Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

CIÚME: QUEM NÃO TEM? FREUD NO COTIDIANO


Margarida, jovem na faixa dos vinte anos conta que está apaixonada e amando. Conheceu seu amor através de uma dessas redes sociais (Orkut, Face book, MSN) e como moram em cidades distantes, se “relacionam” através da telinha. Conta de seus planos para encontrá-lo pessoalmente, das inúmeras mensagens enviadas e recebidas, do carinho, preocupação com seu amado, como se ao lado dele ela estivesse. Numa última sessão chega brava, muito enciumada, questionando se valia a pena mesmo. Viu, num desses meios de comunicação, alguns recados deixados para ele por outras moças (não me perguntem como isso se dá, pois como já sabem, não entendo nada!) e ficou enciumadíssima. “Como é que pode Dra. Regina, eu sentir ciúmes de um cara que ainda nem vi pessoalmente? Devo estar ficando louca! Nunca tive ciúmes dos meus namorados e agora me sinto assim... P da vida”. Questionando-se...
Sem entrar na questão de “relacionamentos virtuais” fiquei com o significante ciúme. Quem de nós nunca sentiu esse incômodo afeto? E por favor, não confundam com inveja, que já até escrevi algo sobre ela aqui. O interesse pelo tema justifica-se, ainda, por ser um sentimento que permeia todo ser humano e todos os vínculos afetivos. Aparece nas relações conjugais, amorosas, rivalidades fraternais, profissionais e até nas relações sociais. Há pessoas que sentem ciúmes “daquilo que é meu, do que conquistei, do que comprei” me conta um técnico de uma concessionária quando lhe pergunto se é ciumento.
O ciúme é um sentimento normal no ser humano, é universal e inato, proveniente do desejo da exclusividade no amor de determinada pessoa.
A etimologia da palavra ciúme é originária do latim zelúmen ou, ainda, do grego zelosus. As suas origens remetem-se ao vocábulo zelos, o qual significa fervor, calor, ardor ou intenso desejo. No inglês, deu origem a palavra jealousy; no francês jalousie; no italiano geloso e, por último, celoso, no espanhol. Segundo o Dicionário de Psicologia (Abrangendo Terminologias de Ciências Correlatas/E.Dorin) é assim definido: “Estado emocional caracterizado pela ansiedade, sentimento de amor e desejo de obter a segurança e a ternura que uma segunda pessoa demonstra a uma terceira.” Muitos autores consideram o ciúme como uma espécie de temor, que se refere ao desejo que temos de conservar algum bem, variando apenas de acordo com o objeto de desejo. Existem pessoas que não conseguem expressar o ciúme, geralmente porque foram fortemente reprimidas na infância, por alguma circunstância. Demonstrar esse sentimento seria por em risco o afeto que lhes dedicavam. O ciúme é, muitas vezes, a manifestação caótica de elementos recalcados no inconsciente, que vão desde uma “louca” auto-estima, até um sentimento de culpa, passando por inúmeras possibilidades de transformação. O ciúme não se assume, ele se fere e se refugia, tendo uma lógica que é participar do inconsciente. Surgindo de diversas formas, há sempre em sua origem um sentimento de alguém se sentindo inferiorizado, desprezado, minimizado, excluído por outro alguém. É na incerteza e na insegurança, baseado apenas em suposições, que o ciúme se instala. O ciúme pode ser classificado em três categorias diferentes. Freud em seu texto “Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e na homossexualidade” define o ciúme como sendo um estado emocional, podendo ser descrito ou classificado como normal. A partir dessa definição, Freud afirma que se um sujeito aparentemente não possui ciúme, é porque este sofreu uma severa repressão e que devido a esse motivo, o ciúme desempenharia um grande papel na sua vida mental inconsciente. Nesse mesmo texto, Freud classifica o ciúme em três camadas ou em três graus, os quais são denominados de: o competitivo ou o normal, o projetado/neurótico e o delirante/paranóide. O primeiro pode ser explicado como um ciúme relacionado à concorrência com um rival, isto é, o medo de perder o objeto amado, o que denota uma ferida narcísica. Além disso, o ciúme, em alguns indivíduos, pode ser vivenciado de forma bissexual, mais especificamente, um homem não apenas irá sofrer devido ao amor que sente pela sua mulher, mas também nutrirá ódio pelo homem, seu rival. Por outro lado, poderá sentir pesar pelo homem, a quem ama inconscientemente, e odiar a sua mulher, pois irá considerá-la como uma rival. Esse último ponto pode ser adicionado à intensidade de seu ciúme. O segundo grau de ciúme que seria o projetado/neurótico significa que tendemos a projetar nossos próprios impulsos relacionados à infidelidade no nosso parceiro a quem, muitas vezes, juramos fidelidade. Está lastreado na vivência universal do triângulo edipiano; em suas implicações na competitividade que nasce no indivíduo ao ter que disputar o amor da mãe com o pai, ou, no caso das meninas, do pai com a mãe. O terceiro tipo denominado de delirante/paranóide teria como origem a homossexualidade negada, isto é, “Eu não o amo; é ela quem o ama!”. Destaca-se que no ciúme delirante encontram-se ciúmes pertinentes a todas as camadas mencionadas e nunca apenas à terceira. Um pequeno esclarecimento: “Paranóia: psicose caracterizada, sobretudo, por ilusões físicas. É um sistema delirante durável, com ilusões de perseguição e grandeza, originado na esquizofrenia paranóide. Os ressentimentos são profundos e o paranóico, geralmente, procura atacar aqueles que estiveram presentes em seus conflitos, muitas vezes, por inclusão na fantasia. O paranóico se caracteriza também pelo seu egocentrismo e, em muitos casos, por bom nível de inteligência e vivacidade mental.” Em sua forma mais maligna e delirante, o ciúme paranóide poderá descobrir as fantasias subjacentes, que são exatamente a própria infidelidade ou o objeto de desejo ser-lhe infiel. Para uma pessoa que padeça de ciúme delirante, que está dentro da forma clássica paranóide, o rival se torna alvo de toda parte ruim dessa pessoa.

Há ainda casos em que o ciúme se torna patológico, doentio, tornando-se uma obsessão descontrolada. Traz para quem o sente, sentimentos negativos, como o de perda, e para o objeto de seu ciúme, um sofrimento ainda maior. O ciúme é, pois, uma prova de perda; o próprio sujeito se perde do resto, pois, na identificação com o que ele acreditava ser o objeto do desejo do “outro”, algo vacila dentro de seu próprio ser. Essa identificação pode ser um bom modelo do “objeto amado”. Freud já afirmava que o ciúme se compõe essencialmente do “leito”, pela dor causada pelo objeto que achamos ter perdido, e pela humilhação narcísica. Enfim, o ciúme entra na relação vindo de fora, podendo ameaçar, desestruturar ou romper a relação amorosa quando está “tudo bem”, trazendo como conseqüência de um para o outro, a vingança, a traição, a morte, as questões de fidelidade, a inveja e a frigidez. Segundo Freud e Lacan, “... o sujeito só pode se amar através do OUTRO” – Outro fora EU. O ciumento não suporta a satisfação do outro, tampouco seu gozo. Procura e quer tudo. Procura privar o outro daquilo de que ele goza. Em outras palavras, o ciumento tende para o narcisismo total e absoluto. Sem falhas. Ele nega o significante da falta do outro. O ciumento duvida da possibilidade do “todo - ter”, a saber, ainda que tenhamos um relacionamento, ele ou ela nunca será todo-nosso. Os ciúmes são sintomas que não podemos, de modo algum, camuflar em uma cura. Não devemos ignorá-los. Eles correspondem a um desconhecimento da falta fundamental, a ausência de defesa contra esta falta. Então, tenho que trabalhar com minha paciente, questão bem anterior à sua paixão/amor: seu (des) conhecimento enquanto ser faltante... Que nada, nem ninguém, “preencherá” essa falta fundante em todos nós.



10 comentários:

  1. Primeiro: que foto mais lindinha!!! Depois a surpresa: achei que era obra de ficção, mas a moça é sua cliente. Terceiro: lamentável!!! As pessoas não se encontram mais, não se tocam, não dão mais beijo na boca, amassos, não fazem sexo, vivem uma relação de ilusão - e solidão fantasiosa! E ainda têm ciúme... Dá pra entender? Sentimento mais destrutivo esse! Um pouquinho só é 'zelo' (desculpa esfarrapada...kkkkk)Agora, em exagero é tudo o que você, profissional competente, já descreveu no seu texto. Aprendo muito com você sobre emoções humanas. Beijos
    Lembrando de sua postagem anterior, a penúltima 'palavra-segurança' foi ecosall. Que sal ecológico será esse? Eu que gosto de cozinhar, tenho que descobrir (kkkkkk de novo). Bjs

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  2. A foto está espectacyular e a forma inteligente e profunda como aborda o tema tão delicado é simplesmente GENIAL!

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  3. Quem nunca sentiu ciúmes? aquele sentmento miúdinho que nos deixa inseguras....ou será a insegurança que traz ciúmes?
    É obvio que há graus diferentes de ciúmes, desde o mais básico e aceitável até ao delirante e exagerado! esse sim provoca graves problemas numa relação, quer seja ela amorosa ou de amizade.
    Não me considera ciumenta, mas confesso que já senti algo assim...e não gostei da sensação!!

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  4. Sei bem o que é isso...
    E como sei.
    Esse envolvimento virtual, é pura carencia do que não temos no real.Ou que nos falta coragem de viver...E o pior é que nos apegamos tanto que chegamos sim a morrer de ciumes...meio irracional neh?
    Bjos achocolatados

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  5. Olá amiga Regina!

    Fala quem sabe! e que bem que fala...parabéns!
    Confesso que sou ciumenta quando apaixonada de verdade, mas tento não mostrar...muito.

    Beijinhos

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  6. "Uma vez descoberto, o ciúme passa a ser considerado por quem é objecto dele como uma desconfiança que autoriza a enganar ."

    Beijo.

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  7. Nada além,entre mentes e de mentes,aqui chegar e se tratar patológicamente ,mormente terapeuta essa ,pela vida blen blen assim como moi aussi.
    Afmaria,pirei ,mas poeta continuei!
    El fuefo sedutor,disse e falou hehehe!

    bzuz amada apaixonada por minzinhu yesssssssssssss

    e que viva la vida uai!

    smaaaaaackkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  8. Ângela, amada!
    Se um dia vier a escrever um livro, contando alguns casos dessa minha clínica, o editor vai ter dificuldade para definir a categoria: ficção, romance, esoterismo, auto-ajuda, crônica, comédia, drama, poesia... Imagina se vc aprende algo comigo???? Deixa disso: lembre-se é uma troca e eu é que constantemente aprendo com cada cliente que tive e tenho o privilégio de receber, de me fazer pensar, questionar, rever, enfim viver e dizer todos os dias quando termino minha jornada: putz sabia disso não! Ecosalll é uma ótima pesquisa prá sua cozinha rsrs
    Beijuuss n.c.

    Rouxinol
    Seja muito bem vindo ao nosso Divã! Que bom que gostou...então apareça sempre, vou ficar felizzzz!
    Beijuuss n.c.

    Isabel, diva, amada!
    Todos... e não adianta negar messsmo. Mas como escrevi lá no post, quem já não sentiu esse incômodo afeto... que atire a primeira pedra.
    Beijuuss n.c.

    Sandra, minina achocolatada, amada!
    Irracional é chic... vamos escancarar messsmo: loucura, loucura total rsrs E tudo que escreveu tem, também, muito haver. Esse mundo virtual, acaba nos deixando sem viver o bom demais REAL!
    Beijuuss n.c.

    Ná, amada!
    É só "saber" dosar rsrs. Um cadim faz mal nauummmm. E aqui, não adianta esconder que o danado aparece rsrs!
    Beijuuss n.c.

    Manuel, poeta, amado!
    Seja com o ciúme ou outro afeto qualquer, somos nós que autorizamos o outro a qualquer coisa, sempre!
    Beijuuss n.c.

    Ah Ricaaaarrrdo, amado!
    Pira nauuuummmm rsrs tenho "Mêda" de perder esse poeta, eternamente sedutor!!!! Trem doido esse?
    Beijuuss n.c., sô

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  9. Ô Zé, pó pará cum isso, tá? Gozação tem limite rsrs Doidinha procê chegar e tricotar até nunca mais parar!
    Beijuuss n.c.

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