Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

AFETO QUE NÃO ENGANA: ANGÚSTIA


      “A obra de arte é o resultado feliz de uma angústia contínua.” 
                                     (Carlos Drummond de Andrade)
Nesse exato instante em que me proponho a escrever o tema “a angústia”, a simples falta de uma definição clara quanto ao modo de abordá-lo já confere à minha tentativa a tonalidade de uma experiência angustiante. Como introduzir a angústia? Pergunto-me, angustiada, nesse momento.
Seja como for, o angustiante estado de errância, em que ora me encontro, faz-me notar que a angústia atesta uma exigência que nosso funcionamento psíquico impõe de localizar aquilo com o qual temos que nos haver.
Penso, de qualquer forma, que a maioria das pessoas já se viu, ao menos uma vez na vida, em uma daquelas situações de angústia que nos levam a puxar os cabelos ou a morder os lábios, em um esforço ora mais ou menos desesperado de localizar, na superfície do corpo, o mal-estar que não se consegue determinar.
Qual a sua aplicação em nossa contemporaneidade, em que ela aparece de maneira quase epidêmica, sob a forma de múltiplas fobias, depressões ansiogênicas, a angústia da criança insuportável?
Na atualidade, ela é cada vez mais medicada. Lacan nos ensinou que a angústia é um afeto que não engana e não se deixa capturar pelos discursos. Contudo, assistimos, em nosso tempo, a uma tentativa de reduzir a angústia a um déficit de adaptação do corpo ou a um erro cognitivo da capacidade de juízo. Assim, busca-se eliminar a angústia confundindo-a, muitas vezes, com a fobia, a chamada síndrome do pânico e a depressão.
Miller nos propõe que devemos passar sem a angústia que fracassa e que faz fracassar, mas com a condição de nos servir dela. De nos servir do objeto que ela produz como de um instrumento próprio. Nossa política não é a do apagamento da angústia, mas do seu bom uso. Isso significa colocar a causa como ponto central em nossa experiência que busca fazer saber. A presença e o tato do analista é que permitirão ao sujeito uma nova regulação do encontro com o real que a angústia testemunha.
Marcar a diferença entre a concepção da dimensão da angústia e não pretender nem avaliá-la, nem convertê-la em um transtorno, ou ainda, tentar curá-la são esforços que empreendemos no divã nosso de cada dia.
Se quisermos interrogar em que sentido a angústia, enquanto afeto que não engana, nos serve como índice de certeza a orientar nossa experiência, cabe antes avaliar a natureza daquilo que ela sinaliza. Para tanto, não basta somente repetir com Freud que a angústia sinaliza a emergência de uma exigência pulsional não admitida pelo eu. É preciso definir a forma que toma a emergência dessa dimensão sinalizada pela angústia, assim como os efeitos que ela produz sobre o sujeito.
Para a psicanálise, todavia, a angústia, embora certa, ainda é uma proteção, um sinal, uma expectativa. O que interessa para a psicanálise é evidenciar, a partir da angústia, o que ela ao mesmo tempo esconde e sinaliza: a Hilflosigkeit, designada por Freud como condição estrutural do desamparo humano, inicialmente ligado à sua prematuridade específica e posteriormente perpetuado pela incidência desarmônica do desejo do Outro sobre o sujeito.
Se a angústia é justamente o afeto que sinaliza a proximidade dessa falha como lugar sem relação, a psicanálise por ela se orienta para conduzir o sujeito ao ponto de impasse em que se produz a imposição do ato de escolher.  Faça sua escolha!(RR)
(Imagem: Tela de Mirtilo Gomes)

25 comentários:

  1. MAS A ANGUSTIA QUE TAMBEM CHAMO DE AMARGURAMENTO DO CORAÇÃO...NÃO PEDE PRA ENTRAR OU NÃO ELA SIMPLESMENTE SE ALOJA NÃO DISSE A QUE VEIO E NEM POR QUE VEIO..ELA AMARGA O GOSTO DA BOCA...AUMENTA A BATIDA DO CORAÇÃO..AUMENTA O VOLUME DE AGUA NOS OLHOS E AUMENTA TAMBEM A VONTADE DE NÃO FAZER NADA?DETECTAR EU BEM QUE SEI NÃO SEI É ME ESQUIVAR DELA..SEMPRE ESSA AGUNSTIA OU AMARGURAMENTO DE CORAÇÃO ME ABATE E EU LUTO CONTRA ISSO HA MUITO TEMPO..JA TOMEI VARIOS MEDICAMENTOS JA QUIZ MUDAR DE ESTAÇÃO MAS HOJE ESTOU MAIS FORTE..MAS AMARGURADA IGUAL..POR CERTAS VEZES..
    QUERIA SENTIR ISSO NÃO...MAS INFLSIMENTE SINTO..MESMO AS VEZES QUERENDO SCOLHER NÃO SENTIR ..
    CONFUSA NÉ??MAS TO ASSIM ESSES DIAS AMARGURAMENTO DE CORAÇÃO.SEI LA...
    BEIJOS
    OTILIA

    ResponderExcluir
  2. Rêzina da Grória...
    Essa eu passo !! Vô fazê quenêm o Macaco.. Eu pulo !! rss ....Assuntamento "Big Head´s"

    Bejo do small head
    Tatto

    ResponderExcluir
  3. Re, my love[que quer dizer, minha loirinha em frances...rs]Estava aguardando esse teu post, e realmente, ansiedade, expectativas, acabam por provocar em nós um afetado sentir, chamado angústia, que pode encerrar outros sentimentos, sufocá-los.
    Preciso fazer minha escolha, logo.
    Beijos admirativos!

    ResponderExcluir
  4. Angustia é uma coisa que embola no peito,,,deixa a gente sufocado sem saber o que fazer...beijos de bom dia pra ti querida.

    ResponderExcluir
  5. Olá Regina,

    Seu post me lembrou uma música (de sei-lá-quem): "Que angústia desesperada, minha fé parece cansada e nada, nada mais acalma"...

    Ainda bem que passa, né?

    Sempre te leio, apesar de, nem sempre comentar, viu?

    Grande beijo e obrigada pelo carinho com meu blog!

    http://omundoparachamardemeu.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  6. Angústia tbm pulo linda... Ando nos últimos dias andando lado a lado com ela, mas logo expulsa-la de casa...

    Bela postagem linda...

    Bjuxxxxxxxxxxxxx

    ResponderExcluir
  7. - Papo cabeça demais para um simples bruxo-poeta diletante. Mas sou abusado e vou dar meu pitaco: a angústia acontece quando não se sabe o que fazer frente a uma situação que demanda um finalmente. Ela deve evoluir para uma decisão ou causará algum transtorno que a doutora saberá explicar melhor.
    - Abraços, Rê... de um aluno esforçado e nem um pouco angustiado quanto ao fato de ter falado besteira ou não.

    ResponderExcluir
  8. ♫♪As cortinas transparentes não revelam
    O que é solitude, o que é solidão
    Um desejo violento bate sem querer
    Pânico, vertigem, obsessão ♫♪

    bjs

    ResponderExcluir
  9. Rê, estou aqui angustiado por não saber como comentar essa sua análise tão profunda e técnica sobre a angústia!
    Decididamente, está acima do meu alcance emitir conceito sobre coisas tão complexas.
    Mas, no entanto, volta e meia também sou acometido pela tal angústia, e parece que ela costuma andar de braços dados com sua velha amiga ansiedade!
    Abraços!

    ResponderExcluir
  10. Uma verdadeira aula! E uma grande reflexão.

    ResponderExcluir
  11. Olá querida e amada Rê!

    Que dizer, quando por vezes a ANGÚSTIA é "fogo" e a resolução está como naquele VIDRO delicado da caixa de EMERGÊNCIA anti-fogo, que precisa conhecer o momento certo para partir e aceder à ferramenta necessária para o DEBELAR.
    Sem se saber qual o momento certo para essa escolha, ela, a angústia, vai alastrando
    implacavelmente, tomando conta do individuo, se sobrepondo a tudo mais...

    Beijo e kandandos meus a atravessar tanto mar.

    ResponderExcluir
  12. Pra mim, são as expectativas as molas propulsoras das angústias - tanto as boas quanto as ruins. De qualquer modo, me arrisco dizer que a angústia é prima-irmã da ansiedade.
    E por falar nelas... Aquela angústia/ansiedade que eu sentia e que muito já me esganou o peito, hoje, graças a Deus, já está bem controlada.
    Beijocas!!

    ResponderExcluir
  13. Ei Regina,
    Acredito que uma pequena dose de angústia não faz mal a ninguém, pode até agir como uma mola propulsora da ação. O problema é o excesso e a permanência dela, que faz com que o indivíduo adoeça.
    Gd beijo

    ResponderExcluir
  14. Olá, New!
    Só você mesmo, pois a angústia me deixa analfabeto e mudo!
    Bjs!
    Rike.

    ResponderExcluir
  15. Já li, já li traves e o nó continua aqui...

    De angustia eu sei sentir, mas num sei falar..

    É que ela Dói! Sufoca...

    beiJO no Zóio Rezina amada...

    ResponderExcluir
  16. Cada um escolhe seu caminho, beijo Lisette.

    ResponderExcluir
  17. As angústias mais cerradas deixam sempre clareira alumiada por uma réstia de esperança ...

    Beijinhos meus.

    ResponderExcluir
  18. Amiga Regina!

    Não escolho, não sei como fazê-lo.
    Todos nós experimentamos a angústia; antes dum exame, na hora de casar, quando esperamos um resultado médico, sei lá... em inumeráveis circunstâncias.

    Não como fugir dessa "agitação" "mal estar", acontece e pronto.

    Gostei muito do texto, fez-me reflectir.

    Beijo

    ResponderExcluir
  19. Não sei o que é a angústia.
    Uma dor que faz sofrer mas muitas vezes não tem razão. Deixamo-nos embeber numa doença e não queremos a cura.

    ResponderExcluir
  20. Rê, penso que a medicação, num primeiro momento, é necessária para que a pessoa possa ter a calma necessária para retomar sua vida. Depois, terapia! Que ninguém merece ficar angustiado, nem tomando remédio a vida toda.
    A angústia, depois dessas providências, passa a ser não um sentimento permanente, mas apenas um sinalizador de que algo está precisando ser revisto e, talvez mudado. Foi assim comigo e aprendi a seguir os sinais. Muito boa esta postagem: lúcida e esclarecedora. Só podia ser você, minha amiga. Beijinhos, Angelinha

    ResponderExcluir
  21. Minha Rainha
    Vc não tá brincando em serviço!!! Ando angustiado com seu sumiço.Nos encontramos esse final de semana?!
    Beijão nocê
    A.Augusto

    ResponderExcluir
  22. Re
    Analisando as angústias que tive um dia, senti que estava esquecendo de me amar, fiquei sem chão e o medo tomou conta dos meus pensamentos e sentimentos.
    Agora, quando ela chega, sei que é hora de parar e olhar com um pouco mais de carinho para mim.
    Beijinhos

    ResponderExcluir
  23. Re,
    gostei muito do seu texto.
    Posso reclamar só um pouquinho?
    Sinto tanta falta sua lá em casa!!!
    Ocê me custumô mal... ou bem vai lá se saber.rsrsr
    E só para completar(pq eu não resisto) a música que a Dani Gomes falou é do Barão vermelho: Daqui por Diante.
    Bjs

    ResponderExcluir
  24. Angústia faz doer, faz chorar... E essa escolha eu não sei fazer de jeito nenhum!

    Mandou muito bem nessa sua, praticamente, tese. Mas o que esperar dessa imensidão de saber que é você, heim?

    Beijos imunes a quaisquer resquícios de angústia.

    ResponderExcluir
  25. Regina,

    A mim parece ser a angústia um algo muito ruim. Não sei se saberei me expressar ao certo, mas a angústia sempre me causa sensações e ocorrências e decorrências ruins. Um nervosismo antecipado das coisas, um desassossego, um não conseguir dormir pensando naquilo que se avizinha.... O exato contrário da tranquilidade...
    Tento fazer minhas escolhas. Nem sempre é fácil, mas eu as faço. Por mais difíceis que sejam.

    Um beijo

    Carla

    ResponderExcluir

Passou por aqui? Deixa um recado. É tão bom saber se gostou, ou não...o que pensa, o que vc lembra...enfim, sua contribuição!

Ocorreu um erro neste gadget