Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

COINCIDÊNCIA, ACASO, SINCRONICIDADE...

“O mundo me intriga, e não posso imaginar que este relógio exista e não haja relojoeiro”. Voltaire
Já aconteceu com você, de estar pensando em alguém e o telefone tocar e do outro lado da linha estar exatamente esse alguém? Ou também estar lembrando-se de uma determinada pessoa que não vê, faz tempo, e andando na rua dá de cara com ela? Auxílios financeiros que aparecem no momento exato em que você mais precisava? Sugestões ou opiniões que recebeu em uma conversa “aparentemente” informal e que muito contribuiu para seu autoconhecimento? Livros que chegaram às suas mãos, aleatoriamente, e que trouxeram ajuda significativa para a solução de problemas que estava atravessando? Essa “sucessão de acasos”, “inexplicáveis coincidências” que acontecem em nossa vida, geralmente, colaboram para nosso crescimento interior ou renovação espiritual. Pois bem, na nossa vida diária de psicanalistas é comum falarmos também em fenômenos estranhos, esquisitos, misteriosos. Falamos de comunicação de inconsciente para inconsciente, de comunicação não verbal, de projeção, negação, introjeção , de pensamento em busca de pensador. Falamos de posições esquizoparanóide e depressiva e de sua dualidade, falamos do incognoscível.
Devido ao envolvimento de Jung com o então chamado mundo do ocultismo, Freud, em 1909, teria dito que não queria ouvir mais nada sobre “a maré negra da porcaria do ocultismo”. Dois anos depois ingressou na Sociedade para a Pesquisa Psíquica inglesa e na americana, e publicou seus ensaios sobre o assunto. Durante pelo menos vinte anos Freud parece ter estado interessado em alguns fenômenos polêmicos. Contudo, apesar de seu interesse, chamava a esses outros campos de “colônias da Psicanálise, não a verdadeira pátria”.
Freud preocupou-se, argumentou e sofreu durante alguns anos, antes do rompimento definitivo com Jung, por quem nutria carinho, admiração e enormes expectativas. Desde 1898 Jung se interessava por todos os aspectos do “ocultismo”. Em maio de 1911, comunicou a Freud que estava “ampliando o conceito de libido de modo a designar com este uma tensão geral”. O ano seguinte foi decisivo no processo de separação dos dois. Jung tomou outro rumo, e logo seu posicionamento foi festejado e considerado, pelo British Medical Journal de janeiro de 1914, como seu “retorno a um enfoque mais são da vida”.
Em agosto de 1921, Freud escreveu o artigo intitulado Psicanálise e Telepatia e o apresentou, em setembro, a um seleto grupo de seguidores. Sentindo estar a psicanálise ameaçada por um tremendo perigo, disse que não seria mais possível manter-se afastado do estudo dos fenômenos “ocultos”. E que não havia lógica em temer que um interesse maior pelo ocultismo fosse perigoso para a psicanálise. Pelo contrário. Deveríamos, disse ele, “estar preparados para encontrar uma simpatia recíproca entre eles. Ambos experimentaram o mesmo tratamento desdenhoso e arrogante por parte da ciência oficial”.
Contudo, devido às diferenças existentes entre suas atitudes mentais, Freud considerava uma cooperação entre ocultistas e psicanalistas bastante improvável. Os primeiros seriam “crentes convictos” buscando confirmação, apressadamente, de suas convicções, e generalizariam resultados parciais a todos os fenômenos. Os segundos, diz Freud, “são no fundo incorrigíveis mecanicistas e materialistas, ainda que procurem evitar despojar a mente e o espírito de suas características ainda irreconhecíveis”.
Parece que isso não mudou desde 1921... Após alguns anos ocultando suas observações a respeito desse tema, Freud resolveu apresentar três casos, sendo o terceiro o relato de uma experiência clínica pessoal.
No ano seguinte, Freud publicou Sonhos e Telepatia. Parece que ele pretendia ler o artigo na Sociedade Psicanalítica de Viena, mas por alguma razão, desistiu de fazê-lo. Termina esse texto dizendo que quis ser “estritamente imparcial”, já que não tinha “nem opinião nem conhecimento sobre o assunto”.
Seu terceiro texto sobre o tema foi apresentado dez anos depois: Sonhos e Ocultismo (Conferência XXX). Nesse, ele enfoca especialmente a possibilidade de existência da transmissão de pensamento, em que “os processos mentais numa pessoa – idéias, estados emocionais, impulsos conativos – podem ser transferidos para uma outra pessoa através do espaço vazio, sem o emprego dos métodos conhecidos de comunicação que usam palavras e sinais”.
Após descrever em detalhes algumas situações clínicas que ilustram fenômenos mentais “tão difíceis de apreender”, Freud diz: “Aquilo que se situa entre esses dois atos mentais facilmente pode ser um processo físico, no qual o processo mental é transformado, em um dos extremos, e que é reconvertido, mais uma vez, no mesmo processo mental no outro extremo”.
(continua amanhã)












8 comentários:

  1. Mas isto é verdade e só não aconteceu ainda com o euromilhões.
    O restante quase todos os dias se vai repetindo e acontecendo..
    Essa parte do ocultismo não é de todo do meu agrado. O magnetismo que envolve determinados temas afecta-me negativamente.
    Assim embora saiba que existe finjo que desconheço.

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  2. Queridíssima, vou, provavelmente, dizer uma heresia, na sua opinião: guardado o imenso respeito que tenho pelo caminho aberto por Freud para o 'oculto' inconsciente humano, tenho uma certa irritação por essa intransigência dele em relação aos outros aspectos do 'eu' e de seu repúdio ao rumo tomado por Jung. Pela minha experiência com o espiritismo, sei que muitas doenças mentais nada mais são que 'obsessões', quase sempre ignoradas pelos profissionais mais ortodoxos (tenho certeza que não é o seu caso). Enfim, Freud também era humano, também delirava e também transferia... Pode brigar comigo, uma ignorante dando 'pitaco' kkkkkk Beijos

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  3. Eu como mera curiosa...
    Só lendo refletindo e aprendendo.
    Bjos achocolatados

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  4. Luis, amado!
    Tens todo o direito de desconhecer aquilo que não lhe agrada, não lhe atrai... É o nosso famoso e tão falado exercício do "livre-arbítrio".
    Beijuuss n.c.

    Ângela, amada!
    Ignorante? Tá bom...conta outra rsrs Realmente Freud era humano (até onde sei rsrs) e como tal teve suas falhas, ao mesmo tempo que as utilizou, corajosamente como tantos outros cientistas, para fazer crescer suas idéias! Uma das partes mais dolorosas de sua biografia foi esse rompimento com Jung... voltar atrás, às vezes, é tão difícil, né?
    Beijuuss, minha linda, n.c.

    Sandra, amada!
    A gente tá sempre aprendendo... nem preciso dizer o quanto aprendo com vc... ou preciso? É troca, sempre!
    Beijuuss, menina achocolatada, n.c.
    ir contra tudo e todos

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  5. Como diz o adagiário popular: "cada macaco no seu galho", mas não posso deixar de tirar o chapéu para o Segismundo, ele conseguiu "mudar" as coisas no/do pensamento do ocidente!
    beijinho

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  6. É isso aí Zé, amado! Faço uso da "musiquinha" que tem como refrão..." ADO, ADO, ADO, CADA UM NO SEU QUADRADO" rsrs e tooooooodos nós, nesse círculo enorme, conectados pelo acaso, pela coincidência, pela sincronicidade, pelo que for....
    Beijuuss n.c.

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  7. Amiga Regina!

    Obrigada pelo link deixado lá em casa para este artigo, que tem efectivamente, muito a ver com o sonhar e a sua importância.

    Gostava de ter a possibilidade de estar um dia, literalmente, deitada no teu divã -:)

    Beijinhos

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  8. Ná amada!
    Que bom que gostou (leu a conclusão?)minha intenção foi somente colaborar para sua postagem. Quanto a deitares no meu divã, percebo que não é seu caso...é bem resolvida!rsrs
    Beijuuss n.a.

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