamente? 
  • Sua necessidade de mobilização lhe é proporcionada de forma satisfatória? 
  • Seus questionamentos e os de sua família são respondidos com veracidade, respeito e clareza? 
  • Seus medos e suas angústias são acolhidos, assim como os de seus familiares, sendo respeitados e trabalhados por profissionais devidamente preparados?
  • Se em razoável estado de lucidez, os desejos do enfermo são atendidos, somente com restrições absolutamente incontornáveis? Nessa mesma condição de razoável lucidez, suas vontades são respeitadas por todos?
  • Se desejar, ele recebe a assistência espiritual de um ministro ou agente religioso, estritamente dentro de sua crença?
  • Se manifestar que já não quer receber tratamentos e procedimentos que lhe são desconfortáveis, às vezes, extremamente dolorosos e, sobretudo, sabidamente ineficazes ou com remotíssima possibilidade de trazer reais benefícios, seu desejo será respeitado pela equipe médica e pelos familiares?
Desde o início do meu trabalho num hospital geral hasteio a bandeira da dignidade para o nascer tanto quanto para morrer. De nada adianta aplaudirmos e repassarmos os inúmeros emails – recheados de imagens e espiritualidade - recebidos, se não construirmos nossa prática com aqueles bem próximos de nós. Pude praticar com minha mãe e recentemente com meu “papito”. E posso assegurar que minha(s) irmã(s),meus sobrinhos e eu estamos mais confortáveis em nossa saudade.(RR) 
“Observar a morte em paz de um ser humano faz-nos lembrar uma estrela cadente. É uma entre milhões de luzes do céu imenso, que cintila por um breve momento para desaparecer para sempre na noite sem fim. Ser terapeuta de um paciente que agoniza é conscientizar-se da singularidade de cada indivíduo neste oceano imenso da humanidade. É uma tomada de consciência de nossa finitude, de nosso limitado período de vida. Poucos dentre nós vivem além dos setenta anos; ainda assim, nesse curto espaço de tempo, muitos dentre nós criam e vive uma biografia única e nós mesmos tecemos a trama da história humana”. (Dra. Elisabeth Kübler-Ross).  


21 comentários:

  1. Achei tudo muito interessante. Realmente o fim da vida tb merece ser avaliado e considerado. E muito respeitado!

    temos tb que garantir um partir tranquilo aos que amamos, não pensar apenas no cuidado em vida. o momento do adeus com menos dor, sofrimento.

    gostei do post, valeu a reflexão!
    bom dia

    ResponderExcluir
  2. idem as palavras do Alexandre.
    Beijossss lindaaa

    ResponderExcluir
  3. Muito oportuno, Rê! Costumamos viver como se a morte não existisse e por isso não nos preparamos para ela e não exigimos o que nos é de direito. Por isso o Brasil ocupa tão vergonhoso lugar no ranking 'qualidade de morte'-até porque somos o país da 'eterna juventude', como se isso existisse... Exercitar esta compaixão, pelo menos com os nossos mais próximos, é o mínimo que podemos fazer por aqueles que dizemos amar. Preparar a passagem é fundamental para que ela ocorra de modo suave, sem medo, em paz. Muito boa postagem, amiga. Parabéns. Beijos

    ResponderExcluir
  4. Rê...ótimas colocações...ótima informação..afff..até nisso o Brasil tá quase "lá"??
    Quanto a cuidar de nossos doentinhos, nós tbem passamos por isso recentemente, ao cuidar do avô do meu marido...e me fez um bem enorme o pouco que eu pude fazer...

    beijos

    Loisane

    ResponderExcluir
  5. Rê,

    O Câncer ainda é um tabu em nossa sociedade. As pessoas preferem se afastar e tem medo de conversar com o paciente de câncer.

    É também uma vergonha para o nosso país estar em penúltimo lugar. A boa notícia é que existem outros países que se preocupam com isto e estão na nossa frente.

    Acho que os nossos blogs são uma ferramenta para podermos divulgar mais e desmistificar o câncer e o seu tratamento.

    Parabêns, excelente post

    ResponderExcluir
  6. Texto excelente Rê!
    Estou lendo o livro do Drauzio Varela Por um fio e realmente estou me inteirando muito deste assunto.
    Já leu? Livro maravilhoso!
    Bjs.

    ResponderExcluir
  7. Em suma. Não basta ter "sorte na vida" ; ela seria bem mais apetecida e merecida perto da morte !
    Qualidade na morte,... porque será um conceito tão desvalorizado nos dias de hoje ?
    Quantos pais de família são desviados para hospitais por simples comodidade nos cuidados paleativos e não por uma questão de vida ou de morte ?
    Choca-me o choro e a tristeza evidenciado por muitos familiares durante os funerais, sabe-se lá quantas vezes por remorsos, por só então sentirem a má qualidade da morte que lhes proporcionaram ?
    Era óptimo, Rê que este post fosse causador de muitos e eficazes efeitos colaterais !!!
    Beijão
    .
    .

    ResponderExcluir
  8. Ah, cofesso que tenho medo do fim da vida...

    Bjuxxxx

    ResponderExcluir
  9. A dignidade que você direciona à morte é louvável, Regina.

    A postagem é muito oportuna e mostra, talvez implicitamente, a naturalidade de todas as coisas.

    Bjos.

    http://www.vervida.blogspot.com
    Verde Vida

    ResponderExcluir
  10. Querida amiga, vivi essa experiência minha mãe e minha irmã faleceram no mesmo ano com intervalo de 3 meses, as duas de CA., e vi situações constrangedoras ao máximo, uma sobrinha da minha irmã (por parte do meu cunhado), não deixar minha irmã segurar a filha dela que tinha um ano. As pessoas precisam se conscientizar que CA não é contagioso, conversar sobre o assunto, e sempre com palavras de apoio, inclusive a família doente. Excelente post. Beijocas

    ResponderExcluir
  11. Olá RÊ!

    Cancro, continua ser um palavrão, feio, horroroso, carregado de imagens desagradáveis,e associado a sofrimento. Eu julgo que, nalguns casos, não falar dele abertamente com quem dele sofre resultará do constrangimento, desconforto que isso nos possa causar, e que nós receamos causar à pessoa com quem falamos.
    Pior do que morrer, é sofrer, e por isso lidamos tão mal com a morte, embora a saibamos uma parte da vida.
    Quanto ao poder morrer com dignidade, continua a ser, ainda hoje , ainda uma questão de dinheiro.Cuidados paliativos custam caro, e muitos países só agora começam a cuidar deste aspecto da saúde - tal como aqui em Portugal, tristemente.

    Tema oportuno, este.
    beijinhos amigos.
    Vitor

    ResponderExcluir
  12. Regina, amada!
    Fiquei fora do ar e volto cheia de saudade!!

    Vim, correndo, te visitar e ficar por dentro do que rola no divã e fiquei feliz demais ao ler que você está bem, que o ET era só um "ET de Varginha"!
    Que maravilha, amiga!!!!
    VIVA! A vida te espera!

    Depois de uma dase tão difícil tudo muda, né Rê?
    As flores são mais bonitas, o colorido do dia tem outros tons e a noite tem a magia da lua! Tudo se renova e tudo tem outro sentido com cheiro de novo e sabor de "quero mais..."

    Que Deus te abençoe com dias de muita LUZ e saúde para você ficar sempre perto dos amigos e familiares que te amam e precisam do teu sorriso.

    Receba meu abraço e o meu carinho...

    Lia
    Blog Reticências...

    ResponderExcluir
  13. - Regina, vc precisava estar no velório do meu pai (morreu de câncer)... Os oito filhos, com suas famílias, conversando e rindo com as lembranças boas que ele nos deixou... Até minha mãe (que tb já foi), deixava escapar um meio-sorriso quando relembrávamos alguns "causos" que a tocavam especialmente.
    - Numa capela próxima do mesmo cemitério, um outro velório trancorria num clima pesado, e alguns participantes olhavam-nos com ar de reprovação...
    - Quando chegar a minha vez, quero um velório bem festvo, como o do meu pai.
    - Abraços.

    ResponderExcluir
  14. Dá que pensar... mto bom te ler, legal!

    ResponderExcluir
  15. Re
    As coisas por aqui são devagar... O paciente de ca não tem os recursos disponíveis para sua cura, em muitos estados brasileiros não é feito o exame de imunohistoquímica para ver a origem do ca, pois o governo não disponibiliza a medicação. Isso tudo pelo Sus. Reconstituição da mama? Não é imediata, sem falar nas filas, vaga para a cirurgia. Fora o estigma que sofremos, parece uma brincadeira sabe. Muitos amigos nem querem falar sobre a sua dor, outros somem, mas graças à Deus muitos permanecem. Já li sobre muitos trabalhos sobre a assistência à pessoas em estado terminal. É um lindo trabalho! Muito bom seu post! Um abraço!

    ResponderExcluir
  16. Querida Rê, há cinco anos foi-me detectado um cancro,como deves calcular o mundo caíu-me em cima,"tipo só acontece aos outros."Então foi quando tomei consciência, que para se morrer ,também se tem que ter dignidade...Felizmente, tudo foi ultrapassado continuo vivo e recomendado...

    Beijinhos meus.

    ResponderExcluir
  17. Estou totalmente de acordo quando dizes:
    "De nada adianta aplaudirmos e repassarmos os inúmeros emails – recheados de imagens e espiritualidade - recebidos, se não construirmos nossa prática com aqueles bem próximos de nós."

    Se conseguirmos resolver o problema de alguém que está próximo, o mundo fica melhor!

    O teu post é lindo!

    Beijo,
    António

    ResponderExcluir
  18. Minha linda...

    seu texto está perfeito,concordo com com suas colocações e ponto de vista mas, apenas uma ressalva quanto ao comportamento das pessoas em relação a doenças ou problemas pessoais.
    Tenho fama de sempre colocar "panos quentes",mas é que procuro ver o outro lado de forma consessiva , justa e com o MEU olhar para o mesmo fato.
    Muitas vezes,as pessoas pensam estar sendo educadas ou delicadas não tocando no assunto, você me entende!
    Se quem está doente ou com algum problema se abre,como você fez aqui,temos a liberdade de demonstrar nossa preocupação , interesse e carinho porém,em casos onde o comportamento não é esse,nunca sabemos se estamos sendo participativos ou intrometidos,vê como não é tão simples!
    E por outro lado,tem pessoas que efetivamente não gostam de falar sobre suas doenças ou problemas,consideram massante sempre o mesmo tema em conversas com amigos e familiares,ou simplesmente por serem reservadas.

    Ai amiga,será que consegui me fazer entender,senão vou já pro Divã,rs.

    Fique com Deus e com meu carinho.

    Beijinho no coração.

    ResponderExcluir
  19. Rê, mais um texto perfeito!!
    Infelizmente é um assunto, como vc disse, que a maioria das pessoas evita.
    Mas o cuidado com quem se ama tem que estar presente em todos os momentos, até no da despedida.
    Beijo grande!!!!

    ResponderExcluir
  20. Re Ola td bem sou nova por aqui e gostaria de dizer que adorei seu cantinho amei a maneira como vc escreve...concordo com tudo que vc disse apesar de ser um assunto muito complexo como muitos ja disseram aqui creio que as pessoas se preparam para tudo nessa vida mesmo sem ter certeza do que poderá acontecer amanhã, menos se preparar para a única coisa que temos certeza é triste mas é a realidade e eu sou uma dessas pessoas que foge do assunto...Por medo de enfrentar que um dia irei passar por essa realidade...E quanto a doença infelizmente apesar de ser uma doença que assola a humanidade aos quatros ventos infelizmente aqui no Brasil percebemos que está totalmente despreparado para enfrentar as situações a que ela acomete ainda é um grande tabu para todos nóss espero que isso mude para o bem daquelas pessoas que passam por isso seja com ela ou com algum ente querido ...
    Um grande bj e aproveito para convida-la a conhecer meu cantinho tb http://nelmanogueira.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  21. REGINA, SOU UMA PESSOA QUE CRÊ NO ESPIRITUAL, E AO FALAR SOBRE A MORTE EM FORMA DE POEMA, NÃO QUERO APRESENTAR APENAS UM LADO TRISTE OU SOMBRIO INERENTE A TODO SER HUMANO. MAS A PREOCUPAÇÃO COM ESSAS QUESTÕES QUE TANTO ABORRECEM AS PESSOAS, PODERIA SER VISTA NÃO NO SENTIDO EM QUE TUDO TERMINA SEJA DE FORMA TRÁGICA OU DE FORMA NATURAL, NEM DEIXO DE SENTIR A DOR CAUSADA POR UMA PERDA, MAS SIMPLESMENTE ACREDITO NUM ESTÁGIO, EM QUE O ESPÍRITO ENTRA NUM OUTRO PLANO, QUE COM CERTEZA, O ETERNO, OU A PLENITUDE DIVINA, RESERVA PARA NÓS, E NESSE CENÁRIO CREIO NUM PROGRESSO PARA ALÉM DE NOSSO ENTENDIMENTO.

    UMA PASSAGEM QUE ME TOCOU PROFUNDAMENTE FOI A MORTE DA MÃE DE MINHA ESPOSA NO LEITO DE UM HOSPITAL, QUANDO NAQUELE MOMENTO, UM DIÁLOGO FOI TRAVADO ENTRE ELAS:

    - MÃE, A SENHORA QUER FICAR AQUI?
    - NÃO...
    - A SENHORA QUER IR PRA CASA?
    - NÃO...
    - PRA ONDE A SENHORA QUER IR?
    - PARA O CEMITÉRIO...

    NO DIA SEGUINTE A ESSE DIÁLOGO, DONA MARIA FALECEU.
    ALIÁS, ENTROU NUM OUTRO ESTÁGIO DA EVOLUÇÃO ESPIRITUAL... (PENSAMENTO MEU)
    MAS ACREDITO E TENHO PLENA CONCIÊNCIA, DE QUE ELA FOI ATENDIDA DENTRO DAQUELE "ÍNDICE DE QUALIDADE DE MORTE", POIS SUA APARÊNCIA POST MORTEM ERA ANGELICAL.
    BJS, E UM ABRAÇO.

    ResponderExcluir

Passou por aqui? Deixa um recado. É tão bom saber se gostou, ou não...o que pensa, o que vc lembra...enfim, sua contribuição!

Ocorreu um erro neste gadget