Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

TRANFORMAÇÕES PÓS FESTAS

                                                  (Imagem retirada daqui)
  
'O que te engorda não é o que você come entre o Natal e o Ano Novo, mas o que você come entre o Ano Novo e o Natal' (Solange Couto)

Fico pensando no pecado da gula e no exercício dele - com afinco e disciplina - nas comemorações de final de ano. Não preciso delas para exercitar meu pecado maior, isso já sabem. Adoro comer desde o mais simples, como um arroz bem feitinho, um ovo caipira frito, de gema mole a escorrer por cima, um tomate picadinho e bem temperadinho até pratos bem sofisticados. A harmonização deve ser a mesma - e só aceito variações de lugar e tempo - família e amigos, amados!
Esse sistema compulsório de engorda faz estragos. Nada que não possa ser reparado com a famosa promessa de segunda-feira eu começo ou depois que as festas passarem.
Escrevo sobre esse assunto, pois estou preocupada. Nesse final de ano fui comunicada - por uma amada da minha família - que ela se submeterá a uma cirurgia: sleeve gástrico. Quando uso o termo “comunicado” é porque sua decisão já foi tomada, como também os exames pré-operatórios iniciados e em conclusão. Não consigo mais com nenhuma dieta, estou deprimida, só quero ficar na cama, tenho vergonha de sair, efeito sanfona nos últimos cinco anos, IMC de 34 são os fatores que a levaram a tal decisão. Ela sabe que, durante muitos anos, trabalhei no GOTA (Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares) avaliando os candidatos - à cirurgia bariátrica - portadores de obesidade mórbida e acompanhando-os em grupos terapêuticos no pós-cirúrgico. 
Obesidade é uma doença crônica, que não escolhe sexo, idade ou classe social. Ela tem etiologias múltiplas: genética, sedentarismo, fenômenos psíquicos, comportamentais, culturais, sociais, econômicos e fatores demográficos, que influem também em sua manutenção. A doença, intimamente associada ao aumento de peso, figura como a terceira causa de mortalidade dos brasileiros, atrás de doenças cerebrovasculares (como derrame) ou do coração. Além de favorecer a diabetes, a obesidade também é considerada como fator de risco para alguns tipos de câncer - outra doença cujo índice de mortalidade aumentou 4% no País entre 1995 e 2007.

Da falta de amor à fome de amor? Poderíamos fazer, entre tantas outras, essa questão.
Em um momento muito primitivo do desenvolvimento o ser humano conhece de forma associada o alimento e a emoção. Neste início ainda tem poucos recursos, tanto físicos, como psíquicos, mas durante o desenvolvimento são feitas inúmeras aquisições e quanto mais amadurecido, maior deveria ser a condição de distinção e separação dos elementos: alimento e sentimentos. No entanto, de muitas formas, os alimentos acabam sendo associados às emoções. A comida é utilizada em rituais festivos:batizados, ritos de passagem, casamentos,  etc. São desenvolvidas receitas e “poções” capazes de “curar” do medo de pesadelos até doenças, ligando mais ainda a comida a momentos de prazer, de desprazer e de sobrevivência, fazendo com que ela participe do cotidiano, mesmo fora dos períodos de refeição. 
E parece ser justamente por meio da comida que o obeso procura, em um infrutífero esforço, saciar a fome de suas necessidades internas. A compreensão da obesidade como um sintoma de distúrbio emocional começou a ser discutida pela medicina, na França, no século XIX, ligando a obesidade a eventos e períodos de grande estresse emocional. Depois com as grandes Guerras Mundiais se observou que mulheres que passaram um período longo de incerteza ou vivenciaram a perda de seus entes queridos, tinham uma tendência a aumentar de peso, não explicada somente pelas questões calóricas. Nesta época, era comum o uso da palavra Kummerspeck, que quer dizer “gordo de tristeza”. 
O alimento é um objeto do mundo exterior, que é introduzido na tentativa de modificar o mundo interno. É possível fazer uma articulação com diferentes elementos, como: solidão, vulnerabilidade, dificuldades sexuais, necessidade de espaço e estresse. O comportamento alimentar é influenciado por diferentes aspectos da história pessoal. A atitude de comer pode remeter a um apelo para expressar uma fragilidade e a sensação de estarem desprovidas de recursos internos que lhes permita lidar com determinados fatos. A obesidade aparece, então, como uma pretensão de trazer para o concreto a tentativa psíquica de ser alguém “forte”.
A minha preocupação pode ou não ser pertinente. Aprendi que qualquer cirurgia que nos submetemos, eletiva ou não, simples ou complexa, É UMA CIRURGIA!!! Corremos riscos. Nunca fiz nenhuma que não fosse estritamente necessária.  Tenho respeito e admiro a coragem de todos aqueles que fazem sejam pela estética ou para a simples realização de um sonho “desejo”. Meu único alerta é que não podemos resolver problemas cirurgicamente. Como aprendi com meu eterno presidente (do hospital, que fique bem claro): primeiro tentamos soluções clínicas, só depois radicalizamos nas cirúrgicas! 
Devemos buscar quais são as condições emocionais, como ocorre a relação do indivíduo com a comida, seus recursos para lidar com limites internos e externos, ou expor sua agressividade e a capacidade de tolerar frustrações, entre outros. Temos que voltar nosso olhar para o humano e tentarmos encontrar suas verdadeiras demandas.(RR)
(Imagens: Arquivo Pessoal)

22 comentários:

  1. Ó eu aqui no "gargarejo"...

    Compartilho destas tuas colocações, linha por linha. Falar sobre transtornos, compulsões, comportamentos, não é fácil - para a maioria. Vc o fez com clareza e simplicidade, contribuindo, e muito, ao levantar estas questões - tão atuais e perigosas.

    2011 está trazendo inspiraçõess maraavilhosas pra vc, amigamada. Lindo de ver!
    Bjãozão

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  2. DeusssskiCuideeProteja....

    Concordo... com tudo... ou com nada!!! Quantos mininin OBESOS DE VERME nunca nem viu uma fotin dessa nénão?
    Quem me dera Eu mermo ter comido e OBESIFICADO... kkkkkkkkkkk
    Má Ce´t la vie, tutti quanti in questa maledêta vitta....
    Mas Dilminha vai dar borsa Pança e tudo se resolve..... hehehe

    Bejô Ingordativo
    Tatto

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  3. Eu sempre digo que o outro animal que mais se assemelha com o "homem" é o porco. Por essas e outras, hahahaha!
    Bj.

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  4. Rê, você falou uma grande verdade, que deveria ser bem divulgada para todos: uma cirurgia é uma cirurgia, e só deve ser feita em último caso!
    Acho que a maior parte desse problema está no cérebro, e isto ninguém vai operar, né?
    Mas, com essas fotos provocativas, você parece estar angariando mais pacientes para o GOTA!
    Já me deu fome!
    Sobrou algum tutu com aquela linguiçinha fina por aí?
    Estou carente!
    Abraços!

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  5. Oi Rê,
    Assunto sério e importantíssimo! Tá cheio de gente achando que cirurgia vai resolver o que está por trás da compulsão e o resultado são novos problemas.
    Parabéns por compartilhar um assunto que você tem tanta experiência. Nóis num é minerim, mais agradece!
    Beijo
    Bia

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  6. - Se me perguntam como como, eu respondo: - Como! Como como como, ora...
    - Dona moça, sua matéria tem, no texto, valor informatório e alertatório e nas imagens valor degustatório e provocatório - e como (como, mesmo) não tenho opinião formada, nem informada, nem desinformada sobre o assunto, abraço a sua.
    - Peraí que vou fazer uma boquinha e volto já...

    - Brincadeiras à parte, Regina: excelente texto! Parabéns!

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  7. Hei Rê isso é serio e como é serio...

    conheço problemas assim de perto.
    tem Fau que operou faz pouco e esta em recuperação
    na fase mais difícil...

    E eu já pesei quase 80 kls com 1.64 de altura pense ai??
    quem hoje me vê não acredita mais tenho fotos
    rsrs como prova do crime rsrs perdi mais de 20kls foi bom foi a tempo..
    engordei entre 16 e 18 anos.. foi um terror depressão e mais um monte de problemas, aos 19 foi como renascer com 58kls fazendo as pazes com a balança...

    beijO no Zóio....

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  8. Estou de volta e venho desejar um ano novo pleno de prosperidade ,paz e amor.

    Beijo.

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  9. REGINA...SÉRIO SEU POST E BEM VINDO JA QUE O EXAGERO FOI BRABOOO OR DEMAIS...SABE LA EM CASA TENHO UM EXEMPLO DE DETREMINAÇÃO..A RENATA MINHA IRMÃ MAIS NOVA QUE ESTA ATE NA BLOGOSFERA..WWW.RENATAPRETA.BLOGSPOT.COM ELA JA PESOU QUASE 100 KILOS E VESTIA MANEQUIM 48 ..ATE QUE UM DIA INDO A UM CASAMENTO COM MEUS PAIS UMA CALÇA JEANS DO MEU PAI 48 NÃO SERVIU A ELA E FOI DALI QUE SURGIU FORÇA E DETERMINAÇÃO...HOJE DEPOIS DO QUE FEZ NOS VIGILANTES DO PESO..A MENINA USA 38..É LINDA...E TEM A META DE COMER PRA VIVER E NÃO VIVER PRA COMER...TAMBEM SEMPRE SOFRI COM A BALANÇA MAS NUNCA QUE CHEGASSE A FAZER ESSA CIRURGIA QUE TENHO AMIGOS QUE FIZERAM ..E VOLTARAM TUDO DE NOVO O PESO ..POR QUE NÃO SEI COMO VOLTAM A ENGORDAR...SABE A GENTE VIVE MUITO INCOCIENTE FAZENDO UM SUICIDIO COM NOSSO CORPO ..VENDO AQUELE FILME NOSSO LAR E LENDO O LIVRO VI QUE NA VERDADE PELOS EXCESSOS SOMOS TODOS SUICIDAS DEUS ME LIVRE..EU COMI MUITO ESTE FINAL DE ANO..E QUERO DE ALGUM MODO MUDAR NESTE ANO..MAS ATE HOJE DIA 4 NÃO ME LIVREI DOS CONVITES PRA IR A JANTARES...FESTAS..CHURARSCO ..DESSA ESSE POVO VOLTAR PRA SUAS VIDAS QUEM SABE CONSIGO FECHAR ESSA BOCA...E MEU METABOLISMO SIMPLESMENTE RESOLVEU PARAR ...BEIJOS QUERIDA
    REFLEXÃO TIPICA DE ANJA ..CUIDANDO DE NÓS..
    OTILIA

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  10. Querida amiga, adorei a postagem, diante de tanta comida maravilhosa, esquecemos da dieta. Feliz 2011 Beijocas

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  11. Olá, Regina!
    Mas quem de nós consegue resistir? começamos com só um pedacinho disso, só mais um padacinho daquilo, um golinho daquilo outro e por aí vai!
    Bjs!
    Rike.

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  12. Amiga eu quando estou ansiosa como, como, como...Amo comer...Agora to de dieta.
    Engordei desde que sai das minas gerais, 4 k.
    Ô meu Deus como é dificil emagrecer...Ai que fome...
    Bjos achocolatados

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  13. Rê, muito oportuno você abordar um fantasma que assusta todo mundo, mas que só faz crescer: obesidade. A doideira maior é que isso é um fenômeno decorrente da suposta 'melhoria da qualidade de vida' de alguns segmentos. Antes se morria de falta, hoje se morre de excesso. Incoerente demais. Outro aspecto a ser considerado é o fato de as pessoas trabalharem desesperadamente para adquirirem, ainda mais desesperadamente, bens (ou males?) de consumo absolutamente inúteis, só porque possuem um significado/significante hipotético de felicidade (???) E aí ninguém cozinha mais, todo mundo come lixo, porcaritos e industrializados em geral, em nome da pressa, da praticidade e sei lá que mais!... Fora as compensações de tantas faltas, assunto do qual você, que é psicóloga, entende perfeitamente bem.
    Concordo plenamente que o que engorda é o que se come entre o Ano Novo e o Natal. Aí, perde-se, inclusive, o prazer de poder exagerar um pouco entre o Natal e o Ano Novo, porque o ganho é controlável e pode-se compensar.
    Escolhemos nossos males e nossas mazelas quando não prestamos atenção ao que estamos fazendo a nós mesmos.
    Postagem pra lá de inteligente! Beijos de uma amiga que se orgulha de você. Angelinha

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  14. Perfeito e elucidador. A gente emagrece ou engorda primeiro na mente. A gordura é proteção ou querer absorver todo o afeto com medo que acabe...Eu dobrei de tamanho e perdi toda a roupa em 2010.Sei bem o porque e já comecei a reverter isso. Como dia a música:" Você tem fome de quê?" É preciso encontrar a resposta logo para sanar de outra forma senão... Saúde é tudo! Adorei! Monte de bjs e abraços

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  15. Rê amada

    eu volto depois pra ler... a fome tá negra e eu só consigo olhar pras fotinhas...kkkkk

    beijocas

    Loisane

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  16. Mais do que um belo texto... uma grande lição!

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  17. Rê, já conheci pessoas que recorreram a cirurgia numa tentativa sofrega pelo emagrecimento. Uma delas dias após a intervenção foi para um churrasco e se empanturrou, resultado. Foi parar no CTI por dias e quase foi. Assim como ela várias pessoas entram nessa na esperança de poder comer de tudo e não engordar mais, pura ilusão. A questão emocional é de suma importância e as vezes a principal. Comer porque está feliz, triste, de TPM e tudo mais faz da comida um paliativo apenas. E quanto as comemorações de fim de ano o nome já diz :"COMEmoração". A de se ater aos hábitos..

    beijo querida !!

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  18. Boa noite Rê.
    Este assunto é muito importante. Engordar é fácil, mas emagrecer...
    As pessoas, como já foi escrito acima, submetem-se às cirurgias como se elas fossem mágicas, sem se ater aos problemas pessoais, psíquicos, emocionais, espirituais, etc, etc.
    Penso que se um candidato a essa operação conseguir ajustar seu lado emocional, o problema estará pertinho da solução, sem "entrar na faca".
    Como sempre, um belo e utilíssimo escrito.
    Bjs.

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  19. Hahaha!!
    Verdade, nunca pensei nisso que o que engorda é o que comemos durante o ano inteiro e culpamos as festas natalinas!! kkk
    Às vezes precisamos parar para analisar as coisas não? rs
    Ótima colocação.

    Um beijo querida!

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  20. Re, não tinha lido esse texto, mas qdo vc o mencionou no post seguinte a esse, vim aqui fazer as coisas na ordem que deveria ser, e voltei para lê-lo antes de prosseguir.
    Excelente!!!
    Eu mesma tenho uma amiga que ficou grávida, teve o bebê e não conseguia emagrecer. Ela tinha um histórico de efeito sanfona, mas nada que se assemelhasse mais remotamente à obesidade mórbida.
    Qual não foi meu total espanto quando ela anuncia que vai fazer a cirurgia bariátrica!!
    Não sei que médicos ela escolheu, não consigo imaginar os critérios que foram adotados, só sei que ela fez, com apenas 35 anos.
    Como você, sempre penso nessa cirurgia como a última das últimas tábuas de salvação. É um procedimento radical e agressivo.
    Não a solução mágica que muitos estão vendo.
    Parabéns pelo texto!!!!
    Beijão

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  21. Tens razão e eu, como já fiz muiiiiiiiitas cirurgias necessárias e graves, não me submetop a qq outra que não seja estritamente necessária.

    Um beijo, tema complexo esse, né? chica

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  22. JC, amaaado!
    Sei que quando a agenda permite, vc investe um cadiquim de seu tempo com essa sua amiga...mas Rê/ver um comentário seu, aqui, me enche de alegria!!! Inda temos que tomar aquele cafezim, né não? E palpita mais...sinto sôdades docê por aqui tb!
    Beijuuss, amigo, n.c.

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