Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

sábado, 6 de março de 2010

MEU LADO MULHER

"Meu lado mulher se incomoda em receber mensagens apenas um dia por ano (8 de março), enquanto que meu lado homem se enche com 364 dias. Talvez seja necessária esta efeméride, dor recente de uma antiga cicatriz. Porque se vive numa sociedade machista: matrimônio, o cuidado do lar; patrimônio, o domínio sobre os bens.
O marido possui o carro, a casa e a mulher, que inclusive, em alguns países, incorpora o sobrenome da família dele. Ele exige que limpe a casa todo dia. Manda o carro para a oficina ao menor defeito. À mulher, ser multifacetado, cabe o dever de cuidar da casa, dos filhos, das compras e do bom humor do marido, que nem sempre se lembra de cuidar dela.
Meu lado mulher nunca viu o marido gritar com o carro, ameaçá-lo ou agredi-lo. Enquanto nem ela é sempre tratada com tanto respeito. Na Igreja Católica os homens têm acesso aos sete sacramentos. Podem até ser ordenados sacerdotes e, mais adiante, obter dispensa do ministério e contrair matrimônio.
As mulheres, consideradas pela teologia vaticana um ser naturalmente inferior, só têm acesso a seis sacramentos. Não podem receber a ordenação sacerdotal, mesmo tendo merecido de Jesus o útero que o engendrou; o seguimento de Joana, de Susana e da mãe dos filhos de Zebedeu; a defesa da mulher adúltera; o perdão da samaritana; a amizade de Madalena, primeira testemunha da sua ressurreição.
Meu lado mulher tem pavor da violência doméstica; do pai que assedia a filha, enviando-a a perdição da prostituição; do patrão que exige favores sexuais de sua funcionária; do marido que levanta a mão para profanar o ser que deu a luz a seus filhos.
Diante do televisor ou de um molho de revistas meu lado mulher se estremece: Cala a boca, Magda! Ela é burra, a imbecil que move as cadeiras no fundo do cenário, se mete na banheira do Gugu, se expõe na casa do brother, se associa à publicidade de cervejas e carros, como um adereço a mais de consumo.
Meu lado mulher trata de resistir diante do implacável jogo da desconstrução do feminino: tortura do corpo em academias de ginástica, anorexia para manter-se esbelta, vergonha das gorduras, das rugas e da velhice, entrega ao bisturi para que amolde a carne ao gosto da clientela da carnificina virtual, o silicone para ressaltar protuberâncias. E manter a boca fechada, até que haja no mercado um chip transmissor automático de cultura e inteligência que se possa enxertar no cérebro. E engolir antidepressivos para tratar de encobrir o buraco no espírito, vazio de sentido, ideais e utopia.
Meu lado mulher se esforça por se livrar do modelo emancipatório que adota, como paradigma, meu lado homem. Será que ela tenta não querer ser como ele. Navega em mares nunca dantes navegados, rumo ao continente feminino, onde as relações de gênero serão de alteridade, porque o diferente não se fará divergente. Aquilo que é só terá plenitude em interação com seu contrário. Como acontece em todo verdadeiro amor." (Frei Betto)

6 comentários:

  1. Chérie, boa tarde.
    Nunca gostei desse tipo de comemoração. Dia da Criança, dia da Sogra, dia da Mulher etc, etc.
    Todos os dias são de todos nós. Para particularizar cada um, tem os aniversários.
    Passei alguma dificuldade com minha Netinha, que aguardava insistentemente um presente meu no Dia da Criança. Pelo amor que tenho a ela(o maior que já senti), acabei cedendo.
    Mas especificamente o que mais me revolta é o Dia da Mulher. Não é possível que uma companheira que luta no dia-a-dia ao nosso lado, tenha um mixuruca de um dia para ser homenageada.
    Mas uma mudança nisto vai demorar algumas gerações, inclusive com as próprias se valorizando mais, não se expondo como mercadorias nos BBBs da vida.
    Nossos olhos não enxergarão essas mudanças, mas creio que virão algum dia.
    Bjs.

    ResponderExcluir
  2. Todos os dias são dias de alguém.
    Todos os dias são nossos e graças a Deus que são das mulheres, dos homens, dos filhos e daqueles que não tem ninguém.
    A mulher é mais mulher, quando é diplomata e sabe valorizar o que faz.
    Todos nós temos as duas facetas e se não nos valorizamos ninguém nos dá valor.
    A mulher não é inferior (pelo menos aqui em casa) se souber ocupar o seu lugar na sociedade.
    Poderia continuar mas isso nada adianta.
    Devemos trabalhar esta sociedade para a igualdade das mulheres e tudo que merecem

    ResponderExcluir
  3. Em Portugal era obrigatório ficar com o nome da família do marido, hoje já assim não é, a escolha existe em ambos os sentidos.

    No nosso anterior Código Civil, a mulher estava sujeita a poder correctivo do marido e seus pertences dele eram.

    A sociedade felizmente tem mudado mas estamos longe de atingir um caminho aceitável.

    Tenho estado a hesitar se vou dar importância especial ao dia da Mulher, e penso que não o vou fazer, ou se escrever algo será no sentido diferente.

    Não há nada aos olhos de Deus, da lei, ou do género humano que faça da Mulher algo de inferior. Se devemos continuar a lutar contra a ignorância e os crimes contra o sexo feminino devemos fazer a cada dia e nunca tão só num dia por ano.

    Tens uma grande e bonita voz querida Regina, usa-a sempre…


    PS – Amanhã vou encerrar a semana de Portugal e ainda que o texto não esteja criado, vou te deixar o desafio de comentares sobre a vossa versão da história… como um final não tem sempre que ser feliz aceitarei as consequências, tem um grande fim-de-semana.

    ResponderExcluir
  4. Olá Ré, amiga.
    Completamente em sintonia com o texto.
    Infelizmente não é vulgar assistir a algo que poderia representar a diferença pela positiva, tão simples como nos relacionar-mos como pessoas, independentemente do sexo.
    Kandando a atravessar tanto mar...

    ResponderExcluir
  5. Oie Amada!

    Adorei sua visita e seu comentário no meu blog!

    Imagina se eu ia te esquecer...nunca!
    Tô dentro...sempre, viu?

    Adorei o texto, amiga!
    Infelizmente ainda há muito por lutar para que as mulheres sejam respeitadas!

    Cabe à nos, continuar caminhando...sem nunca descer do salto né?

    Beijos e mais beijos

    Lia♥


    liaks25.blogspot.com

    ResponderExcluir
  6. JC,amado!
    Num gosto tb naummmm...gosto de ser lembrada, mimada, no inesperado do dia-a-dia e aí, tenha certeza, não esqueço daquele carinho recebido "nem que a vaca tussa" rsrs.
    Beijuuss n.c.

    Falô e disse Luis, amado!
    Beijuuss n.c.

    Sam, amado! Bom dimaiiisss vê-lo aqui no meu cantinho...Os tempos mudam rapidamente, mas alguns preconceitos e atitudes ocorrem como se estivéssemos na idade da pedra!
    Beijuuss n.c.

    Kimbanda, amado!
    Conhece aquele ditado que diz: se posso complicar porque vou simplificar? O povo gosta de manter uma polêmica e insistir com padrões e atitudes da época da minha avó! Mas a gente continua a luta, né?
    Beijuuss n.c. do lado de cá do Atlântico sem escalas

    Lia, amada!
    Que bom que veio me visitar! YESSSSSSSS! É isso aí, lutar, lutar e lutar mas "jamais perder a ternura" (e em cima do salto fica muito mais chic, né?rsrs
    Beijuuss n.c.

    ResponderExcluir

Passou por aqui? Deixa um recado. É tão bom saber se gostou, ou não...o que pensa, o que vc lembra...enfim, sua contribuição!

Ocorreu um erro neste gadget