Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

MINEIRIDADE: LINDIM DIMAISSS!


Eu amo de viver essa crônica! Já se escreveu muito e de várias formas sobre Minas Gerais e sobre nós mineiros(as). Mas essa é bunitim dimaisss sô!
Felipe Peixoto Braga Netto (1973 - afirma que não é jornalista, não é publicitário, nunca publicou crônicas ou contos, não é, enfim, literariamente falando, muita coisa, segundo suas palavras. Mora em Belo Horizonte e ama Minas Gerais. Ele diz que nunca publicou nada, mas a crônica que apresento foi extraída do livro "As coisas simpáticas da vida", Landy Editora, São Paulo/SP - 2005, pág. 82.)

Gente, simplificar é um pecado. Se a vida não fosse tão corrida, se não tivesse tanta conta para pagar, tantos processos - oh sina - para analisar, eu fundaria um partido cuja luta seria descobrir as falas de cada região do Brasil.
Cadê os lingüistas deste país? Sinto falta de um tratado geral dos sotaques brasileiros. Não há nada que me fascine mais. Como é que as montanhas, matas ou mares influem tanto, e determinam a cadência e a sonoridade das palavras? É um absurdo. Existem livros sobre tudo; não tem (ou não conheço) um sobre o falar ingênuo deste povo doce. Escritores, ô de casa, cadê vocês? Escrevam sobre isto, se já escreveram me mandem, que espero ansioso. Um simples "mas" é uma coisa no Rio Grande do Sul. É tudo menos um "mas" nordestino, por exemplo. O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora? Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor. Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque. Mas, se o sotaque desarma, as expressões são um capítulo à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende... Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é... Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar". Não dizem: onde eu estou? dizem: "ôndôtô?"). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho. Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem - lingüisticamente falando - apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.
Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro - metaforicamente falando, claro - ele é bom de serviço. Faz sentido...
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê ta boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário. Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer:
- Mexe com isso não, sôo (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício. Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:
- Áqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô. Esse "áqui" (acho que) é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor. Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele...". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa. Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça. Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:
- Eu preciso de ir.
Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam... Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:
- Ah, mãe, eu preciso de ir?
No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:
- Ai, gente, que dó.

É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado. Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".
Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar:
-"Ô, é sem noção".
Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu?
Ouço a leitora chiar:
- "Capaz..."
Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "tá fácil que eu faça isso", com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um "capaz..." como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bündchen, ela dirá:
- "Ô dó dôcê".
Entendeu agora? Não? Deixa para lá.
É parecido com o "nem...". Já ouviu o "nem..."? Completo ele fica:
- "Ah, nem..."
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz:
- "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?".
Resposta:
- "Ah, nem..."
Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta:
- "Você não vai?".
A pergunta, mineiramente falando, seria:
- "Cê não anima de ir"?
Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem...
Certa vez pedi um exemplo e a interlocutora pensou alto:
- "Você quer que eu 'dou' um exemplo..."
Eu sei, eu sei, a gramática não tolera esses abusos mineiros de conjugação. Mas que são uma gracinha, ah isso lá são.
Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o papel todo molhado. Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.
Falando em "ei...". As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade... Tem tantos outros... O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras. Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar:
- "Ah, fui lá comprar umas coisas... "
- "Ques coisa?, ela retrucará.
Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:
- "Ele pôs a culpa 'ni mim' ".
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas... Ontem, uma senhora docemente me consolou:
- "Preocupa não, bobo!".
E meus ouvidos. já acostumados às ingênuas conjugações mineiras. nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética e diz tudo.
Até o tchau em Minas é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz "tchau pro cê", "tchau pro cês". É util deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, minha filha, é prôcê, não é pra outra entendeu?
Deve haver, por certo, outras expressões... A minha memória (que não ajuda muito) trouxe essas por enquanto. Estou, claro, aberto a sugestões. Como é uma pesquisa empírica, umas voluntárias ajudariam... Exigência: ser mineira.

9 comentários:

  1. Amei,terapeuta linda ,que blen blen este que te digita,garimpastes!pura magia,só triste fiquei em não conseguir comentar no outro blog,buáááááááá sniffffffffffffffffffffffff!
    Viva la Vida1

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  2. Ricardo
    Quanta honra em recebê-lo aqui nessa visita carinhosa de retribuição. Brigadim!!! O outro blog, na realidade, vai ficar prontinho logo, logo... é só um desejo de melhorar esse aqui mesmo.
    Beijuuss mineiros n.c.

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  3. Manuel
    Cê num faz idéia desse sotaque sô! É linduuuu messsmo... nosso charme, do jeitim que o Felipe escreveu!
    Beijuuss mineirinhos procê tb!

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  4. "Ah, com com mineira não"...
    Bjis

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  5. Aqui ó!!!Demais de lindo esse post!!!Matei um pouquim da saudade!!!
    Bjs
    Zu

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  6. Eiii Zu
    Que sôdade dôcê aqui moça!!!rsrs Num me abandona não! Fico felizzzz que pôde matar um cadim da saudade.
    Beijuuss n.c.

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  7. Agarrei! Minha querida Regina.
    Foi de demais e até ao fim.
    Uma riqueza grande essa cultura mineira, mas não só. Num país tão grande as diferenças devem ser muitas. Tenho tido o privilégio de do contacto aqui em Portugal. Tem vezes que mesmo falando devagar, não chega porque os termos são mesmo diferentes.
    Adorei e dou toda a razão ao Felipe, por estar muito mal, haver livro de tudo e para os diversos "falares" não.
    Seria um excelente levantamento e contributo, porque estas coisas não são estáticas, vão sempre chegando novos termos e de geração em geração os existentes ao fim de muito tempo tendem a alterar mesmo que ligeiramente.
    Em Portugal, algumas pessoas não conscientes da riqueza cultural que são essa diferentes maneiras de falar, os sotaques etc., gozam e amachucam o povo que mantém essas tradições.
    Eu valorizo e muito, pois Portugal é é um país muito pequeno, mas com muitos sotaques diferentes que personalizam cada região.
    Esses são valores demasiado preciosos para não se registarem de forma escrita para os vindouros.
    Este artigo está excepcional, por completo, bem escrito e cheio de bom humor.
    Bem hajas pela colocação.
    Querida amiga Regina, recebe um beijo carinhoso e o meu habitual kandandu a atravessar tanto mar para ti.

    Muita qualidade, neste blogue...

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  8. Kimbanda amigo querido
    Pois então! Meu país é realmente enooooorme e cada região, estado, carrega sua cultura,tradições, seu sotaque. Quando viajo por ele, a sensação é de estar em outro(s)país(es)tamanha diversidade em tudo. Tenho o privilégio de ter bons amigos em quase todos eles e quando nos encontramos...você pode imaginar? É um tal de "tu tens"(lá do sul)com "queroooo não" (do nordeste), salpicado com excessossssssss de sssss dos cariocas que ah nem (rsrsrs)da mineira aqui! Mesmo com aquela gozação de todos com cada um adooooramos quando esses encontros acontecem. É bão dimaiiiisss sô!
    Beijuuss n.c do lado de cá do Atlântico com kandandu apertadinho

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