Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

CONTRASTE(s)

 
“Oposição entre coisas ou pessoas, uma das quais faz sobressair à outra.” Na arte: Diferença bem distinta entre as ações, o colorido e as posições das figuras.”
Nessa viagem teve também cavalo selado e como já fiquei mais rápida e boa de montaria  (rsrs) não perdi de jeito nenhum! Ouvi um recital de Violino e Contrabaixo que, com o nome que o batizaram, me fez pensar: Duo Contrasti. A peça originariamente composta por Rossini (1792-1868) é para violino e violoncelo, o que fez com que os musicistas a adaptassem. Antes abro um parêntesis baseado na lembrança das palavras da violinista búlgara que apresentou o programa e daquilo que fui aprendendo ao longo de minhas viagens pelo mundo dessa arte que tanto aprecio. 
O fundamento da orquestra sinfônica são as cordas. Elas próprias compreendem um conjunto musical e têm mais expressão e profundo impacto emocional do que qualquer seção da orquestra. São consideradas a infra-estrutura do conjunto. As cordas têm grandes vantagens sobre os outros instrumentos, pois enquanto os instrumentistas de sopro se cansam progressivamente e necessitam repor as energias, tendo os compositores de conceder-lhes pausas entre passagens extensas, os de corda são muitas vezes tratados como se o cansaço não pudesse atingi-los. Além disso, são capazes de exprimir emoções fortes e delicadas pela maneira como atacam as cordas com o arco.

O violino é o menor instrumento da família de cordas, possui o maior arco e é o mais agudo. O contrabaixo, por sua vez, tem o som mais grave, é o maior instrumento de cordas (devido ao seu enorme tamanho - cerca de dois metros de altura - o músico tem de tocá-lo em pé ou sentado em um banco alto) e possui o menor arco.
Menor e maior, grave e agudo. Com tantas diferenças assim seria possível uma conjugação somente entre os dois? Esse dueto produziria música harmônica para os ouvidos da alma? Um não sobrepujaria ao outro? Com essas questões ouvindo, agora, o Duetto para violino e contrabaixo de Rossini e observando uma folha - de outono – grande contendo uma pequena  nas mãos emocionadas de outro ouvinte - prossigo meus pensamentos.
Não estamos acostumados com o diferente. Estranhamos e até mesmo evitamos o contato com o desigual. Tentativas são feitas, regras algumas vezes burladas em nome do “excêntrico”.
O que difere fere aos padrões estabelecidos e aceitos nas diversas sociedades. E aqueles que o fazem são automaticamente excluídos.  Temas e termos foram sendo burilados ao longo do tempo para uma possível aceitação. Assim, minimizamos o peso na consciência e hipocritamente agimos e falamos com o tal “politicamente correto”.
Lembro-me das ditas “desquitadas” (melhor seria ter ficado viúva!), do “casal negro com branco” (que horror!), do “católico com judeu” (um absurdo!), de filhos “anormais” (Deus nos livre e guarde!), do rico casando-se com um pobre (interesseiro!), dos casais homossexuais (não teve o pulso forte do pai!), do jovem com o velho (não tem vergonha na cara!) e de tantas, inúmeras outras diferenças. Opostos só se atraem (sem choque e chocar) na física.
Mais que chocados, assustados se afastam do diferente fechando-se em redomas quase impenetráveis. Quase... Pois quando se permitem penetrar, sentem que, como a discrepância entre um violino e contrabaixo, é possível de se fazer duetos, adaptações, arranjos muito mais que harmônicos: VIDA EM FORMA DE POESIA! (RR)
OBS: Tentei encontrar algum dueto somente entre os tais instrumentos. Como não consegui deixo o primeiro movimento – Allegro – entre o contrabaixo e um celo. Poderão imaginar o que ouvi com a delicadeza do violino no lugar do celo.



24 comentários:

  1. Belísima postagem, minha querida Regina!
    Que linda maneira você encontrou para falar dos diferentes que se atraem e se juntam, podendo apresentar magníficos resultados...
    Gostei demais!
    Até porque aprendi.
    Grata, amiga!
    Mil beijos

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  2. Ré,suas postagens estão um banho de cultura, que gostoso vc unir seus bons momentos com tanta graça e amor para a gente! Adoro estar aqui, To Dentro!!!
    Bjs com carinho
    Lulu & Sol
    Apareça ...

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  3. Ói Rê !
    Este post fez-se recordar um fantástico programa na TV, há mais de 20 anos, não posso garantir se era conduzido por Leonard Bernstein.
    Ele apresentava uma orquestra e ensinava os efeitos de cada um dos vários instrumentos, mandava-os tocar um de cada vez, primeiro, seguindo a junção de 2 deles, depois de 3, 4, todos ...
    Fantástico programa que eu adorava e nunca mais vi nada do género !
    Quem não gostasse de música erudita, ficava a gostar !
    Bjs
    .

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  4. Linda postagem amiga, o violino é um instrumento muito gostoso de se ouvir...um grande beijo de bom dia pra ti.

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  5. Eita, Rê, nos dando lições marvilhosas sobre música erudita! Lindo o vídeo, que dá uma ideia bastante exata do que postou.
    Já quanto à alteridade e as diferenças... sei não. O preconceito e aintolerência ainda prevalecem, infelizmente. Conversava sobre isso ontem com um amigo do Cascata e ele me dizia que se tivesse escolha, escolheria não ser homossexual, tal a rejeição, velada às vezes, mas sempre presente. Um primor de postagem. Valeu! Beijos.
    Angela
    http://noticiasdacozinha.blogspot.com

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  6. Poucas pessoas conseguem unir as coisas como vc!!
    Teu ensinamento andou na amplitude das ideias, e estabelecer este paralelo é resultado de uma percepção "aguda", treinada pelos anos de prática clínica, em "maior" sintonia com o "grave" das diversidades, mas sem o "menor" pudor em juntar as simbologias, nos brinda com cultura, sensibilidade e maestria ao expor as ideias tão lindamente construídas.
    Que bom que muitos desses paradigmas ruíram, estilhaçados pelo vigor da vida que pediu passagem e se fez mais forte que as ideias encasteladas nas redomas culturais (?).
    Viver pode ser belo sim, e harmônico, e em forma de poesia perceber a vida é para poucos!!
    AMEI!!!
    Bjãozão, irmiga querida!

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  7. Olásss... Regina
    Sei bem do que estás falando, tenho uma garotinha gênio que me dá um "pusta" orgulho quando empunha sua flauta transversal e me faz viajar... rss
    Qto ao
    "Não estamos acostumados com o diferente. Estranhamos e até mesmo evitamos o contato com o desigual. Tentativas são feitas, regras algumas vezes burladas em nome do “excêntrico”."
    Sou uma espécie de excêntrico... nénão ? .. rsss
    Bejô
    Tatto

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  8. que maneira elegante vc encontrou para falar da nossa pequenez de compreensão, do preconceito e da mente fechada! gostei muito do texto, primoroso!
    bom dia

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  9. Adorei ler o que você nos presenteou hoje. É comoouvir um solo de violino. Espetacular!
    Bjs.

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  10. Quanta criatividade, Regina, usar instrumentos de uma orquestra clássica para ilustrar uma chamada sobre diferenças e preconceitos...
    Você é mesmo ótima com as letras e com a expressão de ideias!
    E ainda tem um gosto musical refinado...Ótimo artigo!
    Abraços!

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  11. Querida amiga, linda postagem, adoro violino é um instrumento mágico. Beijocas

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  12. Re adoro vir aqui e ver a riqueza de seus textos...obrigada por nos trazer tantas coisas lindasss ...

    Belissima postagem Parabéns

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  13. Querida e amada Re!
    Experiências de vida inesquecíveis, imagino!


    Vivências em Re...

    A escadaria e o muro pedra, musgo.
    onde se desenham emoções
    uma pequena cascata de ribeiro, ouvia
    sentido para os anj(u)s - seta
    Estátuas no feminino e acordes brincadeira
    que iam e vinham em perfeita sintonia...
    A folha grande que tem de frágil, pequenino.
    E uma memória selectiva que não acerta
    no que se fala sem pensar
    soa a forma sobranceira,
    tem resposta a relevar de douta minina... coração, a doar.
    E o resto são histórias num calice de vida
    que se fez, faz, que tu conheces
    e sabes... trás emoção... infinda
    e aí escreves, dás-te a viver
    de todas as formas... alegreto,
    alegro e presto
    Pequeno grande, alto, magro, forte
    sedoso, aspro, branco no preto
    em projecções cilíndricas
    que se renovam, provam e se aprovam.


    Beijos e kandandos meus a atravessar tanto mar...

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  14. Querida aluna,
    Estou maravilhada com seus lindos textos... Parabéns!!
    Saiba que o sorriso Botox prevaleceu em meu rosto a cada leitura feita.
    Agora, um exercício para a nossa memoria e para a nossa carne que está em constante adaptação...
    Triplo-joelho-joelho de ré-aranha- molinha.....rsrsrs
    Beijos
    Carol

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  15. Mas que coisa, heim? Belíssima analogia... Já ouvi tantas vezes na vida frases tipo 'ela é assim, mas'... mas o que? Me sentia um bichinho esquisito, anormal. Mas aos poucos fui me tornando um bichinho esquisito, anormal e feliz.

    Obriadaga, mil vezes.
    Beijos.

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  16. Kimbanda, feiticeiro, amado!
    Sabendo que estás com sua filhota, celebrando a vida, não poderia deixar de agradecer os comentários, poesias lindas, interpretações mais que perfeitas que aqui me presenteia. OBRIAGADA!!! Só você mesmo, poeta, artista sensível para escrever assim!
    Beijuuss n.c. do lado de cá do Atlântico

    Carolzinha, fêssora amada, minha máquina de moer carnes, banhas e afins super eficiente!
    Acha que escapará desses dedos que lhe escreve??? (Ai meu PAI, vai que amanhã ela dá aeróbica dedal???!!!rsrs)Dá só um tempinho prá recuperação da carne "em constante adaptação"...
    Beijuuss triplo, aranha, molinha n.c. (não de ré e sim da Rê!) Inté manhã...

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  17. Olá, RÊ!

    Gostosa de ler esta incursão pelo reino da música; dos constrastes e difernças entre instrumentos,o "improvável" diálogo entre alguns deles, à semelhança do que acontece com as pessoas:O nobre violino acompanhado pelo seu parente "pobre" que é violoncelo, mas que, curiosamente, o é cada vez menos - sobretudo quando nas mãos da pessoa certa,tal com Pablo Casals, que fez dele intrumento solista.
    Como gosto muito de música, e porque esta peça está muito bem tocada, o meu aplauso para a solista ... da escrita.

    Beijinhos amigos.
    Vitor

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  18. É sempre um prazer ler seus textos. São lições!

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  19. Quando não sabemos lidar com a diferença estamos perdendo a oportunidade de nos transformar em pessoas melhores!
    Beijos minha linda!

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  20. - Nas sinfonias, há geralmente um momento em que um único instrumento assume o papel de solista. E você, Regina, quando assume esse papel na nossa pequena orquestra, faz-nos esquecer algumas passagens desafinadas e, ao final do seu lindo solo, deixa um acorde que convida a orquestra a prosseguir na sinfonia, com todos os instrumentos integrados em harmonia - não apesar das diferenças, mas justamente por causa delas. Parabéns!

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  21. Rê,

    Eu admiro tanto, tanto, tanto, quem faz música, quem toca um instrumento, quem faz essas maravilhas com a música! Você nem imagina. Porque não imagino a minha vida sem música. Em casa, meu pai era músico "vagabundo", tocava de ouvido, sabe? Era impressionante, um autodidata. Minha mãe havia feito piano clássico, aquelas coisas, estudou piano sete ou oito anos. E, num dado momento, um ensinava o outro. Era um barato. Minha mãe ensinava ao meu pai a técnica e meu pai ensinava minha mãe a ouvir... Era lindo de se ver os dois sentados ao piano.
    Cada qual à sua maneira, como o contrabaixo e o violoncelo ou violino, que você citou. Um penetrava o outro, aconchegava-se ao outro. São dessas coisas mágicas que mais tenho saudade na minha vida.
    Obrigada por me fazer lembrar

    Beijos

    Carla

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  22. Olá, Regina!
    Olha, agora além de "playboy" é erudita! Chic, kkkk!!!
    Bjs!
    Rike.

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