Não importa onde estamos, numa mesa de bar ou no divã do analista, nossa mente nunca para e nossos medos e desejos nunca nos abandonam. Nem por um instante nos separamos do que realmente somos e, por mais difícil que seja, não controlamos cem por cento nossas atitudes. Se Freud, após 40 anos de estudo da mente humana, continuou com várias dúvidas sobre o ser humano, quem sou eu ou você para julgar as “crises histéricas” da melhor amiga? Só Freud explica!?!
Coisas simples que todos vivemos,pensamos,sentimos e nem sempre conseguimos partilhar. Assuntos, temas, extraídos da minha experiência clínica e do meu cotidiano. Em alguns você pensará: tô fora... Em outros: tô dentro...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MINISTÉRIO DO AMOR ADVERTE....

Ele chega, eufórico, à sessão e antes mesmo de se deitar no divã, se atropela nas palavras: -Tô apaixonado, louco por ela! Êita trem bão essa tar de paixão... Já fazia muitos anos que não sabia o que era isso. Brinca com as palavras, jogo perigoso para seu coração. A paixão é um sentimento parecido com o amor, mas não é amor. É um envolvimento excessivo na relação amorosa. Se há uma coisa que nos deixa angustiados ao extremo é a tal da paixão. Ela tanto nos enleva como nos coloca no chão. É como trator, trem-bala que passa por cima da gente atropelando e não há ser que não tombe. Enaltecê-la é equívoco freqüente e renitente. Ao contrário da angústia, traz euforia e sentimento de consolo, como se tivéssemos encontrado a fórmula, mais que procurada, da fonte da felicidade. Mas, como tudo que é bom dura pouco, lá vem à realidade para nos acordar do doce enlevo. Falam ainda que, quem ama o feio bonito lhe parece e essa negação da verdade sobre qualquer defeito ou feiúra do amado cai feito uma luva ao apaixonado. É difícil amar sem mentir sobre as verdades do outro. É como se para amar alguém esperássemos que ele fosse perfeito.

Na verdade, a paixão é certo enlouquecimento. O sujeito perde sua identidade: já não respira sem o outro, não se alimenta direito sem o outro, pensa o tempo todo no outro. Todos nós temos uma ferida: o medo do abandono. Por isso temos a necessidade de nos apegar a alguém. Apesar de a paixão ter sido muito enaltecida pelos poetas, ela é considerada uma forma mais branda de enlouquecimento. A paixão vem do latim patere, que significa sofrer. Por isso os relatos, poesias dos apaixonados há o colorido do sofrimento. A paixão faz o todo, o um, preenche vazios existenciais temidos. Ela tampona toda divisão, ela é absoluta, não cabem dúvidas, mesmo que elas existam... Não queremos saber delas. Por isso, na ausência do outro que é objeto da paixão, ficamos ansiosos e sua demora causa angústia e desespero. Vai me dizer que isso é bom? Pode até parecer, mas não vai muito longe.
Por outro lado, a paixão indica um desejo de amor e podemos transformar a paixão em amor. Quando você recupera sua identidade e consegue transformar a paixão em algo mais calmo. Como fazer isso? Devolvendo a autoestima. Gostando mais de você mesmo. Assim, o amor ao outro é um trasbordamento do próprio amor. E é o amor que nos sara da loucura. Como diz Guimarães Rosa: “qualquer amor, por menor que seja, é descaso na nossa loucura”.
As pessoas com baixa autoestima normalmente se apaixonam mais facilmente pelo outro. São as pessoas que têm mais medo de ser abandonadas, que têm muita necessidade de ser amadas. É uma carência de afeto. Elas têm de preencher o vazio delas. Por isso mesmo, não há necessidade do Ministério da Saúde advertir: a paixão é sempre prejudicial.
A paixão é mais comum na adolescência, mas pode ocorrer em qualquer idade. Daí ouvirmos freqüentemente dos apaixonados: estou me sentindo como um adolescente!
Pensando claramente, a paixão é indesejável e conduz o apaixonado a dar passos incertos acreditando em outro ideal. Por mais imperfeito ou possível que esse outro se mostre, o sujeito não quer saber. E este não saber, pura alienação, é desejado, defendido e protegido, de modo que o sujeito encontra quaisquer racionalizações, as mais inverossímeis, e as defende ardorosamente.

A paixão como caminho para o amor é até natural que ocorra como pretexto para aprendermos a amar. O que não podemos é ficar infantilmente instalados numa ânsia de sermos amados, sem nos curar da paixão.
Cada um é absolutamente único, é uma possibilidade no mundo. Cada um é responsável pelo desenvolvimento e autorealização. É a partir daí que me encontro com o outro e vou construir junto dele. Eu quero o outro não para me preencher, me fazer feliz. Amor é crescimento, é libertação e não posse, domínio, controle. Distinguir a paixão do amor é fundamental para esquecermos o que séculos nos ensinaram, por exemplo, em Romeu e Julieta, a morrermos para provar o amor. Só assim não acharemos natural misturar a dor e o amor. Hoje, as pessoas não querem o amor à verdade, simples laço incompleto, que permite falhas, suporta imperfeições. Querem o amor perfeito, por isso estão aí buscando como loucos amores completos, divinos, totais e capazes de suscitar grandes angústias. E é aí que mora o perigo: as pessoas se tornam alvos fáceis para os mais lúcidos, vividos e por que não dizer perversos, que se satisfazem e aproveitam bem o engano dos apaixonados.
O Ministério do amor adverte: ao persistirem os sintomas procure seu AMOR! (Regina Rozenbaum)

24 comentários:

  1. O seu texto foi oportuno e generoso.

    É bom que muitos escrevam sobre o amor; "libertação e crescimento".


    Que a luz esteja sempre em seus propósitos.

    ResponderExcluir
  2. O amor é lindo... Me faz viver momentos espetaculares..

    Bjuxxxx

    ResponderExcluir
  3. Hola Regina,

    muy lindo tu texto!
    Es verdad... lindo es cuando la pasion se transforma en amor...

    Gracias por tu visita.

    Saludos,

    Sergio.

    ResponderExcluir
  4. Bravíssimo, doutora!
    Li muita coisa aí que fez a carapuça se encaixar perfeitinha, e eu afundando aqui na cadeira...rsrs.

    O ministério do amor bem que podia descobrir logo o antídoto pra essa deliciosa loucura, nao acha?

    Beijos...Bom fim de semana.

    ResponderExcluir
  5. Zijn passie en fantasie, dat laat ons welsprekend.

    ResponderExcluir
  6. São a paixão e a fantasia que nos deixam eloquentes

    ResponderExcluir
  7. Oi Regina...coment ja respondido la no VS.Thanks.

    Regina...'eita' tema que adoro falar..discutir...e mais ainda viver!rs...e saiba, amiga...tanta coisa mudou nos ultimos 8/9 meses em relação a tudo que permeia o amor e relacionamento. Nâo...não tenho nenhuma formula...foram preciso 2 casamentos, sessões de analise...cursar psico...ler filosofia, muito aristóteles, platão, principalmente...artigos aqui ali...'alguns blogs'...e então ver como de fato podemos ter mais próximo o pseudo controle do amor...e mais ainda, entende-lo, e perceber 'sua verdade', sem projeções ou idealizações. Algo que transformou-me muuuuito, antes de seguir psico...mas ja fazendo analise...foi 'O banquete' de platão e uma materia do prof. Manione sobre o mesmo. Alí entendi o verdadeiro amor que é o Platônico (e não como algo infrutifero pelo senso-comum)...e a questão da posse, da cara-metade e tal... em que a materia finda com 'o amor é uma eterna busca, pois finda esta, surge a posse que finda o amor'. Não, amada amiga...não é tão raso ou simples quanto transparece a frase...e alias, devo ter digitalizado a tal materia e localizando envio a ti.
    Em um termo que 'roubei' da Denise, surgido em uma de nossas prosas e em nada a ver com a questão, 'desapaixonar' é tão possível quanto cabivel e que deve ser praticado com a mesma força do 'apaixonar-se'. Consiste em neutralizar os estimulos da pessoa amada, que se foi, ou deixou-nos, de tal forma que não 'a destruamos' mentalmente (ainda que alguns o façam em realidade) para que por esse mecanismo possamos enfim viver 'sem ela'. Acredite...coloquei em prática, ao estilo Freud 'pus-me' como objeto de pesquisa e dei a cara, o corpo, a mente e o coração para essa experiencia que involuntariamente tive que fazer...resultado: SUCESSO.
    Na diretriz da neuropsicologia, sigo querendo aprofundar-me no entendimento das emoções...sejam psico ou fisiologicas...indo de Vygotsky, passando por Freu até Steinberg, Kandal..e outros pesquisadores Neuro-cognitivistas/comportamentalistas.
    Entre sensações e as transduções revertendo em emoções...o que se passa de fato? que poder de atribuição possuimos... e como trabalham...e como são capazes de promover a autodestruição (eu passei perto).
    como vê...mal avancei no seu texto...e ja enchi essa coluna...e o tempo esta se esgotando nesse computerximetro (que m....), mas muito bem gasto aqui...feliz em ler o que li.
    Obrigado amiga por tão valiosas contribuições que nos dá.
    bjs
    Julio

    ResponderExcluir
  8. Excelente, Rê. Nunca é demais lembrar às pessoas a grande, enorme diferença entre a paixão e o amor !
    A diferença entre o que chega a ser péssimo e aquilo que é óptimo !
    Beijão
    .

    ResponderExcluir
  9. Que lindo e importante texto.
    Bom fim de semana!

    ResponderExcluir
  10. Olá Regina,

    muito interessante o teu texto.
    Há diferenças sim, mas o bom mesmo é viver um grande amor...:=)!!!

    Um beijo e bom final de semana.

    ResponderExcluir
  11. Oi querida já estou melhorzinha...obrigado pelo carinho lá no blog!!!
    beijão
    sermulhereomaximo.blogspot.com

    ResponderExcluir
  12. Olá Regina!

    Esta leitura do que paixão é, ou possa ser, uma certa forma de doença parece-me ser bem dura, certamente olhada por uma mente inteiramente govenada pela razão, característica que nunca liga muito bem com emoção. E paixão, amor, sentimentos, são emoções que, eu acho, nunca casam muito bem com mentalidades radicalmente racionais: Acho que em larga medida serão mesmo contraditórios ou incompatíveis; tenderão a excluir-se mutuamente.
    No limite, concordo, a paixão descontrolada, cega,será a completa ausência de racionalidade; será o triunfo total da emoção sobre a razão.
    Daí a que isso seja negativo ou doentio, não estarei tão certo.No fundo, quem não gostaria de se sentir apaixonado, deixar-se levar pela emoção, e esquecer a razão ...???

    Beijinhos amigos; bom fim de semana.
    Vitor

    ResponderExcluir
  13. Opa!! (como vocês dizem tão bem!).
    Fiquei sem palavras Rê, ainda vou ler mais uma vez!
    Gostei, é muito real e acertado o teu raciocínio, fala concerteza a voz da experiência pessoal ... profissional.
    É bom que muita gente leia, hum!! hum!!
    Bjs.

    ResponderExcluir
  14. huum.. paixão é fogo que arde e todo mundo vê é ferida que dói e dói pra valer...

    :D

    rs

    um beijo

    ResponderExcluir
  15. é PERIGOSA A PAIXÃO NÉ, AMOR É MAIS LIGHT, TRANQUILO, SEGURO....BJKS....BOM FINAL DE SEMANA...gIL

    ResponderExcluir
  16. Cláudio, amado!
    Quanto tempo hein???? Fiquei felizzzz dimaisss com sua visita...Que a LUZ esteja sempre em todos nós e em todos os nossos propósitos!
    Beijuuss n.c.

    Carlos, mininu-poeta, amado!
    Nem me fale rsrs. Ahhh o AMOR... E-S-P-E-T-Á-C-U-L-O!!!
    Beijuuss n.c.

    Sérgio, amado!
    Vindo de um escritor como vc fico honrada dimaiiisss com o elogio. Gracias...
    Beijuuss n.c.

    Milene, pétala-ternura, amada!
    E quem não gosta dessa deliciosa loucura, que atire a 1ª pedra rsrs. O único probleminha é quando se fica só na paixão... aí é vapt-vupt, tiro e queda lá no chão!
    Beijuuss n.c.

    Manuel, poeta, amado!
    E depois da fantasiosa eloquência, vem o quê??? Vai ter que me contar rsrs... Um final de semana maravilhosamente amoroso procê.
    Beijuuss n.c.

    Júlio César, amado!
    Êita férias danadinhas de boa, sô! Dois casamentos + sessões de análise (o pão meu de cada dia) + filosofia + desapaixonar só poderia de dar um verdadeiro BANQUETE = SUCESSO! UAU... sangue de Freud, Lacan e o do nosso coração a tapa tem poder!!!! Esse tricô rende...
    Beijuuss n.c.

    Rui, amado!
    Além de lembrarmos... construirmos, né? Não é fácil, mas quando chegamos lá é TUDODEBOM!
    Beijuuss n.c.

    Rosa, amada!
    Se tirou um cadim de proveito fico felizzz dimaiiisss. Um final de semana amoroso procê!
    Beijuuss n.c.

    Amélia, amada!
    Eu TÔDENTRO rsrs. Um grande AMOR é vida!!!
    Beijuuss n.c.

    Luna, amada!
    Que bom... Good news!!!
    Beijuuss n.c.

    Vitor, amado!
    Calma, amigo, muiiiita calma nessa hora (como digo por aqui rsrs)Lê novamente minhas reflexões e verás que: A paixão como caminho para o amor é até natural que ocorra como pretexto para aprendermos a amar. O que não podemos é ficar infantilmente instalados numa ânsia de sermos amados, sem nos curar da paixão! Mas de qualquer maneira tenho o maior respeito por aqueles que querem ficar só na paixão... Euzinha, prefiro a partir dela chegar ao nada angustiante AMOR! Bom final de semana para você também, meu amigo.
    Beijuuss n.c.

    Urbano, amado!
    Agora falamos assim: UÊPA rsrs. É assunto delicado de ser tratado, controverso, mas já sabia que daria pano prá manga rsrs
    Beijuuss n.c.

    Daniela, seja muito bem-vinda!
    Bem, é dessa ferida que dói e corrói que tentamos de tratar vira e mexe num outro divã.
    Volte sempre que quiser, sempre terá um lugar reservado, amorosamente, aqui no nosso Divã.
    Beijuuss n.c.

    Gil, amada!
    É bem mais light messsmo rsrs. Bom final de semana procê também!
    Beijuuss n.c.

    ResponderExcluir
  17. Olá, Regina!
    Êita que não para de escrever, hein?
    Bonito o selo "Regina..." e verddeiro também! Obrigado pela força lá no blog, e não se preocupe, não serás trocada por 6 ou 60 ou 600!
    Bjs e continue amando!
    Rike.

    ResponderExcluir
  18. Rike, mininu, amado!
    UFAAAA... tava preocupada sô! Depois que fez aquela declaração linda dimaiiiisss prá euzinha e nosso Divã ser trocada por seis nauuuuummmm ia agradar nadica de nada rsrs. Aí ia ter que afirmar: era paíxão, fogo de palha que logo se apaga! Agora posso dizer: "É O AMOOOOOORRRRR Que mexe com minha cabeça e me deixa assim..."rsrs
    Beijuuss n.c.

    ResponderExcluir
  19. Tema instigante esse...se pensarmos na paixão como uma fome, ela seria voraz. E assim que aplacada (a fome), talvez feneça, e explique-se o fenômeno que diversos estudos demonstram um tempo/período/prazo de duração para essa euforia/enlouquecimento...

    A evolução para o amor passa por "querer o outro não para me preencher, mas me fazer feliz", andando longe da carência afetiva que algema as pessoas numa falsa relação feliz. Amor e dor não combinam mesmo, por mais que os poetas escrevam sobre as dores de amor...

    Adorei o tema e a elaboração do texto, lúcido, explícito e...apaixonado!

    Bjos, minha querida....sigo por aqui, TÔ DENTRO aprendendo muito!!

    ResponderExcluir
  20. Quando a eloquência, inspirada do íntimo da alma, regurgita em jorros dos lábios da amante, é certo o triunfo ...

    Beijão

    ResponderExcluir
  21. Dê, moça linda de viverrr, amada!
    Gostei da complementação: voracidade... E é tema que já foi discutido em "calorosas" (prá não dizer outra coisa rsrs) jornadas, seminários, congressos. Escrevê-lo de uma forma mais clara, sem rebuscamentos e ao mesmo tempo sem perder o rigor teórico, não é brinquedo não... Mas, desde o início sempre foi essa minha proposta aqui no Divã. Vou tentando e um dia chego lá (nem sei onde rsrs).
    Beijuuss n.c.

    Manuel, poeta, amado!
    Afff... sem nada mais a declarar, só digo: AMÉM!
    Beijuuss n.c.

    ResponderExcluir
  22. Oi Regina...
    ai ai...sangue de Freud...
    coração a tapa...kkkkk....
    e isso será meu pão também...rs...
    bj
    boa semana.

    ResponderExcluir
  23. Júlio, amado!
    Do jeito que ando tô passando a "padaria" rsrs Cabeça minha tá dando tilte, kilte e outros iltes!!!
    Beijuuss n.c.

    ResponderExcluir

Passou por aqui? Deixa um recado. É tão bom saber se gostou, ou não...o que pensa, o que vc lembra...enfim, sua contribuição!

Ocorreu um erro neste gadget